Apresentação

Como cheguei aqui

Sempre gostei de indicar filmes e compartilhar informações, sensações e opinião pessoal sobre eles. A atividade cinematográfica é uma das minhas paixões. Optei aqui por indicar 3 filmes por mês, manifestando a minha opinião como um simples espectador, compartilhando algumas informações sobre os filmes selecionados. Espero que o resultado seja agradável para quem visitar.

Enquanto for interessante, estarei por aqui...


Cinema Paradiso (Itália/França, 1988)

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Boyhood - Da Infância à Juventude (EUA, 2014)

Favoritos
Boyhood (EUA, 2014)

O filme conta a história de um casal de pais divorciados (Ethan Hawke e Patricia Arquette) que tenta criar seu filho Mason (Ellar Coltrane). A narrativa percorre a vida do menino durante um período de doze anos, da infância à juventude, e analisa sua relação com os pais conforme ele vai amadurecendo. Dirigido por Richard Linklater.

Mason dos 6 aos 18:
A inevitável passagem do tempo... passagem esta, carregada de momentos fortes (bons ou ruins) e até alguns extraordinários, vividos por poucos. Experiências que marcam o amadurecimento, o crescimento humano. Filmado durante 12 anos (começou em 2002), este filme é um retrato dessas experiências, da infância até a juventude, focada na vida de um garoto. O diretor Richard Linklater manteve os mesmos atores durante os 12 anos de produção, cada ano reunia a todos e filmava um pouco mais.
Assim, naturalidade e uma pequena sensação de documentário marcam o filme. Mas a naturalidade não veio somente disso, os atores foram excelentes, com destaque para os conhecidos Patricia Arquette e Ethan Hawke, assim como o protagonista (ator novato) Ellar Coltrane e a sua irmã no filme, a atriz Lorelei Linklater, todos extraordinários na interpretação, parecendo mesmo uma família de verdade.
O filme abre com uma música do Coldplay (“Yellow”) e contém outras trilhas bacanas. As músicas em si ajudam o espectador a se situar no tempo – para quem está preocupado com isso – junto com muitos elementos da narrativa mencionando fatos históricos nos EUA, como a candidatura de Obama. Outros, criativamente, nos situam mais facilmente: o sucesso da série Harry Potter e qual livro está sendo adaptado para os cinemas, os diálogos entre garotos que dizem quais os 3 melhores filmes do ano (“Trovão Tropical”, “Batman” e “Segurando as Pontas”, todos de 2008), um clipe de Lady Gaga e até o advento das redes sociais. Numa conversa surge a possibilidade de um novo filme de "Guerra nas Estrelas", o que dá mais uma pista. Para quem conseguir prestar atenção, o momento atual do filme é revelado constantemente. A trama só corre para a frente, o tempo vai passando e vamos percebendo, também, pela mudança física dos personagens, juntamente com o seu amadurecimento. O mais importante, contudo, é admirar como as mudanças na família são naturais, não assustam muito, sendo cheias de momentos simples e singelos. Acostumamos com as diferenças na relação dos garotos com o pai, regada de diversões, e com a mãe, com quem eles moram e com quem menos se divertem, já que ela é uma batalhadora na vida profissional para sustentar os filhos e recordista em relacionamentos que não dão certo.
Momentos comuns, simples, como descobertas da infância, tédio da adolescência, o primeiro amor, os conflitos em família, as mudanças de escola e até os cortes de cabelo. Diálogos inteligentes e realistas, que já é marca do diretor se lembrarmos de outros filmes dele, como Antes do Amanhecer (“Before Sunrise”, 1995), na verdade parte de uma trilogia que tem o Ethan Hawke discutindo a relação. Amigos de longa data, Richard Linklater e Ethan Hawke cresceram com pais divorciados que trabalhavam no ramo de seguros, que parece ser a carreira que o personagem de Ethan Hawke assume neste filme.
Do ponto de vista cinematográfico, é raro, mas não totalmente original, se lembrarmos do filme russo “Anna dos 6 aos 18”, um documentário de 1994, onde o diretor Nikita Mikhalkov fez uma série de perguntas a sua própria filha, de 1979, quando ela tinha seis anos, até 1991, apresentando assim um interessante panorama dos jovens que cresceram durante a derrocada da União Soviética. Por sinal, Lorelei Linklater, que interpreta Samantha, é a própria filha de Richard Linklater (e quase desistiu no meio das filmagens). Tanto ela, quanto Ellar Coltrane estão formidáveis, principalmente este último que, se não cumprisse bem seu papel, poderia levar o resultado do filme por água abaixo, já que o foco é no seu personagem.
Sem mudar o elenco, com sua fotografia e montagem impecáveis e criativo na forma de nos mostrar a passagem do tempo e transformações dos personagens, este é um forte candidato ao próximo Oscar. Sua maratona de 2 horas e 45 minutos é regada de sensações.

O tempo, as atitudes, a magia e as mudanças – SPOILER:
Em um momento, a mãe (Patricia Arquette) aconselha um imigrante que trabalha numa obra de encanamento de sua casa (porque ele se mostra inteligente, mesmo sem falar bem a língua local); futuramente, ele vira um dos gerentes de uma grande restaurante, e agradece a ela pelo conselho que o fez seguir o caminho dos estudos.
Em outra passagem, a existência de magia no mundo é questionada pelo protagonista, quando criança. O garoto, mais velho, recebe um conselho de sua professora, antes de entrar na faculdade, quando ele se mostra empolgado e aterrorizado. A professora fala: “Será bom. Loucamente bom. Gostei muito mais da faculdade do que da escola. Você encontrará sua turma na faculdade, sabia? Você ficará bem. Tem um bom coração, só precisa segui-lo. Boa sorte. Não esqueça de passar fio dental.”. Na faculdade, ele chega encontrando sua turma, fazendo amigos e conhecendo uma garota que combina com ele. Na troca de sorriso entre os dois, um momento mágico, uma perspectiva de que, de fato, tudo vai ficar bem e será loucamente bom. A magia ainda existe nos momentos simples e singelos.

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sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Maze Runner - Correr ou Morrer (EUA, 2014)

Eu indico
The Maze Runner (EUA, 2014)

Ao acordar dentro de um escuro elevador em movimento, Thomas (Dylan O'Brien) chega à “Clareira”, se vendo rodeado por garotos que o acolhem. O local é um espaço aberto cercado por muros gigantescos. Assim como Thomas, nenhum deles sabe como foi parar ali, nem por quê. Sabem apenas que todas as manhãs as portas de pedra do Labirinto que os cerca se abrem, e, à noite, se fecham. E que a cada trinta dias um novo garoto é entregue pelo elevador. Dirigido por Wes Ball e roteiro de Noah Oppenheim.

O corredor do labirinto:
Existem livros que nos fazem esperar ansiosamente pela sua adaptação para o cinema. Neste caso, este filme me fez querer ler o livro, ou melhor, toda a saga Maze Runner, escrita por James Dashner, composta por quatro livros: “Correr ou morrer” (2010), “Prova de fogo” (2011), “A cura mortal” (2012) e “Ordem de extermínio” (2013). É um filme de ficção científica, lembra o estilo da franquia Jogos Vorazes, mas contém muito mistério. Como adaptação, parece que foi muito bem. Pelo menos, se o livro for melhor que o filme (é o que dizem), com certeza já vale a pena conferir toda a franquia.
Com um elenco jovem e agradável, o filme é rodeado de mistérios, teorias que vamos imaginar, algumas respostas que teremos e uma boa aventura, focada em fugas alucinantes, algo que sempre me agrada nos filmes de ação. Diante das diversas tarefas que cada um pode fazer (desde que aceito em seu papel) na Clareira, existe a tarefa dos "corredores", que são responsáveis por mapear o labirinto em busca de uma saída. Trata-se da tarefa mais arriscada, considerando que aqueles que não conseguiram voltar do Labirinto, antes deste fechar, nunca mais voltaram a aparecer.
A atuação de Dylan O’Brien consegue passar a sua sensação de perdição e descoberta, assim como a sua ousadia. Parece que há nele um talento para escapar de situações difíceis, algo especial no personagem, mais uma coisa para aumentar o mistério. A velha sensação de não saber o que está acontecendo, enigmas e todos os elementos de uma boa ficção com aventura marcam a trama. A arquitetura do labirinto criado por Dashner, revelada aos poucos, é bem interessante, assim como as “criaturas” sinistras. Wes Ball fez um bom trabalho assumindo a responsabilidade de quem adapta livros que já agradaram ao público. Ainda podemos sair do filme com uma ansiedade pela sua continuação, já confirmada pelos estúdios.

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Fontes:

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Viver (“Ikiru”, Japão, 1952)

Eu indico
Ikiru (Japão, 1952)

Kanji Watanabe, um idoso burocrata com câncer no estômago, é forçado a buscar o significado de sua existência nos seus dias finais. Dirigido por Akira Kurosawa.

Viver:
Considerado como um dos maiores filmes do diretor japonês mais famoso do mundo - Akira Kurosawa -, mostra a difícil situação de um homem idoso que descobre ter poucos meses de vida, diante de toda uma vida que ele percebe ter jogado fora. Mesmo com todos conflitos que este homem vai enfrentar, sua reviravolta repentina diante da morte que se aproxima, nos deixa uma grande lição.
Podemos dividir o filme em duas partes, a primeira mostrando a revolta e perdição de Watanabe diante da notícia fatídica, na qual passa a lembrar de momentos importantes de sua vida, se arrependendo de alguns, mas também sentindo saudade de outros bons momentos. Antes até mesmo de termos compaixão deste senhor, a sua mudança de atitude marca a segunda parte do filme, onde vemos a beleza da vida de um homem mesmo ao se aproximar a hora de sua morte.
Takashi Shimura protagoniza muito bem seu papel, sendo muito natural nas reações diante dos acontecimentos, até numa cena onde ele canta e chama a atenção das pessoas ao redor. Um detalhe é que esta mesma cantoria marca os momentos finais do filme, de forma emocionante.
RELAÇÕES PÚBLICAS: CHEFE DE SETOR. Está escrito na mesa de Watanabe, no seu ambiente de trabalho. Ele é o chefe de uma repartição pública na cidade de Tóquio, e está próximo de sua aposentadoria. Em mais de uma passagem, o diretor Kurosawa vai mostrar este mesmo ambiente, mas o espectador terá emoções distintas. Em dado momento, o serviço público é criticado diretamente, seja ao mostrar o protagonista em seu trabalho carimbando papéis e organizando a burocracia da repartição, mas sem fazer diferença alguma para a sociedade, seja numa marcante passagem onde um grupo da comunidade local precisa resolver uma questão pública, a respeito de um esgoto que poderia ser transformado num parque, mas acabam sendo sempre direcionados para a responsabilidade de outra repartição e, após algumas voltas, estão de volta ao começo. Ninguém ajuda a resolver o problema. Em outro momento, vemos que Watanabe abraça a causa e se realiza através dela, servindo de inspiração para os que ficarem. Saindo da mera burocracia e partindo para a ação política, contra todas as barreiras, tendo de convencer as demais repartições da prefeitura na condução das obras e outros atores afetados, percebemos que ele concretiza seu desejo com entusiamo. Kurosawa ainda incluí cena com a troca do chapéu do personagem, para marcar a sua transformação.
A doença, como provocador para uma consciência e preocupação com o sentido da própria existência, tem o seu lado bom. Primeiramente, vem a lamentação pelo que não viveu, ou que deixou de fazer. Mas antes de se dar por vencido, uma nova postura diante da vida, um cuidado com o mundo, com as pessoas, é a lição que fica.

"A vida é curta
Apaixonem-se, donzelas
Antes do desabrochar
Desfaleça os lábios
Antes da maré da paixão
Sinta dentro de você
Para aqueles como você
Que conhecem o amanhã”
(música cantada por Watanabe no filme)

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sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A Noite dos Desesperados (EUA, 1969)

Eu indico
They Shoot Horses, Don't They? (EUA, 1969)

Em 1929, em plena depressão americana, uma desumana maratona de dança premiava o casal que resistisse por mais tempo na pista, mesmo que isso representasse a morte para o vencedor. Dirigido por Sydney Pollack.

Assim como cavalos:
Um concurso de dança se aproveita do desespero das pessoas para ganhar publicidade, sendo palco para mostrar o quanto alguém pode se sujeitar a qualquer sofrimento para ganhar alguma coisa. Estamos no final da década de 20, com as consequências da grande depressão pós queda da Bolsa de Nova York, onde de fato esses concursos existiam e atraíam milhares de pessoas necessitadas.
Baseado no livro de Horace McCoy, o filme mostra esse concurso que oferece um prêmio de 1.500 dólares somente para o casal que conseguir ficar mais tempo dançando. A maratona é desesperadora: a cada duas horas sem parar, dez minutos de descanso em acomodações desumanas onde o encosto é outra pessoa. Se alguém cai, tem dez segundos para levantar, como se fosse uma contagem do boxe. Como se já não bastasse, existe uma corrida de dez minutos, em volta de um círculo, onde os últimos três casais a cruzar a linha de chegada são desclassificados. Em uma dessas cenas da corrida, contemplamos em câmera lenta o desespero e empenho dos casais, retratando, junto com o resto da trama, uma sociedade em crise, onde pessoas se permitem uma absurda condição, numa desumana maratona de dança.
Em sua maioria vencidos pelo cansaço e pela dor, suas vidas não valem mais do que um cavalo ferido em acidente. Daí o curioso título original "They Shoot Horses, Don't They?" (“Eles atiram em cavalos, não é mesmo?”), uma referência ao ato de sacrificar o animal ferido para que ele não sofra mais, o que cabe como metáfora perfeita para este filme. E a plateia se diverte, torce, adota ídolos, aposta, como se os participantes fossem cavalos numa corrida. Até o expectador pode acabar entrando na torcida, principalmente pelo casal protagonista, Gloria (Jane Fonda) e Robert (Michael Sarrazin), nem que torça para que eles consigam, milagrosamente, sair bem dessa situação, até porque eles não tem perspectiva alguma no mundo lá fora.
A fome, miséria e desemprego atrai uma fila de pessoas querendo participar do concurso insano, pelo prêmio ou pelas refeições diárias. Alguns parecem estar sem rumo na vida e acabam entrando na competição. É a oportunidade de lidar com diversos personagens e fazer uma análise da sociedade da época, tanto os afetados pela depressão, quanto a minoria que está ali para assistir e se divertir. O destaque de atuação fica para o vencedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, por este filme, Gig Young, que interpreta o showman do concurso, um personagem feito para ser odiado, apesar de que, em alguns momentos, consegue ser humanizado. Com isto, a condução do diretor Sydney Pollack resultou na indicação de 9 Oscar, este que também já foi produtor e ator, e faleceu aos 73 anos em 2008.

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Fontes:

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Nossa Hospitalidade (EUA, 1923)

Eu indico
Our Hospitality (EUA, 1923)

Por volta de 1830, as famílias McKay e Canfield travavam uma grande rixa em Kentucky, nos Estados Unidos. Quando John McKay (Edward Coxen) é morto, a viúva manda o filho de 1 ano para ser criado pela tia em Nova York. Vinte anos depois, Willie (Buster Keaton) volta à Kentucky em um trem e vai lutar para ter suas posses de volta. Na viagem, ele conhece uma menina da família Canfield e se apaixona por ela, mas a rixa parece ainda não ter sido resolvida. Dirigido por Buster Keaton.

Hospitalidade:
Buster Keaton dirige e protagoniza este que é considerado o seu melhor filme por muitos críticos do cinema, embora ele mesmo tenha uma preferência por A General (1926), uma excelente comédia que pode ser conferida aqui neste blog (não dirigida por ele):
http://eueatelona.blogspot.com.br/2014/05/a-general-eua-1926.html
Como um dos grandes comediantes independentes (já que dirigia muitos de seus filmes), foi elevado ao nível de Charles Chaplin. Embora vistos por muitos como grandes rivais no mundo do cinema, na verdade eram quase como parceiros que concretizaram grandes filmes, cada um ao seu estilo maximizando a magia do cinema, chegando a atuar juntos numa cena relevante em “Luzes da Ribalta” (Limelight, 1952), de Chaplin, ambos com idade mais avançada.
Podemos perceber que “Nossa Hospitalidade” não abandona a comédia que prevalece nos filmes de Keaton. Contudo, existe toda uma questão dramática tratada. Ao tratar da hospitalidade, do saber acolher, característica fundamental para a boa convivência, neste filme ofuscada pelo ódio entre diferentes famílias, por conta de uma rixa forte ao longo dos tempos, o filme também garante sua faceta séria, embora a comédia prevaleça. É claro que os encontros e desencontros, atrapalhações, que são características fundamentais das comédias mudas, levam a situações engraçadas, mas o centro da proposta está lá o tempo todo: a intenção é acabar com a vida de Willie simplesmente por ele ser um membro da família McKay. Pessoas, muitas vezes, tão prezas à tradições absurdas, mesmo que as torne cruéis, acabam não enxergando o bem à sua frente. E tudo isso, no filme, é abordado com a leveza de uma comédia madura. As armações que o personagem de Keaton apronta para não ser pego e, ao mesmo tempo, ficar próximo de sua amada (sem que ela perceba que sua família quer acabar com ele) são criativas e divertidas. Reparem nas suas desculpas para não sair da casa da família Canfield, já que lá dentro, pelas etiquetas da época, ele não poderia ser maltratado. E o interessante de tudo é que a solução para sair desta situação é tão simples que, ao ser apresentada, de repente faz todo o sentido e nos arranca mais um sorriso.
Keaton vive seus personagens sem expressão no rosto - por isso etiquetado como “o palhaço que não ri” - mas as situações que vive nas cenas são hilárias. A cena onde McKay (Keaton) viaja de trem para a chegar à propriedade de sua família é surreal, lembrando cenas maravilhosas de “A General”, que provavelmente é a comédia mais relevante, que envolve trens, no mundo do cinema.

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Fontes:

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Traídos pelo Desejo (“The Crying Game”, 1992)

Eu indico
The Crying Game (Reino Unido /  Irlanda / Japão, 1992)

Fergus (Stephen Rea), um membro do IRA (Exército Republicano Irlandês), juntamente com outros companheiros terroristas, sequestram o soldado britânico Jody (Forest Whitaker). Eles mantém o soldado em cativeiro e pedem um resgate por ele. Se não forem atendidos em três dias, Jody será executado. Fergus fica encarregado de guardar Jody e acaba desenvolvendo uma amizade com este. Direção e roteiro de Neil Jordan.

A fábula do escorpião e da rã:
A sinopse acima é na verdade uma introdução do que pode ser visto neste surpreendente filme, indicado a seis Oscar: melhor filme, edição, ator (Stephen Rea), ator coadjuvante (Jaye Davidson), diretor e roteiro original (de Neil Jordan), sendo que venceu neste último. Talvez se não tivesse disputado com grandes filmes de 1992, como Os Imperdoáveis (de Clint Eastwood) e Perfume de Mulher (de Martin Brest), mais estatuetas seriam conquistadas. É até admissível que Os Imperdoáveis tenha recebido os prêmios de melhor filme e direção, assim como Al Pacino, quase imbatível no papel, como melhor ator em Perfume de Mulher. Entretanto, por mais que respeitemos a atuação memorável de Gene Hackman por Os Imperdoáveis, levando o prêmio de melhor ator coadjuvante, foi uma grande injustiça o Oscar não ter premiado o ator Jaye Davidson pelo papel de Dil, um ator de pouca visibilidade e que só chegou a atuar em 5 filmes. Seu papel neste é controverso, difícil para qualquer um. De um mero coadjuvante, o personagem Dil pode se tornar o principal centro de atenção do espectador, muito pela atuação excepcional do ator Jaye Davidson.
Este é um filme enigmático e surpreendente em muitos momentos, podendo causar um choque nas pessoas mais sensíveis. Pelo menos quanto a isso o reconhecimento do Oscar foi justo (melhor roteiro original). A fábula do escorpião e da rã, que Jody (soldado inglês sequestrado) conta à Fergus (seu carcereiro) é a metáfora que melhor representa o filme. Jody é interpretado por mais um grande ator, Forest Whitaker, que merecia pelo menos uma indicação, mas também foi injustiçado. O título original "The Crying Game" (algo como "O Jogo das Lágrimas") é o título de uma canção que Dil está cantando quando Fergus a encontra em Londres, canção de 1960 do inglês Dave Berry, regravada por Boy George. A trilha sonora em si é mais um ponto forte, com a produção musical de Anne Dudley e da banda Pet Shop Boys.
O destino, como se estivesse escrito, trilha os caminhos de Fergus, já que ele é o protagonista, ponto central da história. Mas o que entendemos é que a sua natureza o faz dono de seu destino, suas escolhas estão amarradas ao que ele é de fato, algo que ele aprendeu com Jody. Stephen Rea como Fergus surpreende, um membro do IRA, experiente, mas com uma certa sensibilidade. Difícil de ser interpretado com seus comportamentos, a princípio, controversos, aos poucos mostra o que ele é realmente. Sempre voltamos ao que o personagem de Forest Whitaker disse, quando eles se aproximaram no momento mais atípico possível. A partir daí nos deparamos com envolvimentos amorosos, conturbações e interrupções regadas por questões de opção sexual, preconceito e valores pessoais, principalmente através de Fergus que vai se revelando aos poucos, criando uma relação de dependência com Dil que vai nortear o clímax do filme.

Cena do filme que mostra o retrato na carteira de
Jody (Forest Whitaker, à direita), junto com Dil (Jaye Davidson)
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Fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/The_Crying_Game

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Eva – Um Novo Começo (“Eva”, Espanha, 2011)

Eu indico
Eva (Espanha, 2011)

Em 2041, os seres humanos convivem com criaturas mecânicas. Alex (Daniel Brühl), um famoso engenheiro cibernético, retorna a Santa Irene, depois de dez anos, para atender a um pedido muito específico da Escola de Robótica: a criação de um robô-criança. Nesses dez anos de ausência, seu irmão David e Lana reconstruíram suas vidas e tiveram a filha Eva (Claudia Vega), que acaba tendo uma relação especial com Alex. Dirigido por Kike Maíllo.

O que você vê quando fecha os olhos?
No topo das montanhas geladas de Santa Irene, em 2041, uma mulher à beira do abismo grita, quando seu corpo cai. Correndo entre os pinheiros, na neve, uma menina de casaco vermelho corre até um chalé de madeira e bate à porta. O homem que atende pergunta: "Eva, o que você faz aqui? Onde está sua mãe?" E a menina desmaia. Este é o início enigmático da trama que aborda as questões da chamada inteligência artificial, num futuro próximo onde seres humanos convivem com robôs criados por eles. O diretor trata das questões de forma agradável e com simplicidade, indo tanto pela abordagem tecnológica (ferramentas para escolher os elementos que vão formar o caráter do robô, por exemplo) quanto pela humana, onde entram as situações críticas como a liberdade humana, segurança e perduração. Mostra a convivência entre seres humanos e máquinas de forma quase natural, tão semelhantes entre si que se confundem nas ruas.
A premissa parte da busca pela criação de um modelo perfeito, sem defeitos e pecados como os seres humanos. São mostradas utilidades dos androides, que podem falar várias línguas, jogar xadrez, cozinhar, cuidar de idosos e doentes, ensinar crianças, fazer manutenções domésticas, etc. Porém, ao tratar das imperfeições destes é que a trama ganha muito sentido, já que os defeitos os tornam mais ainda parecidos com os humanos. E junto com isso vem questões de tolerância, medo, perdão. Uma forma criativa de desativar os robôs imediatamente, a fim de salvaguardar a espécie humana, é a criação de uma frase senha – pelo visto universal – que pode ser usada a qualquer momento: “O que você vê quando fecha os olhos?” é a “proteção” perfeita contra os robôs.
Encarregado de criar o software de controle emocional de um androide menino (o SI-9), Alex, engenheiro cibernético, é o protagonista do filme. Eva, que remete à figura feminina bíblica criada a partir da costela de Adão (como metáfora para a criação de robôs à imagem e semelhança do homem), é uma garota de personalidade atípica, extrovertida e simpática, perfeita como modelo para um robô criança (embora a mãe não permita sua participação nesta experiência), que aparece diante de Alex e eles acabam tendo forte empatia entre si. A garota, com boa interpretação da atriz Claudia Vega, inspira Alex para o projeto, a ponto deste querer usar as características de sua personalidade como protótipo para a criação do robô. A interação entre os dois é mais um ponto forte no filme.
É preciso reconhecer que, diante de tantos filmes excelentes que tratam a temática da inteligência artificial, como “A.I. Inteligência Artificial” (2011, de Steven Spielberg) e “Blade Runner” (1982, de Ridley Scott), é difícil ganhar um destaque. Entretanto, este filme consegue e pode ser acrescentado à lista.

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Fontes: