Apresentação

Como cheguei aqui

Sempre gostei de indicar filmes e compartilhar informações, sensações e opinião pessoal sobre eles. A atividade cinematográfica é uma das minhas paixões. Optei aqui por indicar 3 filmes por mês, manifestando a minha opinião como um simples espectador, compartilhando algumas informações sobre os filmes selecionados. Espero que o resultado seja agradável para quem visitar.

Enquanto for interessante, estarei por aqui...


Cinema Paradiso (Itália/França, 1988)

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Lembranças de um Verão (Hearts in Atlantis, 2001)

Eu indico
Hearts in Atlantis (EUA, 2001)

Após a morte de um amigo, Bob Garfield visita sua cidade quando era uma criança e começa a relembrar seu passado. Nessa época, quando tinha apenas 11 anos, apareceu em sua vida um senhor misterioso chamado Ted Brautigan. Entretanto, é com a amizade e atenção de Ted que Bobby aprende a ter uma outra visão de seu falecido pai, bem como as possibilidades que a vida lhe oferecia na época. Escrito por William Goldman e dirigido por Scott Hicks.

Corações na Atlântida:
Stephen King não somente escreve livros e contos de terror, mas também possui suas histórias dramáticas. Este filme tem como base dois contos do livro “Hearts in Atlantis”, os contos “Low Men in Yellow Coats” e “Heavenly Shades of Night are Falling”. A história tem suas pitadas de ficção e suspense, quando trata da questão da paranormalidade, mas é essencialmente um bom drama. Existem outros bons exemplos de filmes inspirados em suas obras, que não são de terror: “Conta Comigo” (“Stand by Me”, 1986), “À Espera de um Milagre” (“The Green Mile”, 1999) e meu preferido “Um Sonho de Liberdade” (“The Shawshank Redemption”, 1994). A amizade entre protagonistas é um tema em comum entre esses filmes, assim comum uma pequena dose de suspense ou ficção.
A amizade entre o garoto Bobby Garfield (Anton Yelchin) e um estranho senhor, Ted Brautigan (Anthony Hopkins), que chega à pacata cidade do primeiro, é a chave da trama. O garoto sente a falta de um pai que mal conheceu e isso fica mais forte quando sua mãe se preocupa com futilidades e somente com si mesma, enquanto que o personagem de Hopkins se mostra uma pessoa que teve uma infância sem muitos amigos, provavelmente por conta de seu dom que faz com que o governo fique à sua procura para se aproveitar dos “poderes” e combater comunistas (quase que uma lenda urbana da época, anos 60). A participação de Anthony Hopkins, como de costume, é um diferencial, tão bom que este parece mesmo não enxergar bem, e percebemos isso antes do personagem assumir que possui a visão prejudicada.
O garoto fica fascinado inicialmente com o aspecto enigmático de Ted, protegendo seu grande segredo, mas é o cuidado e as orientações do senhor que vão causar ao garoto uma verdadeira admiração, levando-o a perceber detalhes ao seu redor, principalmente nas questões pessoais. Ted dá a dica a Bobby para aproveitar aquele verão com seus inseparáveis amigos, a experimentar um verdadeiro amor de infância e a conhecer características boas de seu falecido pai. Também aprende a perdoar e a repassar a bondade, como visto nas últimas cenas, onde ele entrega à filha de Carol Gerber a foto da mãe da garota, ainda pequena, o que deve trazer sensações positivas da filha em relação à mãe que ela não deve ter conhecido bem. A atriz Mika Boorem interpreta mãe e filha.
Tudo se passa rapidamente pelas lembranças do bem-sucedido fotógrafo Bob (David Morse), quando visita sua antiga cidade. O diretor Scott Hicks mencionou que o “11″, marcado na janela de Bobby, significa que todas as lembranças se passaram em questão de segundos na mente do personagem adulto. Isso fica evidente por causa da condensação na janela que evapora. Esses detalhes especiais no filme são reflexo do roteiro escrito pelo veterano William Goldman, autor de roteiros consagrados como “Butch Cassidy” (1969), “Todos os Homens do Presidente” (1976) e “Chaplin” (1992). O monólogo de Anthony Hopkins sobre o jogador de futebol que retorna da aposentadoria é do romance Um Passe de Mágica (Magic), do próprio William Goldman, que também escreveu o roteiro da adaptação de seu romance, no qual Hopkins também foi protagonista.
Com uma dose de sensibilidade, o diretor Scott Hicks (do excelente “Shine: Brilhante”, de 1996), mostra a trajetória deste menino de 11 anos e a forma como ele projeta no carismático Ted a presença de um pai que mal conheceu. O filme também usa músicas consagradas dos anos 60, como “Only You”, “Smoke Gets in Your Eyes” e “The Twist”.

Às vezes, quando somos pequenos, temos momentos de tal alegria que achamos que estamos vivendo num lugar tão mágico como deve ter sido Atlântida… depois crescemos e os nossos corações se partem em dois.”

Eu não trocaria nem um minuto. Por nada nesse mundo.”

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Fontes:

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Invocação do Mal (2013)

Eu indico
The Conjuring (EUA, 2013)

Harrisville, Estados Unidos. Com sua família cada mais mais apavorada devido a fenômenos sobrenaturais que a atormentam, Roger Perron (Ron Livinston) resolve chamar dois demonologistas mundialmente conhecidos, Ed (Patrick Wilson) e Lorraine (Vera Farmiga). O que eles não imaginavam era ter que enfrentar uma entidade demoníaca poderosa, que demonstra ser a maior ameaça às suas carreiras. Dirigido por James Wan.

Terror baseado em fatos reais:
O terror de verdade não precisa de monstros, sanguinolência, sustos sucessivos... precisa causar medo, causar frio na espinha, tensão, arrepio, suspense. James Wan mais uma vez acerta na dose e no estilo, e agrada aos fãs do gênero (e também a quem não é fã), com uma história bem interessante e, como se já não bastasse, baseada em eventos reais, o que deixa o filme mais assustador e com mais credibilidade. Para saber um pouco mais sobre este diretor, é só olhar a postagem sobre o filme Sobrenatural (“Insidious”, EUA, 2011):
http://eueatelona.blogspot.com.br/2013/07/sobrenatural-insidious.html
Invocação do Mal tem, entre os personagens, a família Perron e o casal de estudiosos paranormais Ed e Lorraine Warren, autoproclamados “demonólogos”. Ambos existiram e, pelo visto, o casal vivenciou experiências diversas com este tipo de fenômeno, mas o caso dos Perron entrou para os seus arquivos como o mais assustador que eles já enfrentaram. Eles também se envolveram com o famoso caso ocorrido em Amityville, em 1975 (após este de Harrisville), inclusive nesta época houve uma polêmica na carreira do casal, que sofreram acusações de adultério de casos paranormais.
Desde “Insidious”, cerca de dois anos atrás, James Wan já amadureceu. As cenas de terror, em sua maioria, não precisam mostrar fantasmas e nem forçar sustos, para causar arrepio. É um personagem, uma garotinha, vendo alguma coisa assustadora (que o protagonista não vê, mas sabe que está ali), suficiente para causar medo; ela está chorando e apontando para um canto do quarto, perguntando à irmã se ela também está vendo. A câmera e a situação faz com que imaginemos o que pode estar ali, e praticamente podemos nos colocar no lugar da garota. Assustador. Uma das melhores cenas. O jogo criativo da câmera, algumas vezes do ponto de vista de algum personagem, de cabeça para baixo, de um lado para o outro, na eminencia de ver alguma coisa que está fazendo barulho, ou até o reflexo no espelho balançando de um lado para o outro, na expectativa de aparecer alguma entidade. A forma como a câmera se move na casa é de um cuidado raro. Sem contar a criatividade na cena da brincadeira das palmas. Além disso, cenas movimentadas também ficaram boas; de repente, personagens são puxadas pelo pé ou pelo cabelo... É um trabalho de direção interessante e pode colocar James Wan em um patamar de melhores diretores deste gênero, na atualidade. Nos resta agora esperar e apostar no sucesso de “Insidius 2”.
O ótimo elenco, mesmo com alguns atores não muito conhecidos, também ajudou muito. O casal Warren (Patrick Wilson e Vera Farmiga) está ótimo, assim como as crianças e a atriz Lili Taylor, que faz a mãe da família e sofre os diabos com os acontecimentos. Uma outra coisa que ajudou foi o filme começar bem, que já é uma característica positiva do diretor: a trama de cara mostra um outro caso do casal Warren (o da boneca sinistra), que acaba trazendo consequências para eles no decorrer de suas vidas.

"As forças demoníacas são formidáveis.
Essas forças são eternas, elas existem hoje.
O conto de fadas é verdadeiro.
O diabo existe, Deus existe.
Nosso destino cabe àquele que escolhemos seguir."
(Ed Warren)

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sexta-feira, 13 de setembro de 2013

A Coleção Invisível

Eu indico
A Coleção Invisível (Brasil, 2012)

A família de Beto (Wladimir Brichta) é dona de uma tradicional loja de antiguidades que está passando por uma crise financeira. Para tentar solucionar este problema ele se lança numa viagem até a cidade de Itajuípe, interior da Bahia, atrás de uma coleção raríssima de gravuras que foi adquirida há 30 anos por um antigo cliente, o colecionador Samir (Walmor Chagas). Entretanto, logo ao chegar Beto enfrenta uma forte resistência da esposa dele e de sua filha Saada (Ludmila Rosa). Dirigido por Bernard Attal.

Filme baiano, sensível e bem contextualizado:
Baseado no contro do austríaco Stefan Zweig (1881 – 1942), este é o primeiro longa-metragem dirigido por Bernard Attal, francês radicado na Bahia. Foi o último trabalho do ator Walmor Chagas no cinema, que faleceu neste ano de 2013. A ideia de existir uma rara coleção de gravuras de Cícero Dias (pintor do modernismo brasileiro), na mão de um fazendeiro no sul da Bahia, assim como todo o mistério que ronda a região e a reação da esposa e da filha em não cooperarem com o protagonista Beto, já apresenta uma característica de conto. Beto se mostra preocupado com o próprio problema, mas encontra uma realidade dura na pequena cidade de Itajuípe e, a partir dos acontecimentos, vai se transformando gradativamente. Desde o momento em que chega a cidade, fica sabendo da “bruxa”; essa praga famosa, a “vassoura de bruxa”, na década de 1920, destruiu milhares de plantações de cacau na Bahia, acabando com a economia de muitas cidades e levando pessoas da fartura à pobreza, em pouco tempo. Este retrato da destruição que a praga deixou na região, junto com o mistério da trama e a transformação pessoal de Beto, tornam o filme algo bem contextualizado, ao mesmo tempo simples e sensível. Vemos até a luta que ocorre na atualidade, através da filha do casal, interpretada por Ludmila Rosa, quando esta se mostra uma batalhadora vendendo cacau que colhe da própria fazenda, e defendendo a natureza das famosas queimadas que também caracterizam bem nossa realidade. O filme ficou com o prêmio de júri popular no Festival de Gramado.
A trama começa no ambiente urbano, onde Beto sofre a perda de amigos num acidente de carro, na cidade grande de Salvador. Pressionado pela sensação de culpa e pelas dificuldades financeiras, ele vê na coleção de gravuras uma oportunidade boa de melhorar sua situação. É a primeira vez que o baiano Vladimir Brichta atua como protagonista dramático, e ele passa um realismo bacana em sua interpretação, quando lembra de seus traumas e quando encara novas vivências.
A atriz Clarisse Abujamra passa a dor e a revolta da situação que vive, como esposa do fazendeiro colecionador, em poucas cenas e poucas falas, mas com uma atuação madura, tendo assim uma premiação merecida (melhor atriz coadjuvante no Festival de Gramado). Mais ainda o ator Walmor Chagas (melhor ator coadjuvante), que já estava com a visão prejudicada durante as filmagens, mostrando um fazendeiro já decadente que mantém uma paixão pela sua coleção de gravuras de Cícero Dias. Porém temos outros personagens que acrescentam bastante, como o motorista de táxi (Frank Meneses) e o radialista da cidade (Paulo César Pereio), além de crianças locais, que servem de guias para Beto. Representam bem a realidade social da cidade e, o pouco convívio que Beto tem com eles, acaba sendo um dos principais motivos de sua transformação.
Revelações no final da trama nos pegam de surpresa, da mesma forma que pegam o personagem, e assim podemos nos sentir tão transformados quanto ele. O nome “invisível” do título remete à coleção (e colecionador) esquecidos, assim como àquelas raras pessoas da cidade, esquecidas (quase invisíveis para o mundo). Gente invisível, gente esquecida. A trajetória de redescobrimento de Beto é o ponto forte do filme, por ser bem construída e por deixar a mensagem de que, muitas vezes, nos resta oferecer uma atitude humilde e uma amizade. Oferecer um abraço para um garoto, no final no filme, tem profundo significado, tão simples e tão raro que até causa estranheza ao garoto.

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Fontes:

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Cabaré Bibliotheque Pascal

Eu indico
Bibliotheque Pascal (Alemanha/Hungria/
Reino Unido/Romênia, 2010)

Mona é vendida como escrava pelo próprio pai a um estranho bordel, onde as prostitutas são forçadas a agir como personagens literários. Roteiro e direção de Szabolcs Hadju.

Era uma vez... um spoiler!
Um trailer empolgante como o deste filme, com uma trilha sonora bacana, deveria ser visto por todos. Com certeza muitos correriam para assistir. Quem ainda não viu, recomendo deixar para ler esta postagem depois (por isso o spoiler no título).
A cigana Mona (Orsolya Török-Illyés) vive nas ruas da Hungria ganhando a vida como artista. Para recuperar a guarda da filha, que deixou aos cuidados de sua tia, ela precisa explicar sua história ao assistente social, mas o que ela narra é uma aventura com momentos surreais. Em meio a histórias fantásticas, conhecemos a personagem e sua filha, assim como os suas improváveis aventuras e outros personagens pitorescos. A criatividade do húngaro Szabolcs Hadju se mostra fator crítico de sucesso. Imagine uma pessoa com o poder de projetar o próprio sonho para os outros verem. E, em seu clímax, o filme culmina para um bordel cult, o Bibliotheque Pascal, quando a personagem é vendida como escrava e fica aprisionada neste, onde os clientes podem viver suas fantasias sexuais com personagens pertencentes aos clássicos da literatura. Através de magníficas tomadas, efeitos especiais e uma trilha sonora muito boa, o diretor húngaro esbanja estilo e ousadia. Sob uma superfície de belas e sedutoras imagens, há uma história demasiadamente humana de uma mulher que usa a fantasia para amenizar as dores de sua existência, talvez até para esquecer de decisões que ela mesma tomou, ou coisas que não conseguiu evitar.
É importante perceber que Mona é uma exímia contadora de histórias, em algumas passagens do filme isso fica claro (ela ganha a vida exibindo um teatro de fantoches bem criativo e, no final do filme, conta uma história para a filha dormir, bem semelhante ao que aconteceu no Bibliotheque Pascal). Desde a forma como ela conhece o rapaz que foi o genitor de sua filha, até a parte onde ela é resgatada do Bibliotheque Pascal, de forma extremamente surreal, já temos pistas de que aqueles acontecimentos foram inventados, pois estamos em um drama, e não numa ficção. Porém, o que seria real naquilo tudo, já que Mona camufla os acontecimentos com uma história criativa? Ela constrói um mundo de sonhos e ilusões para tentar amenizar a dor que sofreu por toda a vida. É fácil comparar com o enredo dos filmes “Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas” (2003) e “As Aventuras de Pi” (2012), dado seu contexto cheio de situações fantásticas. Assim como Pi, ao ser forçada a contar a história verdadeira, a personagem chora.

Era uma vez, um poderoso rei, que tinha um palácio enorme, 
que era guardado por anjos mortos e ficava nas profundezas do solo,
não muito longe do inferno.
Ele tinha centenas de quartos. E havia uma centena de prisioneiros nos cem quartos. 
Eram todos personagens de contos de fadas, príncipes e princesas.
E os príncipes e princesas estavam muito tristes porque foram retirados de seus contos de fadas.
Mas as crianças estavam ainda mais tristes porque quando abriam os livros, 
achavam um monte de palavras chatas.
Não havia ninguém que pudessem admirar ou se entusiasmar, 
ninguém que pudessem imaginar ser antes de adormecerem à noite.
Mas havia uma pobre princesa entre eles. 
E ela decidiu fugir do palácio e retornar para seu conto de fadas...

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quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Monstros

Eu indico
Monsters (Reino Unido, 2010)

A NASA descobriu formas de vida alienígena dentro de nosso sistema solar. Ela envia uma sonda para coletar amostras, mas ao voltar à Terra sofre um acidente e cai no América Central. Seis anos depois uma nova forma de vida surge no México. O país é isolado como uma área infectada. Neste cenário, um jornalista fica encarregado de levar a filha do chefe de volta aos EUA, tentando chegar na fronteira. Dirigido por Gareth Edwards.

O amor e o medo:
A fronteira entre o México e Estados Unidos é um cenário de conflitos, propício para ser a base deste filme que, na verdade, é mais drama do que ficção. A zona entre um país e outro está em quarentena, desde que formas de vida extraterrestre caíram no México, por acidente, trazidos numa sonda espacial, seis anos atrás. A interação com o filme é interessante, pois com o passar das cenas, as coisas ficam mais claras, como por exemplo, o fato de que os alienígenas não vieram para invadir, conquistar, destruir; vieram por conta de um acidente sob responsabilidade de seres humanos. Sendo assim, nada mais natural do que se defenderem para sobreviver. A crítica sobre a mídia distorcendo as informações é clara e, com um pouco de atenção, percebemos quem são os verdadeiros monstros da história. Com certas características de documentário, funciona bem como um universo particular criado pelo diretor Gareth Edwards, especialista em efeitos visuais que tem, neste, a sua primeira experiência com direção. Temos efeitos interessantes considerando que gastou menos de 500 mil dólares. O diretor agora vai encarar o novo filme de Godzilla, previsto para 2014.
Num cenário de terceiro mundo, usando a técnica da sugestão, onde raramente vemos as criaturas por inteiro, somente os efeitos de sua passagem (bichos grandes parecidos com polvos), ou através de imagens e informações intermediadas pela TV, este filme trata também de dois sentimentos humanos, o medo e o amor. Não somente do ponto de vista dos personagens, mas também dos seres de outro planeta. Estrelado pelos atores Scoot McNairy e Whitney Able, interpretando um jornalista tentando atravessar a fronteira do México com os Estados Unidos, encarregado de levar a bela filha do chefe nesta arriscada empreitada. O trama de fundo romântico extrapola em uma cena onde vemos duas criaturas se relacionando, o que aproxima elas do comportamento humano. Além da sutileza se percebermos a condição das criaturas, maltratadas, e que estão tão aterrorizadas quanto nós. Murais velhos com ilustrações das criaturas mostram que, depois de seis anos, o México se acostumou às mudanças, embora o preconceito e a cegueira ainda estejam instalados. Até os humanos acabam sofrendo com a monstruosidade dos bombardeios na fronteira, responsáveis pela maioria das mortes no filme, embora a mídia seja tendenciosa em acusar os seres alienígenas.

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Fontes:

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Milagre em Milão (“Miracolo a Milano”)

Eu indico
Miracolo a Milano (Itália, 1951)

Uma mulher adota um bebê abandonado em sua horta. Depois de sua morte, o garoto é enviado para o orfanato. Ao completar 18 anos, Totó (Francesco Golisano) vai para Milão, onde passa a morar num terreno ocupado por miseráveis, mudando a vida de todos com sua bondade. Após descobrirem petróleo, os moradores são ameaçados pelo proprietário, que manda a polícia desocupar o local. Quando tudo parece perdido, Totó recebe uma ajuda dos céus, começando a fazer muitos milagres. Dirigido por Vittorio de Sica.

Milagre:
Para começar, o filme é um clássico do diretor Vittorio de Sica, o mesmo de Ladrões de Bicicletas (1971), que foi um dos primeiros diretores a usar elementos de neorrealismo nos filmes italianos. Em “Milagre em Milão”, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, é interessante como o diretor usa elementos de ficção na sua obra, e ainda mostra uma Itália suja, assolada pela miséria. A história de Totó é como uma fábula, ele surge no meio de uma plantação, no quintal da casa de uma senhora. Ela o adota e vemos, assim, a importância da criação, do exemplo que a mãe dá, mesmo não sendo a progenitora (não sabemos de onde veio o garoto e ele nem se importa com isso). Numa bela cena, o garoto derrama o leite na casa, e a senhora, ao invés de reprimi-lo ou castigá-lo, usa o cenário formado para brincar com o garoto e ensinar uma lição: “Que grande lugar é o mundo!”, diz a senhora. Após ela falecer, Totó vai para o orfanato e só sai quando adulto. Ele não sai revoltado, desesperado. Pelo contrário, ele abraça a vida que é possível ter. Se acomodando em um terreno tomado por mendigos, sua maneira de olhar o mundo, seu comportamento, vai contagiar a todos, com direito a um acontecimento especial – um milagre – que será concretizado através do garoto. Na verdade, o garoto em si já é o milagre, sua forma de encarar a vida, ajudando ao próximo, não se colocando acima de ninguém e considerando todos importantes. É a figura da gentileza, da simplicidade, a pregação da igualdade. Diante de alguém com menor estatura, o garoto se abaixa.
Os pobres, oprimidos, estão numa situação difícil: terão que abandonar sua morada por conta de um burguês que anseia pelo local. Só mesmo um milagre para salvá-los. Quando tudo parece perdido, Totó recebe uma ajuda dos céus, começando a produzir os milagres. Cenas engraçadas surgem, com seus efeitos especiais que, para a década de 50, foi também como um milagre para o cinema. Temos cenas como a do negro e de uma branca que se aproveitam do milagre para tentar ficar juntos, outra com soldados que são obrigados a cantar ópera para não falar o comando de ataque aos pobres moradores, entre outras. Numa cena, vemos que um garoto é usado como uma espécie de campainha (preso à uma corda, ele avisa quando alguém chegou à porta e puxou a corda). Bem engraçado!
Criatividade, cenas divertidas e muita reflexão. Sem contar o ator Francesco Golisano, que ficou muito bem no papel de Totó, nos contagiando com a alegria de viver, em contraste com a vida que leva, como se o maior dos problemas na verdade nem fosse um problema. O filme trata simplicidade e prega a verdadeira revolução. Os pobres, em uma cantoria agradável, mostram o que querem:

“Tudo o que precisamos é de um barraco
Para viver e dormir
Tudo o que precisamos é de um pedaço de chão
Para viver e morrer
Tudo o que pedimos é um par de sapatos
Umas meias e um pouco de pão
É tudo o que precisamos para crer no amanhã
É tudo o que precisamos para crer no amanhã.”

Só mesmo um milagre dos céus para ajudá-los, e uma mensagem de que nós podemos, com nossas atitudes, ser o milagre da vida. Perante Deus, somos todos iguais, como diz a frase no filme:

Existe um reino onde "bom dia" quer dizer realmente "bom dia"!

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Fontes:

terça-feira, 6 de agosto de 2013

A Espuma dos Dias (“L’ecume des jours”)

Eu indico
A Espuma dos Dias (França / Bélgica, 2013)

Colin, um jovem rico, quer se apaixonar. Com a ajuda de seu cozinheiro Nicolas e de seu melhor amigo, Chick, ele conhece Chloe, com quem se casa. Mas logo após seu casamento, Chloe fica doente. Ela tem um lírio de água crescendo em seu peito. Arruinado por despesas médicas, Colin recorre a métodos cada vez mais desesperados para salvar a vida da amada. Dirigido por Michel Gondry.

Fábula fantástica:
O diretor Michel Gondry, de “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” (2004), decidiu nos apresentar a um mundo surreal e fantástico, parecido com o nosso, sendo que através das semelhanças ele faz suas críticas à Revolução Industrial, Igreja, filosofia, capitalismo, entre outros, chegando até os sentimentos humanos, principalmente em relação à fragilidade do amor. Desde o início do filme, onde conhecemos o exótico ambiente de Colin, sabemos que o estilo, adaptado da obra de Boris Vian, autor do livro “A Espuma dos Dias”, é de um universo surreal, com comportamentos inventados e engenhocas fantásticas. Após duas adaptações, uma francesa de 1968 (“'A Flor da Vida, dirigido por Charles Belmont) e outra japonesa de 2001 (“Kuroe”, de Gô Rijû), chega agora às telas essa nova versão.
O cineasta francês parece gostar de explorar os limites da tecnologia e do surreal. Com direito a um piquenique com sol e chuva (ao mesmo tempo), objetos loucos como uma campainha que se move como um despertador pirado (que deve ser destruída toda vez), mesas móveis, comida que dança, um cozinheiro que orienta um aprendiz de dentro do fogão e da geladeira, um ratinho-homem que ajuda em várias atividades, e até um “pianocktail”, um piano que faz as bebidas de acordo com a nota musical e a intensidade com que ela é tocada. Brincando com imagens, sons, músicas, palavras e tudo o que existe, temos uma obra visual cheia de alegorias e todo um mundo em movimento.
Mas tudo isso é uma desculpa, não somente para criticar algumas questões da vida, mas principalmente para mostrar uma história de amor, que vai desde o seu surgimento meigo, interessante e alegre, até o seu estado de sofrimento por conta de uma fatalidade. Colin (Romain Duris) e Chloé (Audrey Tautou) se apaixonam e decidem viver juntos. Tudo vai bem até que a moça fica com uma grave doença após ingerir uma flor, que passa a crescer em seu pulmão. A situação em si é tão trágica e rara, como vários aspectos do filme. A partir desse fato, o filme ganha uma grande nebulosidade, as cores que eram vivas se perdem, a escuridão aparece, as engenhocas divertidas vão sumindo aos poucos, ou definhando junto com os personagens. O personagem Nicolas, fiel amigo, cozinheiro e faz-tudo de Colin, interpretado pelo carismático Omar Sy, de “Intocáveis” (2011), nos momentos de dor e sofrimento, reage com um envelhecimento desnatural.
A fotografia é fantástica, seja na primeira parte do filme (cores vivas e muita alegria), seja na segunda (cores ausentes e tristeza), onde tudo muda de tom e as pessoas são afetadas junto com o ambiente. O amor faz renascer, mas também pode fazer desabar toda uma vida, neste caso paulatinamente, mas com a sensação de efemeridade, como uma espuma que vai sumindo com os dias, e como se nos afundasse, enfim, num pântano sujo e escuro. Não deixa de ser uma fábula fantástica sobre a vida, o amadurecimento, os momentos bons e ruins e o preço do sentimento e do apego.

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Fontes: