Apresentação

Como cheguei aqui

Sempre gostei de indicar filmes e compartilhar informações, sensações e opinião pessoal sobre eles. A atividade cinematográfica é uma das minhas paixões. Optei aqui por indicar 3 filmes por mês, manifestando a minha opinião como um simples espectador, compartilhando algumas informações sobre os filmes selecionados. Espero que o resultado seja agradável para quem visitar.

Enquanto for interessante, estarei por aqui...


Cinema Paradiso (Itália/França, 1988)

quarta-feira, 20 de abril de 2016

O homem que engarrafava nuvens (Brasil, 2009)

Eu indico
O homem que engarrafava nuvens (Brasil, 2009)

A história do baião através da ascensão e queda de um de seus maiores expoentes, o letrista e compositor Humberto Teixeira, conhecido como o "doutor do baião". Responsável por clássicos como "Asa Branca" e "Adeus Maria Fulô", Teixeira atingiu o estrelato nos anos 50 mas acabou quase esquecido. Na década seguinte, com o surgimento da bossa nova, o baião quase caiu na obscuridade. Dirigido por Lírio Ferreira.

Baião:
O baião é um gênero musical e também uma dança, surgido e popularizado a partir da região Nordeste do Brasil, que utiliza os seguintes instrumentos musicais: viola caipira, triângulo, flauta doce e acordeão (também chamado de sanfona). A temática das músicas é o cotidiano dos sertanejos e a canção "Asa Branca" é a mais famosa, que fala do sofrimento do sertanejo em função da seca nordestina. Essa canção foi escrita por Humberto Teixeira e a história deste homem, vamos conhecer neste belíssimo documentário.
Na década de 1940 o baião tornou-se popular, através de Luiz Gonzaga (conhecido como o “rei do baião”) e Humberto Teixeira (“o doutor do baião”), abrindo caminho para outros artistas, servindo de inspiração até hoje. Raul Seixas misturou o rock com o baião em suas músicas. Gilberto Gil e Caetano Veloso também se apossaram deste gênero, entre outros, e assim o baião perpassa nossas raízes musicais. Podemos até citar figuras como David Byrne (músico e compositor norte-americano nascido na Escócia) e a atriz Silvana Mangano, que interpretou uma cantora de cabaré no filme Anna (1951, de Alberto Lattuada), onde o baião aparece. O caso de David Byrne é ainda mais interessante, pois ele tocava músicas de Luiz Gonzaga ao violão para entreter os colegas entre os shows. De alguma forma chegou a ele uma tradução para o inglês de “Asa Branca”, feita com a ajuda de um dicionário. Isso fez com que ele fosse convidado a gravar com a Forró in the Dark, banda brasileira que se apresenta em Nova York. Podemos conferir a semelhança entre os timbres vocais de David Byrne e Luiz Gonzaga. Essa e outras situações podem ser vistas neste documentário nacional.
A premissa é simples: mostrar a história de vida de Humberto Teixeira, partindo de sua filha, a atriz Denise Dummont, que vai em busca de conhecer o pai falecido. De muitos talentos e controvertida personalidade, ele foi compositor, advogado, deputado federal e criador das leis e direitos autorais. Grande parceiro de Luiz Gonzaga (vemos no filme um vídeo onde os dois estão conversando), Humberto Teixeira escreveu boa parte das músicas do rei do baião, inclusive “Asa Branca”. Sem eles, o baião poderia não ter o alcance que hoje tem no Brasil e no mundo. O filme é uma forma de entretenimento, cultura e poesia, ao reconhecer a história de Humberto Teixeira, junto com uma grande homenagem ao baião e dando um sentido a este gênero que representou orgulho e resistência dos nordestinos.
Documentários têm muitas vantagens, uma delas é apresentar ao mundo grandes nomes, que poderiam ficar praticamente desconhecidos se não fosse por isso. E este aqui mostra essa bela história de vida de Humberto Teixeira, pessoa que deve ser lembrada. Afinal, muitas pessoas sabem quem é o "rei do baião", mas não sabem quem é o "doutor do baião". Um outro exemplo é o documentário Procurando Sugar Man (2012, de Malik Bendjelloul) que mostra a incrível história do cantor Sixto Rodriguez, que tentou a sorte na cidade de Detroit nos anos 70.
Algumas passagens do filme contam também com Gilberto Gil, Lenine, Belchior, Elba Ramalho, entre outros, com direto a depoimentos e muita música boa. Recebeu grandes prêmios nacionais, 5 deles foram no Cine Ceará.

Humberto Teixeira e Luis Gonzaga
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Fontes:

terça-feira, 19 de abril de 2016

Para Minha Amada Morta (Brasil, 2016)

Eu indico
Para Minha Amada Morta (Brasil, 2016)

Após a morte de sua esposa, o fotógrafo Fernando (Fernando Alves Pinto) torna-se um homem calado e introspectivo. Ele vive cercado de objetos pessoais da falecida até descobrir, em uma fita VHS, uma surpresa que coloca em dúvida o amor da esposa por ele. A partir de então Fernando decide investigar a verdade por trás destas imagens, desenvolvendo uma obsessão que consome seus dias e sua rotina. Dirigido por Aly Muritiba.

O luto e a liberdade:
Eu realmente fico feliz quando vejo um filme nacional de qualidade. A experiência com este filme foi ainda mais gratificante pelo fato de ter participado da estreia com a presença do diretor Aly Muritiba, que ao final da sessão fez um bate papo com as pessoas que ficaram na sala. Saber motivações, dificuldades, inspirações e até a própria visão do diretor sobre a sua obra foi bem legal. Além do mais, a compreensão sobre o filme é maior já que ele respondeu a algumas perguntas do público sobre as cenas.
O filme é estruturado em dois grandes momentos. O primeiro é o do luto: fechado, claustrofóbico, sem vida, rotineiro e sem expectativas de melhoria. Cores escuras e ambientes fechados marcam esses momentos; já no segundo, engatilhado quando o personagem assiste a uma fita em VHS na qual a falecida esposa aparece, é mais vibrante, tenso, dinâmico e, ao mesmo tempo, varia entre a agonia e a libertação do personagem. Não dá para explicar muito sem contar passagens do filme, mas é bom ficar atento para essas diferenças, que vão se sobrepondo em alguns momentos. Cenários mais abertos e com mais cores acompanham os momentos que expliquei da segunda parte. Aqui, então, farei comentários sem contar as cenas e deixarei o expectador mais livre para suas interpretações.
Baseado na premissa acima, nos resta contemplar o enredo. As cenas podem ser arrastadas para alguns expectadores, mas assim mesmo necessárias para serem realistas. Algumas tomadas de cena são longas, mas precisavam ser para passar sua melhor compreensão. Como o próprio diretor disse, tem que dar o tempo e o silêncio necessário para o espectador respirar, perceber o ambiente e compreender a cena.
O personagem está sofrido, pois se encontra em luto pela sua amada esposa. Ele lava e estende as roupas da amada, assiste vídeos dos dois, observa fotografias, organiza objetos pessoais dela. Seria uma rotina triste e longa se não fosse um fato que ele presencia ao assistir a um vídeo que ele não conhecia. Por conta disso, ele sai dessa inércia e vai atrás de mais informações sobre o que viu. A partir daí o filme toma novas proporções e chega a se aproximar de um triller. A fotografia ajuda, principalmente em cenas que nos sugerem que nosso personagem vai tomar uma ação violenta. A pá na mão parece que será usada. Sabemos que a arma de fogo está guardada e pode ser usada. A cena sobre o telhado coloca um personagem em posição de desvantagem em relação ao outro. Dar as costas ao seu inimigo sem saber quem é ele de fato. Enfim, os personagens Fernando e Salvador, em suas atuações, nos passam todo o necessário em cenas repletas de possibilidades que permite ao diretor manejá-las a ponto de manter a tensão e a dúvida.
Essa resistência ao impulso, raiz de todo autocontrole emocional, é tão bem colocada no filme que não temos como sentir na pele o que o personagem passa. E o melhor é que suas intenções não ficam claras e isso nos gera o suspense. As cenas são sugestivas e tendenciosas, mas acabam nos enganando e surpreendendo em muitos momentos. A partir disso vem a transformação, da perda de interesse por coisas novas, quando está em seu luto reflexivo, até o ponto de se perceber como uma pessoa útil de novo, seja com as novas pessoas que conhece em sua empreitada, seja com o seu próprio filho amado; enfim, o personagem se transforma e se liberta. Vai da melancolia até a liberdade, com uma temática forte de vingança. Mas, de forma original, a violência eminente vai sendo eliminada muitas vezes, a cada cena, para nos mostrar que ela não é o caminho.
O filme também serve para desconstruir essa questão do olho por olho, dente por dente, de que a vingança é um forma de justiça, pois muitas vezes não conhecemos o lado do outro, da pessoa intitulado como “o culpado”. É interessante que, como espectadores, temos uma posição privilegiada em relação a esse culpado, pois acompanhamos a trajetória do ponto de vista do Fernando. E o “culpado” se chama Salvador, um nome sugestivo para este suposto antagonista.

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Fontes:

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Ressurreição (EUA, 2016)

Eu indico
Risen (EUA, 2016)

Às vésperas de um levante em Jerusalém, surgem rumores de que o Messias judeu ressuscitou. Um centurião romano agnóstico e cético (Joseph Fiennes) é enviado por Pôncio Pilatos para investigar a ressurreição e localizar o corpo desaparecido do já falecido e crucificado Jesus de Nazaré, a fim de subjulgar a revolta eminente. Conforme ele apura os fatos e ouve depoimentos, suas dúvidas sobre o evento milagroso começam a sumir. Dirigido por John Huston.

A Ressurreição de Jesus:
Lançado recentemente nos cinemas, este é um filme focado em algumas das passagens mais importantes da Bíblia Sagrada, que trata da ressurreição de Jesus Cristo, mostrado as suas aparições após a crucificação. O filme parte do evento da crucificação do nazareno e a trama vai se desdobrar sobre os acontecimentos que ocorrem após isso.
Um incrédulo, Clavius, interpretado por Joseph Fiennes, é o chamado tribuno de Pilatos, um soldado romano encarregado de encontrar o corpo do nazareno, que sumiu após completar 3 dias de falecido. Esse “encontro” de um homem comum com Jesus é abordado de uma forma que agrada, quanto mais por se tratar de um homem que está do lado romano com o salvador que estava supostamente morto. Acompanhamos o ponto de vista do tribuno, pois ele é o personagem principal; seus questionamentos, dilema, e sua bela transformação ocorrem ao longo do filme. Segundo Mickey Liddell, um dos produtores, “Ele não está procurando o corpo de Cristo para seguir sua agenda política ou religiosa. Ele está só seguindo ordens”. As cenas das aparições de Jesus após sua suporta morte são bem parecidas com o descrito na Bíblia, sendo este mais um ponto forte do filme.
Clavius é uma representação fiel da conversão do homem. Ao longo de sua jornada, ele não se conforma em não encontrar o corpo, se surpreende com o comportamento dos apóstolos e testemunhas de que Jesus de fato ressuscitou. O ator Joseph Fiennes, protagonista de Sheakspeare Apaixonado (1998), interpreta o tribuno.
A relação e encontro dos homens com Cristo (Novo Testamento) e com o Deus do Antigo Testamento ocorre muitas vezes na Bíblia e foi tratada em grandes filmes como Jesus de Nazaré de Franco Zefirelli (1977) e Os Dez Mandamentos (1956), de Cecil B. DeMille. Dois grandes diretores e dois grandes filmes. Cuidado para não confundir com Os Dez Mandamentos “da rede record” que eu nem me arrisco a assistir. Abaixo a resenha de um deles:
Particularmente não gosto de filmes católicos, evangélicos, cristãos, espíritas ou o que seja, que procuram forçar a barra para uma crença específica sem respeitar as diversas opiniões e nos evita a pensar de forma mais abrangente, como é o exemplo do filme Deus “Não” Está Morto, que já tem uma continuação nos cinemas, assim como outros títulos que assisti e não me recordo do nome. Mas este filme atende ao que se propôs, já que respeita as narrações da Bíblia e possui bons diálogos e um ponto de vista diferente. Vai agradar com certeza a quem acredita no Deus da Bíblia e na ressurreição de Jesus Cristo como salvador, mas também deve agradar aos céticos e outros que, no mínimo, podem substituir a leitura bíblica pelo filme, já que normalmente não há predisposição para ler a mesma.

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Fontes:

sexta-feira, 18 de março de 2016

[ESPECIAL] Top 10 filmes lançados em 2015

Essa é a minha lista dos melhores filmes lançados em 2015:

01 – Star Wars - O Despertar da Força (EUA)
A energia dos fãs numa sala de cinema na estreia deste filme foi contagiante. O episódio 7 da saga é como uma retomada dos três filmes antigos (os episódios 4, 5 e 6) com toda aquela atmosfera que eles passaram e junto com os efeitos especiais fantásticos de hoje em dia. Dirigido por J.J. Abrams.
Nota IMDb: 8,4

02 – Filho de Saul (Hungria)
Vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro e do Globo de Ouro, posso confirmar que os prêmios foram justíssimos. Fotografia ousada e grande poder de imersão, fazendo qualquer um sentir na pele tudo o que se passa na trama. Durante a Segunda Guerra Mundial, Saul Ausländer (Géza Röhrig) é um dos prisioneiros do campo de extermínio de Auschwitz. Saul é responsável pela cremação dos corpos dos outros judeus e, em meio à tensão do momento e às dificuldades inerentes desta tarefa, ele reconhece entre os mortos o corpo de seu próprio filho. Dirigido por László Nemes. Resenha abaixo:
Nota IMDb: 7,9

03 – Corrente do Mal (It Follows) (EUA)
O melhor terror do ano consegue assustar, deixar o espectador tenso e também deixar uma grande reflexão sobre questões que os jovens enfrentam na vida. Com algumas coisas nas entrelinhas, repleto de metáforas e num clima de terror clássico, o filme não chegou a conquistar grande público, mas foi bem reconhecido em festivais importantes, como no Festival de Cannes. Dirigido por David Robert Mitchell. Mais detalhes na resenha abaixo:
Nota IMDb: 6,9

04 – O Menino e o Mundo (Brasil)
Nossa animação recebeu o mais importante prêmio das animações, o Annie Awards, além de mais de 40 prêmios internacionais. A técnica da animação usou desenho com giz de cera e caneta sobre o papel e passa a impressão de que está sendo desenhada por uma criança que vai amadurecendo. A história parte de um simples garoto que vai do campo para a cidade em busca do pai. Consegue retratar bastantes aspectos do povo brasileiro. Dirigido por Alê Abreu.
Nota IMDb: 7,7

05 - A festa de despedida (Mita Tova) (Israel)
Este filme israelense lida com um assunto controverso e polêmico, a eutanásia, mas com uma boa dose de humor que o torna leve e divertido. Um elenco de velhinhos carismáticos que se metem em situações complicadas por causa de uma boa intenção. Fica como a melhor comédia dramática do ano. Dirigido por Tal Granit e Sharon Maymon. Mais detalhes na resenha abaixo:
Nota IMDb: 7,1

06 – Deus Branco (Feher Isten) (Hungria)
Uma revolta organizada de cães mestiços contra os seus opressores humanos é a proposta deste grande filme que dispensou efeitos especiais e domesticou todos os cães para as cenas. Dirigido por Kornél Mundruczó. Resenha no link abaixo:
Nota IMDb: 6,9

07 – A Bruxa (EUA / Canadá)
Mais um terror de arte, este filme está surpreendendo a todos. Vencedor de melhor direção (Robert Eggers) no Festival de Sundance, o filme tem muito suspense e diálogos grandiosos, é forte pelas cenas e pela atmosfera que uma família religiosa vive diante da luta contra o pecado e a busca da salvação pela fé. Coisas sem explicação começam a acontecer ao redor da família, animais com comportamentos estranhos, colheitas prejudicadas e sumiço de crianças.
Nota IMDb: 7,4

08 - O Regresso
O filme que deu a Leonardo DiCaprio o seu Oscar tão aguardado é um filme forte, cruel e com muito significado. Entre destaques está a relação homem e natureza, instinto de sobrevivência e respeito por ela. Dirigido por Alejandro González Iñárritu que recebeu o Oscar de melhor diretor por este. Dizem que ele dirige através da fotografia e o filme também recebeu a estatueta por melhor direção de fotografia (Emmanuel Lubezki).
Nota IMDb: 8,2

09 - Mad Max: Estrada da Fúria
Completando com louvor a série Mad Max, nas mãos de seu único diretor e criador George Miller, 30 anos depois do último filme, temos um grande filme de ação, cheio de efeitos visuais e com uma perseguição insana. Além disso, o filme mostra um mundo pós apocalíptico e lida com algumas questões de forma inteligente.
Nota IMDb: 8,1

10 – Goodnight Mommy (Ich seh, Ich seh) (Áustria)
Mais um filme de horror original, com um final surpreendente e angustiante. Também tem uma mensagem a ser passada e uma certa carga dramática. Foi a aposta da Áustria para o seu representante no Oscar 2016 de Melhor Filme Estrangeiro, mas acabou não sendo eleito. Dirigido por Severin Fiala e Veronika Franz. Mais detalhes na resenha abaixo:
Nota IMDb: 6,7

A ideia era escolher os 10 mais, então tive que deixar algumas boas opções de fora, como O Clã, Divertidamente, Chappie, No Coração do Mar, O Novíssimo Testamento, Labirinto de Mentiras, Deadpool, entre outros.

E que venham os filmes de 2016...

Filho de Saul (Hungria, 2015)

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Saul Fia (Hungria, 2015)

Durante a Segunda Guerra Mundial, num campo de concentração de Auschwitz, Saul (Géza Röhrig) é um judeu obrigado a trabalhar para os nazistas, sendo um dos responsáveis em limpar as câmaras de gás após dezenas de outros judeus serem mortos. Em meio à tensão do momento e às dificuldades inerentes desta tarefa, ele reconhece entre os mortos o corpo de seu próprio filho. Dirigido por László Nemes.

Eu sou um sonderkommando! - SPOILER
Basta ler a premissa na sinopse acima para entendermos que se trata de um filme forte. A temática gira em torno de toda essa perseguição e extermínio que os judeus sofreram, ou seja, é bem comum nos cinemas, que já nos ajudou a entendê-la o suficiente através de filmes inesquecíveis. Então, essa produção húngara poderia ter sido só mais um caso a passar despercebido, mas na verdade é mais um caso a deixar uma marca; a começar pelas suas premiações, incluindo o Oscar e Golden Globe de melhor filme em língua estrangeira. Premiação em si, muitas vezes, não é condição para um filme ser excelente. A questão aqui é que o filme é realmente muito bom e, também, original em um certo aspecto.
A originalidade foi a maneira como o diretor escolheu contar essa história, além de um final no qual o inesperado e coerente coexistem. O recurso de filmagem ou fotografia conta essa história de uma forma diferente, focando, na maior parte do tempo, uma proximidade visual no personagem Saul. Chegamos a acompanhar por muitos minutos a câmera na cola dele, como se estivéssemos o seguindo como curiosos sobre o que ele vai fazer. Com isso, nossa percepção de todo o horror ao seu redor fica a cargo dos sons e imagens que nossos olhos alcançam de forma limitada, pois estamos muito próximos do personagem. A excelente mixagem e edição de som colaboram para passar essa sensação. Gritos, tiros e explosões, falas incompreendíveis, barulho de chamas acesas, passos, etc. Ouvimos e compreendemos, mesmo não enxergando tudo. Como já vimos em grandes filmes de terror, como Invocação do Mal (2013, de James Wan), o poder da sugestão causa mais medo e horror do que uma cena explícita ou um susto forçado.
Também foi acertada a ideia de não utilizar trilha sonora. Só nos resta imaginar o horror ao estarmos praticamente imersos no filme. Essa forma chega a incomodar, mas esse é o objetivo mesmo. Pessoas já reclamaram que se sentiram naqueles jogos de videogame de survival horror, tipo os de zumbi onde estamos quase em primeira pessoa. Com a tela neste filme mais quadrada, a sensação aumenta, mas não é como o filme Mommy (2014, de Xavier Dolan) que nos dá uma folga em algumas cenas. Aqui, você tem que sentir mesmo o ambiente que não dá folga para nenhum dos personagens judeus.
Saul é um personagem que tinha tudo para representar todo o desespero de um judeu num campo de concentração nazista, onde a morte é tão comum que, até diante do corpo sem vida de seu filho, ele age a princípio com certa normalidade e frieza. Mas aqui aparece outro aspecto interessante e é onde tenho que avisar que começarão os spoilers...
O filme dá alguns indícios de que o garoto pode não ser filho de Saul. E é aí que essa frieza é usada de forma fantástica na trama, pois Saul se apega então a um desconhecido, como se adotasse aquele filho na hora, e resolve a todo custo dar um enterro decente, nos moldes judeus, com rabino e tudo, para um semelhante. Essa é sua forma de se humanizar e deixar de ser só mais uma pessoa sem esperança de que aquilo é o fim (como ele mesmo disse: “já estamos todos mortos”).
Chega a ser agonizante acompanhar as peripécias de Saul para tentar concretizar esse enterro. Passa a ser um processo complicado no meio de um cenário mais complicado ainda. Com tantos obstáculos no meio daquele furacão, em vários momentos ele fica em situações extremas e ainda coloca os companheiros no meio, só para cumprir sua meta de enterrar o filho. Além disso, ele está forçadamente trabalhando para os Alemães num grupo denominado sonderkommandos, que eram os prisioneiros judeus designados para trabalhar como assistentes nos campos de concentração nazistas, inclusive encaminhando outros judeus para a câmara de gás e depois tendo que limpar tudo. No início do filme houve a preocupação de definir esse grupo, inclusive explicando que eles são designados até o dia em que forem exterminados, como todo o resto. Até por viverem ao lado dos Alemães, certa frieza toma conta dos sonderkommandos tão acostumados com as mortes ao redor.
Ao final, em meio a uma cena bem tensa e realista de uma resistência dos judeus, aparece um garoto e Saul sorri, como se naquele momento ele justificasse seu empenho em enterrar o filho e ficasse satisfeito, nos últimos segundos de sua vida nesta terra, pela grande intenção e ação. O garoto que aparece pode nos confundir, mas acredito que os fatos impedem de acharmos que seria espírito de seu filho, a começar pelo fato de que o garoto é diferente do outro fisicamente; além disso, ele se esbarra com um soldado. No final das contas, o garoto é mais uma vítima da guerra, obrigado a levar os soldados alemães até o esconderijo dos judeus, após ter visto eles passando por perto. Mas isso não importa, Saul o vê e sorri, feliz consigo mesmo em ter encontrado sua humanidade em um dos piores lugares possíveis e quase sem esperança.

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Fontes:

quinta-feira, 10 de março de 2016

Deus Branco (Hungria, 2014)

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Feher Isten (Hungria, 2014)

O filme mostra a história do cão de raça mista Hagen que se muda, junto com sua guardiã Lili e o pai dela. O pai recusa-se a pagar a multa do cão "híbrido", imposta pelo governo e acaba por abandonar o cão. O cachorro Hagen logo atrai um grande número de seguidores mestiços que começam uma revolta aparentemente organizada, contra os seus opressores humanos. Dirigido por Kornél Mundruczó.

Gods and Dogs:
Mais de 200 cães representam os figurantes desse filme que faz uma bela crítica social e política, com um certo apelo contra o tratamento cruel dado aos animais. Hagen é o chefe da matilha, nosso principal personagem, que vive em Budapeste, capital da Hungria. O filme começa com uma cena impactante, onde uma garota numa bicicleta é perseguida por cães. Nada de filme leve, com cachorros fofos, para famílias que gostam de Sessão da Tarde. Este aqui é um filme forte e maduro.
A garota do filme tem um nome que normalmente é atribuído a animais (Lili). Já o cachorro (Hagen) possui um nome mais comum a humanos. Outra coisa curiosa é que “dog” (cão em inglês), quando escrito ao contrário, fica “god” (deus), e o título do filme é “Deus Branco”, uma referência ao ser humano que cada vez mais se coloca como superior e abusa desse falso poder. A revolta, revolução, feita pelos cães no filme, é sensacional, bem construída ao longo do longa, na medida que vamos acompanhando os percalços que o cão principal, Hagen, vai passando. Ele é um cachorro proibido pela sociedade por ser mestiço. Dessa forma, vemos cenas chocantes, brutalidade e uma crítica a coisas que serem humanos também já viveram bastante, e ainda vivem, diante do preconceito e da xenofobia.
O diretor húngaro Kornel Mundruczó usou dois labradores gêmeos, Luke e Body, para o papel de Hagen. Muitos cães precisaram ser bem treinados, já que não se utilizaram recursos de computação gráfica para as cenas. Como dito pelo diretor: “Foi uma experiência terapêutica. O filme é uma bela prova da cooperação singular entre duas espécies”. Ele também complementa que os cachorros vieram da Sociedade Protetora dos Animais e, ao concluir o filme, todos foram adotados.
A menina Lili tem um papel importante, já que ela realmente ama o seu cão e consegue acalmar os animais, ao tocar o seu trompete numa versão de "O Flautista de Hamelin", conto folclórico que foi readaptado pelos Irmãos Grimm e que narra um desastre incomum acontecido na cidade de Hamelin, Alemanha, em 26 de junho de 1284.
O filme foi inspirado no romance “Desonra”, apresentado nos teatros em 2012, do sul-africano J. M. Coetzee. Ganhou prêmio no festival de Cannes e mostrou ousadia com bom resultado, ao descartar a computação gráfica e utilizar animais adestrados, dando uma reinventada em filmes com animais, especialmente cachorros, e ainda beneficiando a eles, já que pelo visto a produção do filme incentivou a adoção dos animais.

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Fontes:
https://pt.wikipedia.org/wiki/O_Flautista_de_Hamelin

sexta-feira, 4 de março de 2016

Uma Aventura na África (The African Queen, 1951)

Eu indico
The African Queen (Reino Unido / EUA, 1951)

Em 1914, no início da Primeira Guerra Mundial na África, o aventureiro Canadense Charlie Allnut (Humphrey Bogart), dono de um pequeno barco chamado Rainha Africana, é convencido pela inglesa Rose Sayer (Katharine Hepburn) a descer com seu barco o Rio Congo cheio de corredeiras e outros perigos. E o pior ainda, destruírem um navio Alemão situado em um ponto estratégico do antigo Congo Belga. Dirigido por John Huston.

A rainha africana:
Como costume, os condutores de barco dão nomes à sua embarcação. African Queen é um velho e precário barco a motor e seu dono, um simples homem sem muitas ambições na vida. Interpretado por Humphrey Bogart, ator que encarou vários personagens de filmes noir e papéis de gangster, mas que aqui mostrou a sua melhor interpretação, vencendo o Oscar de melhor ator. Curioso o seu admirável desempenho neste papel de um homem mais simplório, já que o ator se acostumou a papéis de homem mais intimidador, de valores questionáveis, dominador, traíra, amargo e cínico, como podemos conferir em Casablanca (1942), O Tesouro da África (Beat the Devil, 1953) e o noir À Beira do Abismo (The Big Sleep, 1946). Enfim, em um papel de um homem bom, amargurado, humilde e carismático, ele se revelou.
Seu personagem, apesar das características supracitadas, mostra uma maturidade resultante de uma boa experiência de vida. Inicialmente deprimido e solitário, recorrendo a bebida, acaba sendo transformado em um novo homem, graças ao poder da presença feminina representada por Katharine Hepburn. A mulher dignifica o homem. Através dela ele ganha coragem para enfrentar os perigos no meio de uma selva, no meio de uma guerra. Na verdade, ambos acabam beneficiados por esta convivência.
Essa parceria com Katharine Hepburn foi muito acertada. Acaba que, os três (homem, mulher e barco) vivem de fato uma bela aventura na África, focada na relação entre o casal, que entram em conflito inicialmente, pela diferença de classes e de pensamento, mas que vão acabar se conquistando e aprendendo alguns valores um com o outro, como coragem e companheirismo. Aproveitando a fórmula, o filme acaba sendo também uma história de amor, com seus momentos de comédia e aventura que, na direção de John Huston e interpretação de nossos protagonistas, não tem como ser ruim. Personagens que vão conquistando pela empatia, de forma única já que Bogart e Hepburn são ícones de glamour e grandeza do cinema que, aqui, são dois desajustados e aventureiros que vão passar por situações difíceis e até cômicas.
Rodado no antigo Congo Belga, hoje República Democrática do Congo, e no Lago Alberta em Uganda, os atores sofreram com as condições da natureza. Katharine Hepburn chegou e escrever um livro sobre os perigos, doenças e situações difíceis que a equipe como um todo enfrentou. Mesmo assim, valeu o resultado pela fotografia bela dessa paisagem natural da selva africana, fotografia de Jack Cardiff. O roteiro foi adaptado pelo próprio diretor John Huston, junto com James Agee (escritor americano), a partir do livro homônimo de C. S. Forester.

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Fontes: