Apresentação

Como cheguei aqui

Sempre gostei de indicar filmes e compartilhar informações, sensações e opinião pessoal sobre eles. A atividade cinematográfica é uma das minhas paixões. Optei aqui por indicar 3 filmes por mês, manifestando a minha opinião como um simples espectador, compartilhando algumas informações sobre os filmes selecionados. Espero que o resultado seja agradável para quem visitar.

Enquanto for interessante, estarei por aqui...


Cinema Paradiso (Itália/França, 1988)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Anna dos 6 aos 18 (Rússia, 1993)

Eu indico
Anna: Ot shesti do vosemnadtsati (Rússia, 1993)

O diretor Nikita Mikhalkov mostra a evolução de sua filha Anna dos 6 aos 18 anos – e, paralelamente, a história da União Soviética durante esse período. Uma vez por ano, ao longo de 12 anos, ele filma a filha e lhe pergunta o que ela mais ama, o que ela mais odeia, o que ela teme, etc, gerando um documentário sobre os últimos anos do império soviético até a sua explosão.

13 anos de Rússia:
Foram 13 anos para completar este documentário. O diretor Nikita Mikhalkov e sua filha Anna são os personagens reais que acompanhamos através de trechos rodados ao longo deste tempo, tempo no qual ocorreu o fim da União Soviética (de 1980 a 1991). A cada ano quem está à frente da câmera é a sua filha, desde a infância até a juventude, e através de suas respostas e dos comentários do diretor, se constrói uma narrativa bem realista sobre a ex-União Soviética, com uma crítica severa à própria nação.
Projeto pessoal de grande valor e originalidade, considerando também que a filmagem foi clandestina, os rolos de filmes e equipamentos eram obtidos no mercado negro e a edição tinha algumas limitações, mas o resultado é grande para um documentário. A narrativa nem fica cansativa. Para quem gosta de História, é essencial.
Durante a narrativa, o diretor nos apresenta um de seus filmes anteriores, no qual um garoto vivencia o velho império russo, servindo então de comparativo com a vida real de sua filha Anna, que vive parte do império soviético. Anna começa sendo entrevistada numa época de grande censura, e logo aos 7 dá uma resposta interessante ao questionamento “o que você mais deseja?”, dizendo: “conseguir dar boas respostas”. Já em outro momento ela responde sobre o que mais odeia: “discussões em família, ou de qualquer tipo... uma discussão pode levar o mundo à guerra”. O filme passa também pela época da “Perestroika”, uma política introduzida na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas por Mikhail Gorbachev, em 1985, dando uma ideia de reestruturação (abertura) econômica. A reação da menina acaba sempre espelhando a realidade do país.
Apoiado por Sergei Miroshnichenko no roteiro, Nikita Mikhalkov explora muitas cenas com os encontros oficiais dos líderes comunistas, muita referência a Lênin, Stálin, Brejnev, Chernenko, Gorbachev, Yeltsin, entre outros, mostrando as falhas, incapacidades ou descaso deles, mesmo diante das crises que assolavam a economia. É interessante perceber que a Rússia de hoje é fruto desta conjuntura histórica e que gera tantas decepções, podemos até conferir isso em outro filme russo, do diretor Andrey Zvyagintsev, favorito ao prêmio do Oscar desde ano, para a categoria de melhor filme estrangeiro: Leviatã (2014), que já levou o Globo de Ouro. Este é um drama que trás uma visão atual e sem filtros da corrupção e injustiça em torno do Estado Russo.
Muito pertinente, também, logo na introdução, a clareza em mostrar que o país perdeu a ligação com Deus. Em muitos momentos as palavras do diretor expressam sua decepção e dão um grande significado ao contexto, como na passagem abaixo:

Nosso potencial aumentou muito, e portanto,
aparentemente, nosso conhecimento também.
Contudo, a ausência de Deus tornou este potencial 
e este conhecimento destrutivos.
Perdemos o respeito pela vida e pela morte.
Transformamos a vida em seriado de TV, a morte em jogo de computador
e a aquisição em destruição.”

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Fontes:

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Juan dos Mortos (Cuba, 2013)

Eu indico
Juan de los Muertos (Espanha / Cuba, 2013)

Juan (Alexis Díaz de Villegas) é um sujeito de 40 anos especializado na arte de não fazer nada. Um dia, se depara com uma misteriosa infecção que está transformando os habitantes de Havana em mortos-vivos. Como um bom cubano, decide começar um negócio ao lado do amigo Lazaro (Jorge Molina) para tirar vantagem da situação. Eles se especializam em assassinar zumbis e trabalham com o slogan "Matamos seus entes queridos". O negócio acaba sendo afetado com o crescimento constante do número de infectados. Dirigido por Alejandro Brugués.

"Juan dos Mortos. Matamos seus entes queridos. Em que posso ajudar?"
Imagine uma multidão de zumbis em Cuba e um pequeno grupo de pessoas se aproveitando da situação para vender os seus serviços de exterminadores de zumbis. A proposta resulta numa comédia com terror bastante agradável. Até a motivação do surgimento dos mortos-vivos é associada, pela mídia, aos EUA (dissidentes cubanos financiados pelo governo norte-americano).
Filme de zumbi não é novidade alguma, inclusive com comédia. Mesmo assim, muitas situações criativamente engraçadas são trabalhadas no longa, ainda mais com a performance do ator Alexis Díaz de Villegas e com um diretor (Alejandro Brugués) que é fã do Gênero. Segue a fórmula de usar o apocalipse zumbi como metáfora para criticar uma sociedade, focando na acomodação de muitas pessoas no país, como o personagem principal, que não quer nada da vida e ainda se aproveita da situação. Entretanto, no final vemos a sua transformação pessoal e percepção de que pode mudar a situação no país.
Situações hilárias como o treinamento do time recrutado para combater os zumbis, as armas usadas (remo, shuriken, badoque, etc), a demora em perceber o ponto fraco das criaturas, personagens que desmaiam ao ver sangue (num filme de zumbis!), a artimanha para decepar vários zumbis de uma vez, assim como muitas cenas “trash” marcam o filme. Ao final ainda temos o uso de arte desenhada, chegando a sugerir que o filme foi adaptado dos quadrinhos.
Foi uma surpresa a sua premiação como melhor filme iberoamericano no Goya, em 2013, já que os favoritos eram "Infância Clandestina" (2011, de Benjamin Avila) e "Depois de Lúcia" (2012, de Michel Franco), os quais não possuem nada de comédia e nada de zumbis.

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terça-feira, 13 de janeiro de 2015

O Predestinado (Austrália, 2014)

Eu indico
Predestination (Austrália, 2014)

Um agente temporal (Ethan Hawke) trabalha para uma organização secreta que procura criminosos e os captura antes que eles cometam o delito. Após anos de trabalho, ele encara sua última missão antes de se aposentar: capturar um criminoso responsável por grandes atentados, sendo um em 1975, deixando mais de 11 mil mortos em Nova York. Dirigido por Michael e Peter Spierig.

Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?
Os Irmãos Michael e Peter Spierig tomam a frente em um dos melhores filmes de ficção de 2014. Estrelado por Ethan Hawke, um grande ator norte-americano, o qual contracena com Sarah Snook e Noah Taylor, sendo que a primeira conseguiu o melhor papel de sua vida, até então, já que interpreta um mesmo personagem em épocas distintas e completamente transformado, ficando excelente no papel.
É o tipo de filme que vai confundir muitos espectadores. Eu mesmo precisei ficar pensando um pouco, lembrando cenas e discutindo com amigos, após o término. O entendimento pleno da situação é fundamental para perceber a grandiosidade do filme, então, para quem ficou confuso, vale muito a pena dar uma lida no site abaixo (precisa selecionar o texto na página para que seja exibida a parte que explica, ou seja, os spoilers):
Apesar de existirem grandes filmes sobre viagem no tempo e seus paradoxos, como “Os 12 Macacos” (1995) que possui boa semelhança com este “Predestination”, mais uma vez grandes diretores conseguem somar à temática com um filme bem inteligente. Como se trata de saltos no tempo, seremos convidados a acompanhar os desdobramentos em momentos diferentes: passado, presente e futuro... mas onde está o presente? O que aconteceu e o que ainda vai acontecer?
Temos também ação e criatividade na narrativa. Podemos conferir isso através da ideia utilizada para a máquina portátil, artefato utilizado como mecanismo para as viagens no tempo, bem interessante. No final das contas, tudo fica bem encaixado e assim podemos admirar facilmente o escritor Robert A. Heinlein, responsável pelo conto “All You Zombies”, utilizado como base para a narrativa. Logo o espectador vai entender que o título do livro tem relação com o efeito causado pelos saltos no tempo, uma coisa – entre tantas - que é usada no filme para a explicação toda. Assim como a pergunta “Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?” e sua resposta. Assim, vão me desculpando o mistério e o suspense, mas o que vale é conferir o resultado e prestar atenção, o que é fácil em se tratando de um bom filme.

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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Mommy (Canadá, 2014)

Eu indico
Mommy (Canadá, 2014)

Canadá, ano de 2015. Diane Després (Anne Dorval) é surpreendida com a notícia de que seu filho, Steve (Antoine-Olivier Pilon), foi expulso do reformatório onde vive por ter incendiado a cafeteria local e, com isso, provocado queimaduras de terceiro grau em um garoto. Os dois voltam a morar juntos, mas Diane enfrenta dificuldades devido à hiperatividade de Steve, que muitas vezes o torna agressivo. Os dois apenas conseguem encontrar um certo equilíbrio quando a vizinha Kyla (Suzanne Clément) entra na vida de ambos. Dirigido por Xavier Dolan.

Wonderwall:
Se eu pudesse decidir pelos indicados ao próximo Oscar de filme estrangeiro, com certeza este estaria na frente. Premiado pelo júri no último Festival de Cannes, o jovem diretor Xavier Dolan, com 25 anos de idade, assume a direção, roteiro, produção, edição e cuida do figurino, com uma temática séria e realista, e ainda introduzindo certa ficção, já que o filme se passa num futuro próximo, só que bem próximo (em 2015), no qual a lei canadense permite que os pais, em caso de problemas com os filhos, possam livremente interná-los em hospitais públicos, sem burocracia. Essa é a premissa para mostrar a conturbada relação de Diane Després (Anne Dorval), mãe solteira, com seu filho Steve (Antoine-Olivier Pilon), este último com forte distúrbio comportamental, denominado TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), um personagem que vai nos preocupar e até nos divertir. A relação entre eles começa a melhorar quando conhecem a vizinha, professora, Kyla (Suzanne Clément) que, apesar de dar um equilíbrio aos dois, não consegue um equilíbrio dentro da própria casa. Sabemos que a lei está vigente e acompanhamos a relação entre mãe e filho, então o expectador atento vai ficar na expectativa sobre as decisões da mãe.
As interpretações realistas e intensas dos três atores principais é um ponto alto do filme, mas existe uma particularidade neste que, além de original, ficou muito bem encaixada na proposta: o formato de tela. Expectadores desatentos ou pouco informados vão reclamar de alguma falha na projeção (ocorreu na sessão de cinema na qual estive). O diretor decidiu utilizar o formato 1:1, tela quadrada, quando estamos acostumados com a tela retangular. Dessa forma, podemos nos sentir um pouco desconfortáveis, com sensação de aperto, entretanto esse artifício foi proposital, é só assistir para conferir (para quem precisar, ou não tiver a oportunidade de assistir, confira o SPOILER sobre a tela, mais abaixo).
A trilha sonora, passando por Dido, Oasis, Counting Crows e Beck, é fantástica, ainda mais quando aparece “On Ne Change Pas” (“Nós Não Mudamos”, cantada por Celine Dion) interpretada numa cena pelos três personagens, de forma divertida, em seu ambiente particular, esquecendo o resto do mundo que, como dito por Diane Després, é um mundo com pouca esperança e expectativas ruins.

A tela e a música “Wonderwall” do Oasis - SPOILER:
O formato da tela muda no decorrer da história, em momentos diferentes, representando a sensação de liberdade, felicidade ou leveza que os personagens sentem naquele instante. Particularmente, a primeira cena na qual a tela estica é fenomenal, até porque ocorre ao som de “Wonderwall” do Oasis, umas das minhas músicas preferidas. A forma como a tela abre é como se fosse forçada pelo personagem Steve, quando este abre os braços “empurrando” a imagem da tela. Para personagens que possuem uma difícil realidade, a tela abre em momentos de grandes esperanças, sonhos e melhores expectativas. Bem original e no momento certo, gerando uma sensação de agradável surpresa em expectadores apaixonados.

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sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O Lugar Onde Tudo Termina (EUA, 2013)

Eu indico
The Place Beyond the Pines (EUA, 2013)

Luke (Ryan Gosling) é um motociclista que pilota dentro de globos da morte para um circo itinerante. Quando descobre que sua ex-namorada, Romina (Eva Mendes), teve um filho seu, ele tenta se reaproximar dela. Sua intenção é mostrar-se um pai capaz de sustentar o filho e, para isso, Luke decide participar de uma série de roubos a bancos. Ao realizar sozinho um assalto, ele é perseguido pela polícia e acaba sendo confrontado por Avery Cross (Bradley Cooper), um policial que cumpria sua rotina fazendo a ronda diária. Dirigido por Derek Cianfrance.

Schenectady, Nova York:
Este filme tem como ponto forte as reviravoltas, com destaque para a mudança de foco nos personagens principais, os quais entram e saem da trama nos deixando sempre sem saber quem será posto em evidência, contudo, claramente todos eles possuem uma ligação e a história se mantêm firme em sua proposta. Esta proposta é simples: reflexos de reencontros entre pessoas que compartilharam algum momento marcante. Com um clima bem misterioso, não entendemos sua mensagem principal logo de cara; na verdade, pela segunda metade do filme as coisas vão sendo relevadas.
Ryan Gosling representa um personagem confuso, propenso a violência, mas não necessariamente perverso. Outros personagens até enxergam seu lado bom, antes que o espectador caia na armadilha de julgar o mesmo somente pelo lado ruim. Diante de um filho recém-nascido, ele acaba perdendo o controle, como se fosse um motoqueiro que comete um erro fatal no globo da morte (profissão na qual ele atua). Bradley Cooper, então, já é um personagem com família estabeleciaa, senso de justiça, mas que passará por uma grande atribulação, principalmente interna. Não existem somente os dois, outros personagens tomam seu caminho na vida e percebemos como decisões repentinas podem mudar tanto o rumo de cada um, quanto o de outras pessoas que nem imaginavam existir. Muitas vezes, a pressão de determinada situação nos leva a cometer ações nas quais a consequência só aparece muito tempo depois. É sustentando esse mistério - a ser revelado em momentos oportunos - que o filme agrada, mostrando por exemplo, através de um dos personagens, o remorso, que atinge seu ponto insuportável após um certo tempo. Mas também vemos uma solução através do perdão e das atitudes escolhidas para os dias vindouros, principalmente a questão de perdoar a si mesmo.
É bem interessante como o personagem de Bradley Cooper entra em cena como se fosse um coadjuvante qualquer, um personagem passageiro, mas na verdade se torna um dos pontos centrais da trama. Dessa forma, todo um significado que não se perde com essas mudanças e reviravoltas culmina de alguma forma para o fechamento da trama. Na cena da perseguição, onde o mesmo surge, nem vemos o seu rosto, pois a perspectiva se mantém, um bom tempo, em primeira pessoa, nos passando melhor a sensação que ele está tendo. Não somente uma ótima atuação, mas também o recurso da filmagem ajuda o espectador a ter sensações mais intensas.
Parece que Ryan Gosling pilotou de fato a moto, numa das cenas, já que não foram encontrados dublês que aceitassem fazê-la. Esta mesma teve que ser rodada mais de 20 vezes, na qual ele passa entre carros antes que haja uma colisão envolvendo mais de 30 automóveis.
É um filme contínuo e sem retorno, saltando no tempo quando precisa e nos mostrando os personagens aos poucos, inclusive a forma como alguns deles terão um maior conhecimento a respeito de outros. O título original, “The Places Beyond the Pines” (O lugar além dos pinheiros), veio do nome da cidade de Schenectady, no estado de Nova York, onde se passa a história. Na linguagem dos índios mohawk, Schenectady significa “atrás da planície dos pinheiros”.
O diretor Derek Cianfrance e os produtores Lynette Howell, Alex Orlovsky e Jamie Patricof refazem a parceria com o ator Ryan Gosling, após o filme “Namorados Para Sempre” (Blue Valentine, 2010), o primeiro filme postado neste blog:

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quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Isolados (Brasil, 2014)

Eu indico
Isolados (Brasil, 2014)

O psiquiatra Lauro (Bruno Gagliasso) e sua namorada, Renata (Regiane Alves), decidem passar férias em uma casa isolada na serra, porém o que parecia ser uma época de paz e sossego, acaba se tornando um pesadelo, quando uma sequência de ataques violentos na região se aproxima cada vez mais do casal. Dirigido por Tomas Portella.

Suspense nacional de qualidade:
Historicamente, o cinema nacional deixa a desejar no gênero suspense. Talvez por conta disso é que este filme tenha se destacado quando apareceu na 42ª edição do Festival de Gramado, abrindo a programação do evento. Outrossim, estamos num ano onde o suspense e o terror não passaram muito bem pelas salas de cinema, já que as produções lançadas em 2014 foram muito fracas; dessa forma, este filme pode ser considerado a melhor opção. Sendo um filme nacional, ajuda a mudar uma imagem de que este gênero, por aqui, nunca foi destaque.
De fato, mesmo comparando com produções internacionais, este filme brasileiro é um bom suspense. O diretor Tomas Portella soube introduzir rapidamente, nas sequências iniciais, toda a atmosfera misteriosa necessária para demonstrar o que viria pela frente, e isso é suspense de verdade, suspense psicológico. O cenário das florestas de Teresópolis ajuda a contextualizar a problemática pela qual a região passa quando assassinos insanos entram em ação. A cena inicial já é forte o suficiente para ganhar a atenção do público amante do gênero. O mistério vai sendo relevado aos poucos, as informações sobre os assassinos, os quais o diretor insiste em esconder os rostos, surgem a partir de depoimentos de personagens secundários. A fotografia usa as sombras das árvores e casas do vilarejo, mais ainda do casarão onde o casal Bruno Gagliasso e Regiane Alves vão ficar, isolados, com o objetivo de melhorar a relação. A casa, cheia de buracos nas paredes com vidros e luzes coloridas, pouca iluminação, ajuda a aumentar a tensão e o suspense. Podemos também nos preparar para um final interessante e, para muitos, surpreendente. A ameaça que vem do lado de fora da casa, rodeada pela mata com seus barulhos sempre curiosos e sinistros, vai marcar os melhores momentos do filme.
Este também é o último trabalho do grande ator José Wilker, no cinema. Ele faleceu em abril deste ano de 2014. No final do filme, uma frase “in memorian”, escrita por Wilker, é apresentada. Na verdade ela faz parte de uma matéria escrita por ele, em 2001, que contém um dos melhores depoimentos sobre o cinema que eu já li. Então, reproduzindo:

“Orson Welles, provavelmente mentindo, afirma que na verdade: 'um filme, além de morto, não está nem muito fresco. Vem numa luta. Fazer um filme leva tempo. O filme que estreia na semana que vem é do ano passado'. É um fato. Mas nós, que nos sentamos no escuro para seu velório, sempre o ressuscitamos. E quando isso acontece, que bela eternidade ele nos dá para o que sobrar do dia. Experimente. Pegue uma lanterna, uma lente e projete um fotograma na parede. O resto é the end.”
(José Wilker).

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segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Gloria (Chile, 2013)

Eu indico
Gloria (Chile, 2013)

Gloria (Paulina García) é uma mulher de 58 anos, cujos filhos já saíram de casa há algum tempo. Como se recusa a ficar sozinha em casa às noites, ela tem o hábito de ir a bailes dedicados à terceira idade. Lá ela conhece vários homens, com os quais costuma se empolgar e, tempos depois, se decepcionar. A situação muda quando conhece Rodolfo (Sergio Hernández), um ex-oficial da Marinha que é sete anos mais velho do que ela. Gloria se apaixona por ele e passa até mesmo a aspirar um relacionamento permanente. Dirigido por Sebastián Lelio.

Viva cada momento:
Santiago do Chile. Uma cidade linda, mesmo assim com habitantes que procuram vencer a solidão que vem junto com o cotidiano. Uma situação bem comum nos dias de hoje, que leva muitas pessoas, principalmente mulheres mais velhas, a se entregar à solidão. Gloria, interpretada por Paulina García – que recebeu o Urso de Prata de melhor atriz no Festival de Berlim em 2013, por este papel –, poderia ser mais uma mulher assim, já que está desquitada e com quase 60 anos. Contudo, ela nos surpreende com suas atitudes e forma de vida. Mantendo uma rotina que divide o trabalho e as baladas com naturalidade e responsabilidade, acompanhamos a personagem ouvindo rádio e cantando sozinha, indo em festas, dançando e arrumando companhias.
O filme mostra que existe sensualidade em uma personagem assim, contrastando com a tipologia hollywoodiana de personagens femininos sensuais. Inclusive, temos belas cenas de nudez entre casais mais velhos. Além disso, sua afirmação como mulher, superando o comportamento comum, está um pouco alinhada com a realidade do Chile que, em 2014, voltou a ser governado por uma mulher, Michelle Bachelet.
Ao conhecer um homem recém-separado, o envolvimento entre os dois ocorre rápido. Porém, com o tempo, percebendo que ele possui amarras do relacionamento anterior, sustentando e mimando as filhas que vivem exageradamente dele, Glória mais uma vez não se entrega ao comportamento comum e se reafirma. Mesmo sendo uma mulher mais velha em busca do amor no Chile, ela é incomum quando nos mostra suas decisões e desventuras, controlando seu próprio destino. Ainda assim, se mostra uma mulher sensível e apaixonada pela filha, como pode ser visto na cena do aeroporto.
Para os brasileiros, fica fácil identificar, em cenas distintas, duas músicas nacionais famosas: "Águas de Março", de Tom Jobim, cantada numa roda de amigos (em português mesmo) e “Lança perfume”, de Rita Lee, que surge em um clube para solteiros. O diretor Sebastián Lelio comentou que a música de Tom Jobim serviu de forte inspiração para a história, ambos combinam prazeres e dores de uma forma agradável e podemos, com uma certa atenção, perceber isso durante o filme.
Produzido por Pablo Larraín, diretor de “No”, filme excelente que representou o Chile no Oscar de 2013, o filme mostra que ter 60 anos não significa o fim da vida produtiva ou emocional. Gloria captou isso e controlou seu próprio destino, vivendo intensamente cada momento. Ela merece, inclusive, uma canção com o seu nome, a música "Gloria", escrita e interpretada por Umberto Tozzi, mais uma na trilha sonora do filme.

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Fontes: