Apresentação

Como cheguei aqui

Sempre gostei de indicar filmes e compartilhar informações, sensações e opinião pessoal sobre eles. A atividade cinematográfica é uma das minhas paixões. Optei aqui por indicar 3 filmes por mês, manifestando a minha opinião como um simples espectador, compartilhando algumas informações sobre os filmes selecionados. Espero que o resultado seja agradável para quem visitar.

Enquanto for interessante, estarei por aqui...


Cinema Paradiso (Itália/França, 1988)

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Memórias Secretas (Remember, Canadá, 2016)

Eu indico
Remember (2016)

Aos 80 anos, Zev (Christopher Plummer) aceita uma missão incumbida pelo seu colega de asilo, Max Zucker (Martin Landau): deixar o local em que vive em busca de um antigo guarda nazista. Seu objetivo é, mesmo após tantas décadas, puni-lo pelo assassinato de sua família durante a Segunda Guerra Mundial. Só que, ao longo da jornada, Zev precisa lidar com falhas de memória causadas pela idade avançada. Dirigido por Atom Egoyan.

Remember:
Essa é uma excelente opção, atualmente nos cinemas, ao menos aqui em Salvador, Bahia. Diante de uma gama de filmes pouco atrativos e sem originalidade, este aqui se destaca, mesmo com temas amplamente utilizados nos cinemas. Trata de um sobrevivente do holocausto em busca de vingança, quando descobre que o guarda nazista que matou sua família nos campos de concentração, está vivendo na América do Norte.
A novidade no filme é que o protagonista é um senhor de idade, ele tem 80 anos e possui uma doença que gera perda de memória, denominada demência (provavelmente causada por Alzheimer ou outra variante). Então, para cumprir sua missão, ele precisa ser bem organizado e se esforçar bastante para lembrar das coisas. Isso lembra os percalços enfrentados pelo personagem do filme Amnésia (Memento, 2000), de Christopher Nolan, interpretado de forma surpreendente pelo ator Guy Pearce, que no filme utilizava tatuagens no corpo para lembrar de coisas básicas, já que sofria de constantes perdas de memória, principalmente a memória recente. Enfim, como já era de se esperar, Christopher Plummer faz uma atuação magistral, esse ator que levou o Oscar de 2012 pelo filme Toda Forma de Amor (de Mike Mills). Ator canadense que, na vida real, já tem pouco mais de 80 anos e é um exemplo para o cinema. Ele atua em filmes e séries desde 1958 e possui uma gama de prêmios e indicações para o cinema e para a TV. Aqui neste filme Remember, ele nos passa todas suas sensações que o seu papel enfrenta.
A fragilidade do personagem chega a nos incomodar, até porquê vamos nos deparando junto com ele com as surpresas enfrentadas diante de sua condição. Essa junção da temática das cicatrizes deixadas pelo holocausto nos tempos atuais, com o suspense nessa busca por vingança por parte de um velho doente, foi providencial para garantir 94 minutos interessantes e com um pouco de adrenalina. O esquecimento constante, algo no qual qualquer um de nós estamos submetidos a encarar um dia, é elemento fundamental neste filme, que possui um final bem forte e impactante.

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quinta-feira, 19 de maio de 2016

Snoopy e Charlie Brown: o filme (2015)

Eu indico
The Peanuts Movie (EUA, 2015)

Próximo das férias de inverno, a vida de Charlie Brown e sua turma sofre uma mudança com a chegada na cidade de uma garotinha da cabelo vermelho. Charlie Brown logo se encanta pela jovem e tenta lutar contra sua timidez e sua baixa autoestima para falar com ela. Ao mesmo tempo, Snoopy encontra uma máquina de escrever e começa a imaginar uma história fantasiosa e heroica. Dirigido por Steve Martino.

Das tirinhas para a telona:
O cartunista Charles M. Schulz criou Snoopy e sua turma em 1950, desenhou todas as tirinhas e participou de todas as produções relacionadas aos seus personagens até sua morte, em 2000. Nunca mais ninguém havia escrito novas histórias envolvendo Charlie Brown e sua turma, mas o desenho animado encanta até os dias de hoje. Este filme, então, resgata essa energia que a história infantil sempre passou, com um avanço na parte gráfica para mostrar que estamos muitas décadas a frente, inclusive com a tecnologia 3D foi utilizada.
O filme foi autorizado pela família de Schulz, após anos de negociação. De fato, começou a se concretizar em 2007, após Craig Schulz, filho de Charles, assumir a obra do pai. Junto com o seu filho Bryan, desenvolveu o roteiro para o filme. O resultado é fiel ao ambiente original, uma animação agradável, moderadamente movimentada e engraçada. O sentimento de nostalgia e o carinho pelos personagens pode fazer muita gente gostar do filme, mesmo que não apresente nada muito novo em relação às histórias antigas. A garotinha de cabelo vermelho, a professora e adultos que nunca mostram o rosto e nunca entendemos o que eles falam, o azar inacabável de Charlie Brown, a esperteza e imaginação fértil de Snoopy, a casinha de cachorro de Snoopy onde cabe tudo... temos de tudo um pouco. Existe também uma mensagem bem positiva para crianças e adultos, voltada para a importância de ser gentil e altruísta, buscando sempre o bem para as pessoas ao redor, principalmente os amigos. A obra continua sendo uma forma de encarar a vida infantil com leveza e contém algumas lições importantes. A trilha sonora original, de Vince Guaraldi Trio, também está presente.
Como a família Schulz acompanhou o projeto, não tinha como perder a fidelidade com o original. Tem um destaque no filme que é uma das marcas registradas da obra: as cenas da imaginação do Snoopy, quando este se transforma no Barão Vermelho e entra em batalhas aéreas que, no fim das contas, refletem um pouco o que o seu dono e amigo Charlie Brown está vivenciando na realidade. A presença do fiel companheiro do Snoopy, o passarinho amarelo chamado Woodstock, inclusive nas cenas do Barão Vermelho, são os momentos mais engraçados do filme, principalmente quando aparecem os filhos de Woodstock, com destaque para um deles que é bem trapalhão.

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quarta-feira, 18 de maio de 2016

A primeira vez do cinema brasileiro (Brasil, 2012)

Eu indico
A primeira vez do cinema brasileiro (Brasil, 2012)

O documentário parte do filme “Coisas Eróticas”, primeiro longa-metragem de sexo explícito lançado no país, em 1982. Há pouco mais de trinta anos atrás a fita rodava nas principais salas de cinema do Brasil, causando alvoroço no público em plena ditadura militar. Recheado de curiosidades e polêmicas, o filme marcou a produção cinematográfica da época para o bem e para o mal, figurando até hoje entre as quinze maiores bilheterias nacionais de todos os tempos. Dirigido por Bruno Graziano, Denise Godinho e Hugo Moura.

Não censurado:
Podemos dizer que “Coisas Eróticas”, produção de Raffaele Rossi, foi o primeiro filme pornográfico nacional. A jornalista Denise Godinho, que também faz parte da direção deste documentário intitulado ironicamente como “A primeira vez do cinema brasileiro”, disse numa resenha que o valor do filme não é artístico, mas principalmente histórico. Não é a toa que o filme alvo do documentário impulsionou o cinema brasileiro a gerar mais produções pornográficas. Esse contexto histórico de nosso cinema é apresentado ao longo do documentário.
Tem muitas entrevistas interessantes de cineastas, críticos de cinema e de pessoas envolvidas direta ou indiretamente com a produção de “Coisas Eróticas”, inclusive temos depoimentos do filho de Raffaele Rossi. Este filme enfrentou a censura do regime militar em 1982, mas mesmo assim mudou a cara do cinema pornográfico nacional. As colocações ajudam a entender que, até hoje, ele ajudou na quebra da hipocrisia e numa abertura sexual maior, por parte inclusive dos espectadores. Uma pena que estamos a mais de 30 anos a frente do lançamento deste filme e a indústria do cinema pornográfico nacional está numa crise que parece sem volta.
Vemos no documentário que, antes da estreia do filme, o presidente General Figueiredo fez um discurso a favor dos “bons costumes”, defendendo a censura sobre as coisas que ele considerava pornografia. Mas “Coisas Eróticas” burlou a censura de forma curiosa e levou às salas de cinema o sexo explícito. É um filme que merece ser assistido, é claro que somente por adultos, e pode ser encontrado na Internet, pois o mesmo foi compartilhado na íntegra no YouTube com autorização dos diretores. Verdadeiramente picante e explícito, tendo minimamente um roteiro simples, lidando com situações diferentes, algumas banais, comuns, outras interessantes. Apesar do impacto que o filme causou, curiosamente o seu realizador Raffaele Rossi declarou que “ Coisas Eróticas foi o meu pior filme”.

O pornô no cinema:
Me apropriando do próprio documentário, resumo aqui alguns momentos do cinema no mundo e no Brasil no que se trata do tema:
- “Uma Mulher Tomando Banho”, de Georges Méliès, foi o primeiro pornográfico da história, em 1897;
- “A Free Ride” (1915), de Wise Guy, mostrou o primeiro sexo oral;
- O curta espanhol “Conesor”, dos Irmãos Baños, escandalizou os costumes da época, embora tenha sido produzido especialmente para o rei da Espanha Alfonso XIII;
- A partir dos anos 40 as cenas pornográficas passaram a ser usadas como educação sexual. Só na década de 60 que voltaram com força total;
- “Garganta Profunda” (Deep Throat, EUA, 1972), de Gerard Damiano, com Linda Lovelace, foi o primeiro sucesso mundial;
- Em 1982, “Coisas Eróticas” foi o primeiro nacional pornográfico exibido nos cinemas;
- Numa mostra internacional de cinema de São Paulo foi exibido o polêmico filme japonês “Império dos Sentidos” (1976), de Nagisa Oshima;
- A chanchada (filmes de humor simples e caráter popular, comuns no Brasil entre as décadas de 1930 e 1960) perdeu espaço para o pornô no Brasil após a década de 60.

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quinta-feira, 5 de maio de 2016

O Abrigo (Take Shelter, 2011)

Eu indico
Take Shelter (EUA, 2011)

Curtis LaForche (Michael Shannon) mora numa pequena cidade de Ohio com a esposa Samantha (Jessica Chastain) e sua filha de seis anos, que possui uma deficiência auditiva. Os dois trabalham pesado para juntar o dinheiro para suprir as necessidades especiais da filha, mas mesmo passando por algumas dificuldades, eles podem dizer que são felizes. Isso começa a mudar quando Curtis passa a ter pesadelos com uma tempestade apocalíptica e começa a ficar obsessivo. Ele constrói um abrigo no quintal e desperta a preocupação da esposa e a desconfiança dos amigos e colegas de trabalho. Dirigido por Jeff Nichols.

Vamos para o abrigo?
Uma família pequena enfrenta problemas comuns e vive razoavelmente bem a sua rotina, até que Curtis, o pai, começa a ter sonhos e visões de uma tempestade apocalíptica. Essas premonições envolvem também pessoas violentas, seus vizinhos, sua esposa e até o cachorro. Importante a forma como o filme mostra a transformação do personagem e as consequências. Mais ainda é conseguir balancear entre os temas obsessão paranoica e premonição, mantendo a nossa atenção e forte expectativa do que pode acontecer de fato.
Curtis fica obsessivo em construir um abrigo para enfrentar algo que nem ele mesmo tem certeza se vai ocorrer. Assim, a estrutura da relação familiar vai sendo prejudicada pelo seu comportamento. Aqui a dramatização funciona bem, a partir das atuações de Michael Shannon e Jessica Chastain. Ele está muito bem no papel, condicionante para o resultado do filme, pois é focado em seu personagem. Jessica Chastain, como sempre, está ótima, essa que é uma das minhas atrizes preferidas atualmente. O protagonista está cada vez mais paranoico e, na interpretação do ator, temos uma boa noção do tormento vivido por ele. Ele mesmo confessa para a esposa: “é como se fosse uma sensação, um sentimento...”. Ao menos, é uma pessoa decidida, que vai passar por todas as barreiras para cumprir seu objetivo, que é se precaver pensando inclusive na própria família. Assim, a sua anterior rotina vai sendo prejudicada: trabalho, amigos, todas as relações, inclusive com sua esposa, vão sofrendo com isso.
Mostrando a importância do apoio familiar para o restabelecimento do ser humano a sua sanidade mental e, por outro aspecto, discutindo a questão da premonição, aviso divino, ou como através de sonhos podemos ser alertados, ou se eles são de fato meramente sonhos sem significado, enfim, o filme desenrola e a conclusão é bem interessante e pertinente, embora possa não agradar a todos. O importante é que o filme lida bem com essas duas questões. Além disso, parece que as coisas acontecem no tempo certo, nem muito cedo e nem tarde demais, para facilitar nossa compreensão e satisfação. A fragilidade do homem diante da força da natureza também se destaca na trama.
As visões dele são de fato reais ou alucinações de sua mente adoecida? Ele mesmo procura ajuda com profissionais e confessa à esposa que é uma sensação, e pode não ser de fato real. Enquanto não acontecer nada real, nos resta acompanhar a trama até o seu desfecho.

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quarta-feira, 20 de abril de 2016

O homem que engarrafava nuvens (Brasil, 2009)

Eu indico
O homem que engarrafava nuvens (Brasil, 2009)

A história do baião através da ascensão e queda de um de seus maiores expoentes, o letrista e compositor Humberto Teixeira, conhecido como o "doutor do baião". Responsável por clássicos como "Asa Branca" e "Adeus Maria Fulô", Teixeira atingiu o estrelato nos anos 50 mas acabou quase esquecido. Na década seguinte, com o surgimento da bossa nova, o baião quase caiu na obscuridade. Dirigido por Lírio Ferreira.

Baião:
O baião é um gênero musical e também uma dança, surgido e popularizado a partir da região Nordeste do Brasil, que utiliza os seguintes instrumentos musicais: viola caipira, triângulo, flauta doce e acordeão (também chamado de sanfona). A temática das músicas é o cotidiano dos sertanejos e a canção "Asa Branca" é a mais famosa, que fala do sofrimento do sertanejo em função da seca nordestina. Essa canção foi escrita por Humberto Teixeira e a história deste homem, vamos conhecer neste belíssimo documentário.
Na década de 1940 o baião tornou-se popular, através de Luiz Gonzaga (conhecido como o “rei do baião”) e Humberto Teixeira (“o doutor do baião”), abrindo caminho para outros artistas, servindo de inspiração até hoje. Raul Seixas misturou o rock com o baião em suas músicas. Gilberto Gil e Caetano Veloso também se apossaram deste gênero, entre outros, e assim o baião perpassa nossas raízes musicais. Podemos até citar figuras como David Byrne (músico e compositor norte-americano nascido na Escócia) e a atriz Silvana Mangano, que interpretou uma cantora de cabaré no filme Anna (1951, de Alberto Lattuada), onde o baião aparece. O caso de David Byrne é ainda mais interessante, pois ele tocava músicas de Luiz Gonzaga ao violão para entreter os colegas entre os shows. De alguma forma chegou a ele uma tradução para o inglês de “Asa Branca”, feita com a ajuda de um dicionário. Isso fez com que ele fosse convidado a gravar com a Forró in the Dark, banda brasileira que se apresenta em Nova York. Podemos conferir a semelhança entre os timbres vocais de David Byrne e Luiz Gonzaga. Essa e outras situações podem ser vistas neste documentário nacional.
A premissa é simples: mostrar a história de vida de Humberto Teixeira, partindo de sua filha, a atriz Denise Dummont, que vai em busca de conhecer o pai falecido. De muitos talentos e controvertida personalidade, ele foi compositor, advogado, deputado federal e criador das leis e direitos autorais. Grande parceiro de Luiz Gonzaga (vemos no filme um vídeo onde os dois estão conversando), Humberto Teixeira escreveu boa parte das músicas do rei do baião, inclusive “Asa Branca”. Sem eles, o baião poderia não ter o alcance que hoje tem no Brasil e no mundo. O filme é uma forma de entretenimento, cultura e poesia, ao reconhecer a história de Humberto Teixeira, junto com uma grande homenagem ao baião e dando um sentido a este gênero que representou orgulho e resistência dos nordestinos.
Documentários têm muitas vantagens, uma delas é apresentar ao mundo grandes nomes, que poderiam ficar praticamente desconhecidos se não fosse por isso. E este aqui mostra essa bela história de vida de Humberto Teixeira, pessoa que deve ser lembrada. Afinal, muitas pessoas sabem quem é o "rei do baião", mas não sabem quem é o "doutor do baião". Um outro exemplo é o documentário Procurando Sugar Man (2012, de Malik Bendjelloul) que mostra a incrível história do cantor Sixto Rodriguez, que tentou a sorte na cidade de Detroit nos anos 70.
Algumas passagens do filme contam também com Gilberto Gil, Lenine, Belchior, Elba Ramalho, entre outros, com direto a depoimentos e muita música boa. Recebeu grandes prêmios nacionais, 5 deles foram no Cine Ceará.

Humberto Teixeira e Luis Gonzaga
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terça-feira, 19 de abril de 2016

Para Minha Amada Morta (Brasil, 2016)

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Para Minha Amada Morta (Brasil, 2016)

Após a morte de sua esposa, o fotógrafo Fernando (Fernando Alves Pinto) torna-se um homem calado e introspectivo. Ele vive cercado de objetos pessoais da falecida até descobrir, em uma fita VHS, uma surpresa que coloca em dúvida o amor da esposa por ele. A partir de então Fernando decide investigar a verdade por trás destas imagens, desenvolvendo uma obsessão que consome seus dias e sua rotina. Dirigido por Aly Muritiba.

O luto e a liberdade:
Eu realmente fico feliz quando vejo um filme nacional de qualidade. A experiência com este filme foi ainda mais gratificante pelo fato de ter participado da estreia com a presença do diretor Aly Muritiba, que ao final da sessão fez um bate papo com as pessoas que ficaram na sala. Saber motivações, dificuldades, inspirações e até a própria visão do diretor sobre a sua obra foi bem legal. Além do mais, a compreensão sobre o filme é maior já que ele respondeu a algumas perguntas do público sobre as cenas.
O filme é estruturado em dois grandes momentos. O primeiro é o do luto: fechado, claustrofóbico, sem vida, rotineiro e sem expectativas de melhoria. Cores escuras e ambientes fechados marcam esses momentos; já no segundo, engatilhado quando o personagem assiste a uma fita em VHS na qual a falecida esposa aparece, é mais vibrante, tenso, dinâmico e, ao mesmo tempo, varia entre a agonia e a libertação do personagem. Não dá para explicar muito sem contar passagens do filme, mas é bom ficar atento para essas diferenças, que vão se sobrepondo em alguns momentos. Cenários mais abertos e com mais cores acompanham os momentos que expliquei da segunda parte. Aqui, então, farei comentários sem contar as cenas e deixarei o expectador mais livre para suas interpretações.
Baseado na premissa acima, nos resta contemplar o enredo. As cenas podem ser arrastadas para alguns expectadores, mas assim mesmo necessárias para serem realistas. Algumas tomadas de cena são longas, mas precisavam ser para passar sua melhor compreensão. Como o próprio diretor disse, tem que dar o tempo e o silêncio necessário para o espectador respirar, perceber o ambiente e compreender a cena.
O personagem está sofrido, pois se encontra em luto pela sua amada esposa. Ele lava e estende as roupas da amada, assiste vídeos dos dois, observa fotografias, organiza objetos pessoais dela. Seria uma rotina triste e longa se não fosse um fato que ele presencia ao assistir a um vídeo que ele não conhecia. Por conta disso, ele sai dessa inércia e vai atrás de mais informações sobre o que viu. A partir daí o filme toma novas proporções e chega a se aproximar de um triller. A fotografia ajuda, principalmente em cenas que nos sugerem que nosso personagem vai tomar uma ação violenta. A pá na mão parece que será usada. Sabemos que a arma de fogo está guardada e pode ser usada. A cena sobre o telhado coloca um personagem em posição de desvantagem em relação ao outro. Dar as costas ao seu inimigo sem saber quem é ele de fato. Enfim, os personagens Fernando e Salvador, em suas atuações, nos passam todo o necessário em cenas repletas de possibilidades que permite ao diretor manejá-las a ponto de manter a tensão e a dúvida.
Essa resistência ao impulso, raiz de todo autocontrole emocional, é tão bem colocada no filme que não temos como sentir na pele o que o personagem passa. E o melhor é que suas intenções não ficam claras e isso nos gera o suspense. As cenas são sugestivas e tendenciosas, mas acabam nos enganando e surpreendendo em muitos momentos. A partir disso vem a transformação, da perda de interesse por coisas novas, quando está em seu luto reflexivo, até o ponto de se perceber como uma pessoa útil de novo, seja com as novas pessoas que conhece em sua empreitada, seja com o seu próprio filho amado; enfim, o personagem se transforma e se liberta. Vai da melancolia até a liberdade, com uma temática forte de vingança. Mas, de forma original, a violência eminente vai sendo eliminada muitas vezes, a cada cena, para nos mostrar que ela não é o caminho.
O filme também serve para desconstruir essa questão do olho por olho, dente por dente, de que a vingança é um forma de justiça, pois muitas vezes não conhecemos o lado do outro, da pessoa intitulado como “o culpado”. É interessante que, como espectadores, temos uma posição privilegiada em relação a esse culpado, pois acompanhamos a trajetória do ponto de vista do Fernando. E o “culpado” se chama Salvador, um nome sugestivo para este suposto antagonista.

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sexta-feira, 8 de abril de 2016

Ressurreição (EUA, 2016)

Eu indico
Risen (EUA, 2016)

Às vésperas de um levante em Jerusalém, surgem rumores de que o Messias judeu ressuscitou. Um centurião romano agnóstico e cético (Joseph Fiennes) é enviado por Pôncio Pilatos para investigar a ressurreição e localizar o corpo desaparecido do já falecido e crucificado Jesus de Nazaré, a fim de subjulgar a revolta eminente. Conforme ele apura os fatos e ouve depoimentos, suas dúvidas sobre o evento milagroso começam a sumir. Dirigido por John Huston.

A Ressurreição de Jesus:
Lançado recentemente nos cinemas, este é um filme focado em algumas das passagens mais importantes da Bíblia Sagrada, que trata da ressurreição de Jesus Cristo, mostrado as suas aparições após a crucificação. O filme parte do evento da crucificação do nazareno e a trama vai se desdobrar sobre os acontecimentos que ocorrem após isso.
Um incrédulo, Clavius, interpretado por Joseph Fiennes, é o chamado tribuno de Pilatos, um soldado romano encarregado de encontrar o corpo do nazareno, que sumiu após completar 3 dias de falecido. Esse “encontro” de um homem comum com Jesus é abordado de uma forma que agrada, quanto mais por se tratar de um homem que está do lado romano com o salvador que estava supostamente morto. Acompanhamos o ponto de vista do tribuno, pois ele é o personagem principal; seus questionamentos, dilema, e sua bela transformação ocorrem ao longo do filme. Segundo Mickey Liddell, um dos produtores, “Ele não está procurando o corpo de Cristo para seguir sua agenda política ou religiosa. Ele está só seguindo ordens”. As cenas das aparições de Jesus após sua suporta morte são bem parecidas com o descrito na Bíblia, sendo este mais um ponto forte do filme.
Clavius é uma representação fiel da conversão do homem. Ao longo de sua jornada, ele não se conforma em não encontrar o corpo, se surpreende com o comportamento dos apóstolos e testemunhas de que Jesus de fato ressuscitou. O ator Joseph Fiennes, protagonista de Sheakspeare Apaixonado (1998), interpreta o tribuno.
A relação e encontro dos homens com Cristo (Novo Testamento) e com o Deus do Antigo Testamento ocorre muitas vezes na Bíblia e foi tratada em grandes filmes como Jesus de Nazaré de Franco Zefirelli (1977) e Os Dez Mandamentos (1956), de Cecil B. DeMille. Dois grandes diretores e dois grandes filmes. Cuidado para não confundir com Os Dez Mandamentos “da rede record” que eu nem me arrisco a assistir. Abaixo a resenha de um deles:
Particularmente não gosto de filmes católicos, evangélicos, cristãos, espíritas ou o que seja, que procuram forçar a barra para uma crença específica sem respeitar as diversas opiniões e nos evita a pensar de forma mais abrangente, como é o exemplo do filme Deus “Não” Está Morto, que já tem uma continuação nos cinemas, assim como outros títulos que assisti e não me recordo do nome. Mas este filme atende ao que se propôs, já que respeita as narrações da Bíblia e possui bons diálogos e um ponto de vista diferente. Vai agradar com certeza a quem acredita no Deus da Bíblia e na ressurreição de Jesus Cristo como salvador, mas também deve agradar aos céticos e outros que, no mínimo, podem substituir a leitura bíblica pelo filme, já que normalmente não há predisposição para ler a mesma.

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Fontes: