Apresentação

Como cheguei aqui

Sempre gostei de indicar filmes e compartilhar informações, sensações e opinião pessoal sobre eles. A atividade cinematográfica é uma das minhas paixões. Optei aqui por indicar 3 filmes por mês, manifestando a minha opinião como um simples espectador, compartilhando algumas informações sobre os filmes selecionados. Espero que o resultado seja agradável para quem visitar.

Enquanto for interessante, estarei por aqui...


Cinema Paradiso (Itália/França, 1988)

domingo, 25 de março de 2012

A Chave de Sarah (“Elle s'appelait Sarah”)

Eu indico
A Chave de Sarah  (França, 2010)

Durante a ocupação alemã na França em 1942, Sarah Starzynski (Mélusine Mayance) é uma pequena judia que vive em Paris com os pais (Natasha Mashkevich e Arben Bajraktaraj) e o irmão caçula Michel (Paul Mercier). Eles são expulsos do apartamento em que vivem por soldados nazistas, que os levam até um campo de concentração. Na intenção de salvar Michel, Sarah o tranca dentro de um armário escondido na parede de seu quarto e pede que ele não saia de lá até que ela retorne. A situação faz com que Sarah tente a todo custo retornar para casa, no intuito de salvá-lo. Décadas depois, a jornalista Julia Jarmond (Kristin Scott Thomas) é encarregada de preparar uma reportagem sobre o período em que Paris esteve dominada pelos nazistas. Ao investigar sobre o assunto, encontra um elo entre sua família e a história de Sarah.

Fato histórico que incomoda os franceses:
Pouco foi divulgado a respeito deste episódio de perseguição antissemita na França - a tragédia do Velódromo de Inverno, ocorrida em julho de 1942, quando cerca de 13.000 judeus franceses - homens, mulheres e crianças - foram arrancados de suas casas e até um campo de concentração. O filme mostra os acontecimentos com detalhes, inclusive vemos a passagem temporária dos judeus pelo velódromo, sem comida, com pouca água e sob assustadoras condições higiênicas. A narrativa introduz, de forma inesperada, novos personagens a medida que o destino de Sarah e da jornalista Julia vai se revelando, sendo interessante que ambas estão em duas épocas diferentes e as cenas vão se revezando, uma estratégia usual mas que ficou bem montada neste filme.
Descobrimos aos poucos, junto com Julia, o destino de Sarah e sua família, com um certo suspense em relação ao garoto preso no armário (instigando a curiosidade do espectador sobre como será o destino dele), num clima e contexto de um período que a França certamente preferia esquecer, mas sobre o qual o próprio presidente Jacques Chirac rompeu o silêncio, num discurso de julho de 1995.

A chave - SPOILER:
Interessante que as cenas com a Sarah já adulta são poucas e o diretor usou cenas soltas e curtas, além de fotos, dando mais ênfase a Sarah quando criança, bem interpretada pela Mélusine Mayance. Além disso, temos um filme que não apelou para trilhas sonoras, deixando as cenas mais sérias, a maioria somente com o som do ambiente.
Temos uma fotografia bem feita, como por exemplo numa cena – a do velódromo – onde a câmera, numa tomada de cima, vai mostrando o panorama das pessoas na arquibancada desconfortável e cheia de sujeira (um enxugando o próprio suor, outro rezando, outros dormindo) em meio a bagunça de pertences pessoais e lixo espalhados por todo canto; a câmera só dá uma parada quando mostra Sarah e os pais, e depois vai baixando lentamente para se aproximar deles.
Numa outra cena bem dirigida, no campo de concentração, vemos pessoas correndo de um lado para o outro, mães desesperadas resistindo ao fato de que os soldados estão separado-as de seus filhos, jatos de água utilizados para afastar as pessoas, e Sarah engatinhando pelo chão à procura da chave que caiu de sua mão durante a confusão. Em outra cena, a garotinha consegue escapar do campo de concentração e está correndo com outra fugitiva num lindo campo aberto, passando por uma floresta até um lago (nesta temos o bom uso de trilha sonora); o contraste do cenário do campo de concentração com o cenário da paisagem do campo e da floresta dão uma aliviada no espectador (as garotinhas chegam a parar para se refrescar no lago, ignorando o fato de que este não está limpo).
Há uma importância grande na insistência da jornalista Julia, após apurar os fatos históricos, em encontrar a Sarah adulta. A experiência de uma jornalista investigativa, alinhada com sua intuição feminina, de decidir simplesmente procurar algo que a princípio pode não fazer muito sentido e não dar em nada, mas que ela sabe que precisa buscar. E assim temos um bonito desfecho, onde depois de tantas voltas ela acaba quase que por acaso transformando e dando mais sentido à vida de outra pessoa.

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domingo, 11 de março de 2012

Coração Satânico (“Angel Heart”)

Eu indico
Coração Satânico (EUA / Canadá / Reino Unido, 1987)

Em 1955, na cidade de Nova York, o detetive particular Harry Angel (Mickey Rourke) é contratado pelo misterioso cliente Louis Cyphre (Robert De Niro) para encontrar um cantor, conhecido como Johnny Favorite, que sumiu há doze anos. O problema é que quanto mais se aprofunda na investigação, mais confuso Harry fica. Nesta jornada, Harry começa a enfrentar um mundo místico e tomar um caminho sem volta.

Surpreendente:
O diretor Alan Parker sabe manter a atenção do espectador na narrativa, mesmo para quem se incomoda com o clima sombrio e cheio de mistérios, sem contar com algumas cenas fortes. O roteiro é do próprio Alan Parker, baseado num livro de William Hjortsberg. O filme é de 87 e aborda uma temática até comum, já utilizada por muitos outros, principalmente mais recentes. Entretanto, consegue dar um realismo como a maioria não consegue, quando aborda a parte mística da trama. O espectador vai acompanhando os passos do protagonista à medida que a situação vai se complicando e ficando mais trágica. O diretor tomou um cuidado com o visual e deixou as cenas de morte bem realistas, junto com todo um ambiente focado no visual sujo da cidade, com suas casas antigas, ventiladores de galpões e elevadores. A trilha introduz muito blues, que era a música típica do período e da região de New Orleans. Muitos consideram um dos finais mais surpreendentes já elaborados, é importante que se chegue ao final do filme e entenda direitinho a lógica dos acontecimentos.

Rourke e De Niro:
Temos de cara um jovem e excelente Mickey Rourke, representando uma personalidade sutil em diversos momentos, utilizando sorrisos sarcásticos e olhares desconfiados, sem contar que também é extremamente visceral em outros. Ele transmite com perfeição a angústia de Harry na busca pelo cantor desaparecido, com destaque para a cena onde fica perplexo e desesperado ao saber a verdade.
Já Robert De Niro tem uma atuação mais misteriosa, olhando sempre com firmeza e dizendo frases interessantes. Apesar das poucas cenas em que aparece, demonstra seu talento criando um Louis Cyphre completamente enigmático, combinando bem com a atmosfera do filme. Mostra uma superioridade marcante e mantém um visual sombrio, porém bem vestido, para caracterizar bem o seu personagem.

O final e as explicações – SPOILER (REVELA MESMO):
Em resumo, trata-se de uma cobrança de um pacto feito com o demônio. A vítima - Johnny Favorite - é o próprio protagonista, o detetive Harry interpretado pelo Mickey Rourke. Ele obteve sucesso como músico e se tornou um grande amante após vender sua alma; mas antes de ser cobrado, descobriu uma brecha com o apoio de uma de suas amantes (a cartomante), onde num livro místico se tinha a indicação de que a maldição poderia ser passada para outra pessoa. Sendo assim, foi feito um ritual onde Johnny rouba a vida de um soldado – o verdadeiro Harry - dentro de um hotel, como uma espécie de processo de reencarnação em outro corpo, para escapar de Lúcifer. O ritual acaba não sendo perfeito e, um tempo depois, ele sofre um acidente de guerra, perde a memória e acaba tendo o seu rosto reconstituído. Ele acaba se tornando um detetive particular. O problema é que Lúcifer descobre a traição e resolve fazer um jogo, contratando o detetive para encontrar Johnny, que são a mesma pessoa.
Muitas dicas são espalhadas pelas cenas antes de revelar o surpreendente final:
- Perceba que, durante a sua busca, praticamente todas as pessoas morrem logo após se envolverem com o detetive. Logo antes da morte da cartomante, o detetive está entrevistando a mesma e por curiosidade pega um objeto na estante dela, uma espécie de adaga. Esse é objeto usado no assassinato;
- Os ventiladores aparecem na trama antes de cada assassinato, fazendo uma ligação com a cena em que Johnny rouba a vida de Harry dentro de um hotel, já que nesta a iluminação do local é feita somente pelo vão existente nos ventiladores. O detetive tem um lapsos de memória desse acontecimento, só que nunca chega a mostrar completamente, como se ele tivesse que lembrar de algo que esqueceu. Em uma cena vemos o soldado sendo abordado por alguém, em outra a câmera se aproxima do hotel onde houve o ritual, por fora do prédio, onde vemos um ventilador ligado na janela;
- Na cena forte de sexo entre Harry e Epiphany (Lisa Bonet, que está bem sensual), as goteiras por conta da chuva se transformam em sangue que banham o corpo dos dois;
- Existe uma mania de Harry em evitar os frangos e sabemos que Johnny era um criador de frangos antes de seu sucesso como músico, e temos também uma cena em que Louis Cyphre está descascando e comendo ovos e comenta que em algumas tribos o ovo simboliza a alma;
- O diabo usa o nome Louis Cyphre, que pronunciado rapidamente fica com a sonoridade “Lúcifer”. No primeiro encontro com o detetive, ele se apresenta como um estrangeiro e fica estabelecido sobre uma igreja, que possui pelo visto um falso profeta, que gosta de idolatria. Tem outro encontro dos dois que é justamente dentro de uma igreja;
- As crianças choram ao ver o detetive, enquanto os animais atacam (principalmente cachorros e frangos);
- No final Harry desce pelo elevador e vai de encontro ao seu inferno particular, só que em várias cenas anteriores ele tem uma visão de quando entra num local sombrio e aguarda a chegada de um elevador;
- O nome original do filme é Angel Heart, que pode ser “Coração de Anjo” (atentar para o fato de que Lúcifer foi um anjo) ou “Coração de Angel” (atentar para o fato de que o nome do detetive é Harry Angel).

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Fontes: 

sábado, 3 de março de 2012

The Troll Hunter (“Trollgeren”)

Eu indico
The Troll Hunter (Noruega, 2010)

O filme conta a história de um trio de estudantes de cinema que, após um surto de ataques a ursos numa reserva natural no Norte da Noruega, decidem investigar o que realmente se passou. Ignorando os avisos das autoridades sobre os perigos, munem-se de uma câmara de vídeo e partem em busca de material para um documentário. Durante a busca, conhecem Hans (Otto Jespersen), um homem enigmático conhecido como o "caçador de trolls". E é então que os jovens descobrem o segredo mais bem guardado do Governo norueguês: a existência de trolls, seres que eles julgavam apenas habitar na sua imaginação.

Estilo “câmera na mão”:
A Noruega é um país que não tem uma grande tradição cinematográfica, vale a pena conferir o resultado deste filme. Assim como Cloverfield ou A Bruxa de Blair, Troll Hunter é como um pseudo-documentário, onde estudantes acompanham, com uma câmera, um misterioso caçador na Noruega, tentando descobrir o que ele caça com tanta discrição. Filmes deste tipo dão um realismo maior às cenas e a oportunidade de se sentir na pele dos personagens, visto que assistimos na perspectiva de primeira pessoa.
O diferencial neste é que, ao mesmo tempo em que acompanhamos as belíssimas paisagens da Noruega, existem cenas interessantes e desesperadas das criaturas medonhas. Ou seja, o monstro não fica camuflado, escondido, ele é exibido completamente antes de se chegar ao meio da história, deixando o espectador contemplar a criatura como um todo. Os efeitos visuais são excelentes, dando uma boa experiência de visualização.

Troll – a mitologia no filme - SPOILER:
Os trolls são seres temíveis saídos do folclore escandinavo. Na maioria das vezes são representados como criaturas enormes, uma visão nórdica dos gigantes, com orelhas e narizes muito grandes e que gosta de viver no subsolo, sendo este o seu refúgio contra o Sol, que pode transformá-lo em pedra com o contato. É uma criatura presente na fantasia de certos RPGs, videogames, livros de espada e feitiçaria, entre outros elementos medievais. A Noruega é um país onde o mito tem uma grande importância, pois possui ainda profundos bosques somados às belíssimas paisagens naturais, com uma cultura que acredita na existência de trolls.
No filme, o caçador Hans explica o comportamento desta criatura, os tipos de Troll e seus costumes, chega a reconhecer um lugar onde houve uma batalha entre trolls (“Trolls da montanha e trolls da floresta lutaram aqui. Eles atiraram pedras uns nos outros.”). Temos até um toque de fábula mostrando que a criatura percebe a presença dos cristãos, o cheiro do seu sangue. Interessante o caçador considerar a criatura como uma espécie de animal irracional, inclusive estúpido, dedicando-se também à não extinção deste, ao mesmo tempo em que precisa fazer o seu trabalho sujo, sendo encarregado de matar as criaturas, procurando o mínimo de sofrimento ao abatê-las. O respeito e preservação da natureza é uma característica marcante na cultura norueguesa.
Outro elemento marcante é a forma como o governo elimina as pistas da existência de Trolls, usando ursos e técnicas para camuflar os locais onde os seres apareceram. Existe um órgão responsável por gerir e acompanhar o deslocamento das criaturas, obviamente de forma secreta, simulando ataques de ursos contrabandeados aos rebanhos atacados pelas criaturas, usando pegadas falsas, entre outras estratégias.
A mitologia em torno da criatura é outro aspecto no filme, que mostra como ela não pode ser exposta à luz solar ou se torna pedra (o interessante é que isto é cientificamente explicado). Temos algumas cenas que dão um certo aspecto medieval, em uma delas Hans - vestido como uma espécie de cavaleiro medieval - enfrenta um Troll numa ponte; em outra ele vem correndo pela floresta e gritando trolllllllllll... como nos filmes de aventura medieval.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Síndrome de Caim (“Raising Cain”)

Eu indico
Síndrome de Caim (EUA, 1992)

Charles Nix (John Lithgow) é um famoso psicólogo infantil. É obcecado pelo comportamento da filha. Sua esposa Jenny (Lolita Davidovich) está tendo um romance extra-conjugal com uma antiga paixão da adolescência (Steven Bauer). Quando a polícia reporta uma série de seqüestros de crianças na localidade, Jenny passa a ter que voltar suas atenções para o lar e encarar a possibilidade de que seu marido está tentando recriar os experimentos científicos do seu sogro.

“De Mented”, “De Ranged”, “De Ceptive”, De Palma:
Brian De Palma dirige este suspense e aplica os elementos essenciais de sua marca: pregando peças no espectador quando mostra novamente algumas cenas, só que num ângulo ou narração diferente, um diferente que faz toda diferença e vai aos poucos dando sentido à trama; aplicando a arte de assustar, aproveitando algumas situações para pegar o espectador de surpresa; usando os sonhos e pensamentos dos personagens, chegando um momento em que ficamos na expectativa se o que está acontecendo é mesmo a realidade; e aplicando algumas cenas longas e tensas, onde tudo começa tranqüilo e termina bem diferente. Com um bom roteiro e boa utilização de movimentos de câmera e essas famosas manipulações temporais que o diretor realiza, temos um filme interessante, bem ao estilo De Palma.
Para incrementar – e muito – o resultado do filme, temos um perfeito John Lithgow na pele do personagem principal, na realidade interpretando ao todo 5 papéis bem diferentes, dando uma visão prática do transtorno dissociativo de personalidade. Incrível não ter recebido alguma premiação pelo papel, embora em 2010 tenha recebido o Golden Globe de melhor ator coadjuvante e o Emmy de melhor ator convidado, pela atuação na série Dexter (ele faz o assassino Trinity na quarta temporada).

A Síndrome de Caim:
A vida de Caim e Abel é um exemplo de como duas pessoas criadas de maneira igual, se transformam mais tarde em pessoas completamente diferentes. Em um deles vemos a humildade e em outro soberba. Quando temos um problema, uma situação difícil, se tivéssemos o poder de mudar a situação, com certeza o faríamos. Mas cada pessoa pode fazer uma escolha diferente. Essa diferença de personalidade é tratada no filme, que tem um cunho psicológico e mostra diferentes personalidades numa mesma pessoa, a partir de uma experiência provocada. E o melhor de tudo é que o assunto toma proporções maiores no filme, como assassinatos e seqüestros de crianças.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

O Espião que Sabia Demais (“Tinker, Tailor, Soldier, Spy”)

Eu indico
O Espião que Sabia Demais (Reino Unido / França / Alemanha, 2011)

No final do período da Guerra Fria, George Smiley (Gary Oldman), um dos veteranos membros do Circus, divisão de elite do Serviço Secreto Inglês, é chamado para descobrir quem é o agente duplo que trabalhou durante anos também para os soviéticos. Todos são suspeitos, mas como também foram altamente treinados para dissimular e trabalhar em condições de extrema tensão, todo cuidado é pouco. George precisa indicar o espião e não pode errar.

Funileiro, alfaiate, soldado, espião:
Após leitura da obra de mesmo título e no clima do Oscar 2012, assistir O Espião que Sabia Demais foi uma grande satisfação. Ambientada no início dos anos 70, a trama tem todo o clima da Guerra Fria, um elenco singular, um visual com coisas marcantes da época e uma ótima trilha sonora. Recebeu indicações para melhor ator (Gary Oldman), melhor roteiro adaptado e melhor trilha sonora original (Alberto Iglesias). O personagem principal, George Smiley, tem características marcantes, é quase um idoso, muito reservado, com uma quieta intensidade e inteligência, abdicando de qualquer diálogo que seja desnecessário, um cavalheiro respeitoso e com toda calma e expertise de um espião experiente. Outros atores também se destacaram na atuação, como Colin Firth (Bill Haydon) e Mark Strong (Jim Prideaux), personagens cumprindo papéis bem importantes na trama, sem contar com as poucas aparições de Simon McBurney (Oliver Lacon), também excelente.
Bem nas primeiras cenas, logo após a primeira aparição de Smiley, passam-se alguns minutos sem que o mesmo fale uma palavra, todo um momento - acompanhando de uma bela trilha sonora - desde que o mesmo é despedido do Circus, passando pelas salas com suas escrivaninhas antigas, escadas, até o velho porteiro diante da catraca do prédio. Mas ao invés de deixar seu legado, o mesmo acaba sendo chamado para descobrir quem é o “toupeira” (no livro o termo é usado com mais freqüência, para indicar um infiltrado do inimigo). A disciplina de Smiley fica bem exibida, como a atenção aos detalhes, o exercício de natação matutina, o comprometimento com a missão e a organização com o trabalho. Muito interessante também ter apresentado o lado humano e um pouco falho do personagem que, ao se embriagar, começa a falar sobre o seu sofrimento com a traição da ex-esposa.
O roteirista Peter Straughan afirmou que tentou criar as situações com o mínimo de diálogos possível, obrigando o espectador a ser atento à linguagem corporal e aos olhares dos personagens, e até a imaginar cenas de tensão que não são mostradas (em algumas delas, só vemos o desfecho). Existe um jogo por trás dos panos, um inimigo que até usa o provável ponto fraco de Smiley, que é a lembrança de sua mulher, Ann, que o persegue e, ao contrário do que foi apostado, também o ilumina. Um inimigo que também usa como arma a sedução (introduz também a questão da homossexualidade). Existem muitos espaços fechados e close nos rostos. A consumação da guerra causa um certo alerta do perigo nas poucas cenas de violência do filme (um homem mata uma coruja na sala de aula, uma mulher é executada diante de um homem que não a conhece).
Deixando de lado a proposta de outros filmes de agentes e espiões, que apelam para perseguições, tiroteios e explosões, aqui temos como predominante transações às escondidas, diálogos buscando um fio da verdade e o intelecto, tendo à disposição dos agentes aparelhos antigos e sem uma tecnologia de ponta. Muitos terminarão de ler o livro ou ver o filme desejando não ser um agente secreto; afinal, aqui um espião é meramente comparado a um funileiro, alfaiate, soldado ou até mendigo (no livro este último é atribuído a George Smiley). E bem nas cenas finais temos uma grande jogada em introduzir a música “Beyond the Sea” interpretada em francês.

John le Carré – Escritor, espião, produtor:
Praticamente uma autoridade no assunto de espionagem, antes de se consagrar como escritor, John Le Carré atuou no serviço secreto britânico nos anos 50 e 60, inclusive a serviço de Vossa Majestade. Isso explica o realismo de seus romances de espionagem, já que o mesmo sabe do que está escrevendo. Também participou da produção do filme, para garantir uma fidelidade alta à sua obra. A sua experiência nos serviços secretos terminou repentinamente, quando um agente duplo britânico denunciou a identidade de dezenas de espiões compatriotas ao KGB.
Assim como no filme, o livro mantém o clima frio e silencioso, um casamento do drama com o suspense numa atmosfera melancólica. Expõe honra e mentiras, segredos e traições, disputas de poder, intrigas e jogos duplos. Tem espaço até para afetos secretos e sacrifícios pessoais. Seguem dois trechos retirados do livro:
"A traição, de um modo geral, é uma questão de hábito, concluiu Smiley"
"Smiley afastou todas aquelas idéias, desconfiado como sempre das formas padronizadas dos motivos humanos"

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Jesus de Nazaré (“Jesus of Nazareth”) – de Franco Zefirelli

Eu indico
Jesus de Nazaré (Itália / Reino Unido, 1977)

Um clássico que conta a história de Jesus desde sua humilde origem, como filho de Deus. Sua viagem inclui o Sermão no Montes das Oliveiras, as Tentações de Satanás, a escolha dos Doze Apóstolos, a Última Ceia, a Crucificação e a Ressurreição.

Adaptação:
Trata-se de uma grande responsabilidade adaptar para as telas os acontecimentos relatados pela Bíblia, principalmente com foco no Novo Testamento, onde surge a figura de Jesus Cristo. Existem diversos filmes sobre a vida e obra de Cristo, sendo que este é considerado, por alguns autores, como a mais fiel recriação de cenários com base na narrativa dos evangelhos, mostrando Jesus em ação, muitas vezes rodeado pelo povo inquieto que se acotovelam para vê-lo melhor e lhe apresentar seus pedidos. O filme original (na verdade uma mini série transformada em filme) possui 6 horas e 22 minutos, utilizados com paixão pelo diretor e roteirista Franco Zefirelli, que conseguiu garantir uma boa completude dos acontecimentos, diálogos e cenários, maximizados por ótimas atuações (temos atores reconhecidos no elenco: Robert Powell, Ian McShane, Christopher Plummer, Anthony Quinn, Rod Steiger). O ator Yorgo Voyagis, que interpretou José, teve sua voz dublada para o inglês.
O que há de essencial está lá: nascimento conturbado do menino Jesus, as pregações de João Batista, parábolas contadas pelo mestre, a reação do povo diante da figura do messias aguardado por toda Jerusalém, o chamado aos apóstolos, os milagres, a traição de Judas, a crucificação e, mais do que tudo, os diálogos com os apóstolos e seguidores, seus ensinamentos e palavras transformadoras, sem contar com os debates de Jesus com as autoridades religiosas, suas respostas precisas e inquestionáveis. O estilo do diretor é bem poético e carregado de sentimentos, alinhado com a bela música de Maurice Jarre e fotografia de David Watkin. Temos o mérito também da equipe que escreveu o roteiro: Anthony Burgess, David Butler, Suso Cecchi D'Amico e o próprio Franco Zeffirelli. Nem tudo pôde ser colocado no filme. Senti falta, por exemplo, da tentação do diabo para com Cristo no deserto (quando oferece todos os reinos do mundo), de algumas parábolas, do diálogo em torno do tributo a César (a moeda do censo com a imagem e inscrição de César) e do encontro com Zaqueu.
Zefirelli confessou que tinha nas mãos uma arma e como podia ser decisiva para a vida de milhares de pessoas, tanto para o bem como para o mal. “Quando a pessoa tem a possibilidade de animar as pessoas que sofrem e de ampliar seus horizontes de esperança, sente uma responsabilidade excessiva para o pobre homem que é”.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Assim Caminha a Humanidade (“Giant”)

Favoritos
Assim Caminha a Humanidade (EUA, 1956)

O filme conta a história de Leslie (Elizabeth Taylor), Bick (Rock Hudson) e Jett (James Dean). Bick conheceu Leslie quando foi a casa do pai dela comprar um cavalo premiado e os dois se apaixonaram. Eles se casam e vão para o Texas - terra de Bick - e lá constroem sua família, no rancho Reata. Ali perto mora Jett, que de certa forma é inimigo de Bick. A cada dia que passa os dois continuam se odiando, ainda mais quando Jett enriquece e se torna um magnata do petróleo. O filme aborda claramente a intolerância racial e é um épico imbatível que explora o assunto e defende o fim do racismo.

Gigante:
Quando vi o cartaz para o Oscar de 2012, reconheci esse filme com a cena de James Dean sentado no carro e a mansão na paisagem de fundo. Estava na hora de assisti-lo novamente e confirmar a grandiosidade deste épico. A narrativa apresenta uma época singular da história americana, retrato de uma era de transição em que o Texas de fazendeiros criadores de gado passa a ser o Texas dos exploradores de petróleo. Aborda fortemente os problemas raciais, passa pela guerra e a mudança do poder e do dinheiro. Das dez indicações, apenas George Stevens levou o Oscar (melhor direção). De forma bem cuidadosa e plausível, vemos o amadurecimento dos 3 personagens principais, chegando a inverter papéis, tanto na questão do sucesso financeiro quanto na questão do caráter. Achei melhor separar um parágrafo para cada personagem.

Jett Rink (James Dean) - SPOILER:
Já começo com a atuação de destaque para James Dean, que interpreta Jett Rink, um trabalhador da fazenda que se torna inimigo de Bick e possui uma paixão pela sua esposa Leslie. O sentimento de inferioridade transparece no personagem até quando ele fica rico e famoso, não se livrando das marcas deixadas por sua origem social e dificuldade de subir na vida. Na primeira parte da trama é um personagem bom, simples e quase esquecido (tinha como amiga somente a irmã de Rink e Leslie, que tinha uma certa educação e cuidado com ele). Revela-se mais esperto que o esperado e aproveita uma oportunidade de negócio que vai transformá-lo em um grande petroleiro. Já no final, fica arruinado por causa de sua ganância junto com o fato de que não perdeu o sentimento de inferioridade e não se sente digno do amor da mulher por quem é apaixonado. O personagem foi inspirado na vida de Glenn McCarthy (1908 - 1988), imigrante irlândes que se tornou um dos principais petroleiros no Texas. Este foi o último filme de James Dean, por conta de um acidente fatal quando o mesmo se dirigia para uma corrida (ele nem chegou a ver o filme concluído). Recebeu uma indicação ao Oscar pela atuação, sobre a qual não há o que reclamar (o sotaque, a cara sofrida e encabulada e a transformação do personagem potencializam o filme).

Jordan Benedict (Rock Hudson) - SPOILER:
Outro indicado a melhor atuação foi Rock Hudson, que interpreta o Jordan Benedict (Bick), um rancheiro texado, dono do Rancho Reata, propriedade da família há 3 gerações, uma mansão no meio de um deserto, tendo quase meio milhão de acres. A transformação deste personagem passa pela necessidade de superar o seu próprio preconceito, já herdado pelo comportamento de sua rica família. Durante os 25 anos em que se passa o filme, ele vai sofrendo a perda do controle da propriedade para o Jett Rink, que expande a exploração de petróleo na região. Só que durante esse tempo ele constituiu uma família e foi transformado por ela, principalmente pela bondade e amor de sua esposa por desconhecidos e desprivilegiados (afinal ele investia muito na pecuária e não se importava com a situação precária dos imigrantes na região de seu rancho). Como seu único filho homem decide ser médico, Bick está para assumir a derrota de não conseguir dar continuidade ao legado da família, e é só nos minutos finais do filme que percebe onde está o verdadeiro sucesso, que é na gentileza e caráter de mudar para melhor, ver o orgulho de sua esposa e filhos por ele e ter orgulho de si mesmo por defender a dignidade de pessoas desconhecidas que sofrem injustiça.

Leslie Lynton (Elizabeth Taylor) - SPOILER:
Quando Leslie Lynton (Taylor) chega ao Texas em 1923, ela precisa se adaptar a um novo mundo, já que foi criada no conforto familiar em Maryland e agora está casada com Jordan Benedict, que junto com a irmã cuida do Rancho Reata. A irmã de Bick não gosta do comportamento de Leslie, que possui forte personalidade e não aceita muito bem as idéias do marido a respeito de como tratar as mulheres, os amigos e principalmente os empregados, quase todos mexicanos e tratados com desprezo. Indignada e sustentada pelo seu amor ao marido, Leslie aos poucos passa a tentar mudar o pensamento dele, buscando tratar os criados com delicadeza e dando-lhes o mínimo de assistência médica. Ela possui uma personalidade forte, e essa presença feminina na vida do gigante (“giant”) Jordan vai mostrá-lo que a verdadeira grandeza está na atitude e no coração.