Apresentação

Como cheguei aqui

Sempre gostei de indicar filmes e compartilhar informações, sensações e opinião pessoal sobre eles. A atividade cinematográfica é uma das minhas paixões. Optei aqui por indicar 3 filmes por mês, manifestando a minha opinião como um simples espectador, compartilhando algumas informações sobre os filmes selecionados. Espero que o resultado seja agradável para quem visitar.

Enquanto for interessante, estarei por aqui...


Cinema Paradiso (Itália/França, 1988)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

A Janela Secreta (“Secret Window”)

Eu indico
A Janela Secreta (EUA, 2004)

Mort Rainey (Johnny Depp) é um escritor em crise, que acaba de se separar de sua esposa (Maria Bello) após tê-la flagrado com outro homem. Mort decide se isolar em uma cabana à beira do lago Tashmore, em busca de tranquilidade. Porém lá aparece John Shooter (John Turturro), que começa a atormentá-lo ao acusá-lo seguidamente de plágio.

Algumas janelas não deveriam nunca ser abertas:
O escritor americano Stephen King é um dos autores de horror mais populares no mundo e muitas de suas histórias foram adaptadas para o cinema e televisão. Particularmente um dos melhores resultados foi um dos meus filmes favoritos: Um Sonho de Liberdade (“The Shawshank Redemption”, EUA, 1994), uma adaptação para as telas do conto “Rita Hayworth e a Redenção de Shawshank”. A postagem deste filme vai ficar para um outro momento.
Aqui indico o filme “A Janela Secreta”, uma adaptação do conto “Janela Secreta, Jardim Secreto”, publicado em 1990 no livro “Depois da Meia-Noite” (Four Past Midnight). O diretor e roteirista David Koepp traz à tona um grande medo dos escritores - o qual Stephen King já explorou em muitas de suas histórias - o bloqueio criativo. Inclusive, costuma mexer com a situação de que o escritor aparece como um personagem de uma de suas histórias. Johnny Depp encara muito bem o papel principal (personagem com seus cabelos grandes, bagunçados, e que dorme horas no sofá de sua casa isolada e à beira de um lago), ajudando bastante no resultado e na tensão do filme, e também ficando bem acompanhado pela interpretação de John Turturro, que faz um tipo de caipira que aparece na vida de Mort acusando-o de ter plagiado uma de suas histórias. Envolvido num jogo mental de gato e rato, Rainey descobre ter mais astúcia e determinação do que jamais imaginou. E aos poucos vai percebendo que o evasivo Shooter talvez o conheça melhor do que ele próprio.
O filme é bem misterioso, um suspense psicológico, com vários detalhes não tão simples de perceber (levantei as informações no spoiler abaixo). O diretor David Koepp entrega um resultado bacana, com movimentos de câmera interessantes. Temos um final diferente do conto, mas que achei mais agradável, mas não menos sinistro.

Janela Secreta, Jardim Secreto – SPOILER:
Algumas curiosidades tanto do conto, quanto do filme:
- Um dos jogos legais acontece no início do filme, quando a câmera entra pelo espelho e vai até o personagem principal. É como se toda a história se passasse através de um espelho e isto seria a visão distorcida da realidade de Mort Rainey. A verdadeira “Janela Secreta” não é aquela da parede da casa e sim o espelho por onde assistimos todo o filme;
- Sobre o nome John Shooter: shooter soa como “shoot her” (atire nela) e é uma representação do desejo de Mort em relação à sua ex-mulher;
- Na cena em que o personagem de Johnny Depp empurra o veículo para dentro de um lago, o seu relógio fica dentro do veículo, abrindo assim uma margem para que ele seja identificado. Seria uma ponte para uma possível continuação do filme?
- No final do conto um policial encontra um papel no lixo, com um recado de John Shooter para Mort, deixando-nos realmente na dúvida se o cara era real ou uma imaginação do protagonista;
- No final sinistro, o escritor mata a ex-mulher e seu amante, enterrando os corpos mutilados no jardim, onde existe um milharal. À medida que come os milhos cozidos, vai se livrando dos restos dos corpos;
- A fala de Johnny Depp: "This is not my beautiful house. This is not my beautiful wife. Anymore" (Esta não é mais minha linda casa, esta não é mais minha linda esposa), é tirada da canção "Once in a Lifetime", dos Talking Heads;
- Quando Depp está olhando para o espelho, podemos ouvi-lo sussurrar: "When Sister Veronica found out about the windows she withdrew the school from the competition" (Quando a Irmã Verônica descobriu sobre as janelas, ela desqualificou a escola da competição). Esta é uma fala do primeiro sonho de Rosemary Woodhouse em “O Bebê de Rosemary”, filme de 1968;
- Mort olhando para o espelho e vendo suas próprias costas é uma referência à pintura do artista surrealista belga René Magritte, "La Reproduction Interdite" (A Reprodução Proibida). Ele constantemente pintava um homem misterioso com um chapéu coco, não muito diferente do que o Shooter usa;
- O nome do personagem de Johnny Depp é Morton Rainey. No fim do filme, o personagem compra três coisas na loja de conveniência. Um dos itens é uma caixa de sal da marca MORTON cujo slogan é: "Quando chove (chover em inglês é "Rain"), cai." Dessa forma, Morton (marca do sal) e Rainey (variação de “Rain”);
- Quando o personagem de Depp joga o chapéu na mesa, uma cópia do livro "Rum: Diário de um Jornalista Bêbado" (The Rum Diary) é visível na mesa. Johnny Depp fez mais recentemente o papel de Paul Kemp, no filme “Diário de um Jornalista Bêbado” (2010);
- Na cena que Johnny Depp flagra Maria Bello e Timothy Hutton num Motel, David Koepp queria que Bello e Hutton parecessem chocados e amedrontados de verdade. Ele os fez ficar deitados por 15 minutos, antes que Depp entrasse. A equipe de produção colocou grandes alto-falantes que soaram barulhos estáticos e as luzes no quarto também foram programadas para acender quando Depp abrisse a porta, assustando os atores ainda mais. Ninguém sabia exatamente como agir;

“Eu sei que consegui – disse Todd Downey, pegando outra espiga de milho da tigela fumegante. – eu lhe garanto que com o tempo qualquer vestígio dela desaparecerá, e a morte dela será um mistério... até para mim.”
 “A melhor parte de uma historia é o seu final.”
Mort Rainey.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Fruto Proibido (“Kielletty hedelmä”)

Eu indico
Fruto Proibido (Finlândia, 2009)

Duas meninas de 18 anos de uma comunidade cristã fundamentalista fogem a uma cidade para o trabalho de verão. Maria quer experimentar o mundo antes de voltar para casa e se casar com um rapaz da mesma comunidade. Sua amiga, Raakel, é menos aventureira e só quer ter certeza de que Maria vai voltar. O verão de tentações pode mudar a vida das meninas para sempre.

Lembra da primeira vez que você fez algo proibido?
Dirigido por Dome Karukoski, este interessante filme finlandês recebeu 4 prêmios no festival de cinema internacional Festroia (prêmio Golfinho Dourado). Outro filme do mesmo diretor também foi premiado no mesmo festival, "A Casa das Borboletas Negras", e recebeu também 4 prêmios. Este último ganhou um prêmio na categoria de "Homem e a Natureza".
O laestadianismo é um movimento conservador cristão que entre outras coisas não permite métodos contraceptivos e liberdades sexuais antes do casamento. O filme “Fruto Proibido” conta a história de duas jovens que fazem parte desta vertente ultra conservadora do luteranismo, que decidem experimentar a vida em Helsínquia (capital da República da Finlândia). Maria (Amanda Pilke, que recebeu o prêmio de melhor atriz principal) quer experimentar coisas que estão proibidas em sua comunidade, como sair com meninos, assistir TV, ouvir e dançar qualquer tipo de música, beber álcool e usar maquiagem. Raakel acaba sendo convencida pelas autoridades religiosas da comunidade a ir atrás da amiga e tentar fazer com que ela retorne.
O filme mostra um assunto polêmico: como as comunidades ultra-conservadoras podem afetar e limitar as pessoas. As meninas vivem um choque de realidades quando passam a conhecer a vida lá fora, na cidade grande. A partir daí podemos perceber a importância da evolução pessoal em choque com a alienação proveniente do fundamentalismo cristão. Algumas pessoas podem se identificar e pensar em sua própria vida, o que você mesmo faria em uma situação parecida, e isso pode mexer com os sentimentos.
Usando a frase do pôster do filme: "Lembra da primeira vez que você fez algo proibido?" e tendo cenas com closes no olhar, mãos e até lábios, mostrando a expectativa e receio do beijo, o sorriso resultante da alegria e a cara de surpresa, boa ou ruim, o diretor aproveita e trabalha o lado emotivo das meninas, já que elas passam a viver emoções íntimas e novas, e com isso vemos a importância da mudança, de experimentar o novo e poder decidir por conta própria o que é melhor para si. A religião pode fazer parte da vida de cada um, mas a liberdade de viver experiências é essencial e transformadora, desde que exista responsabilidade e respeito pelo próximo e por si mesmo.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O que terá acontecido a Baby Jane?

Eu indico
What Ever Happened to Baby Jane? (EUA, 1962)

Bette Davis é Jane Hudson, uma artista que alcançou a fama quando menina e ficou conhecida como "Baby Jane". Agora envelhecida e distante do público há muitos anos, vive encerrada em uma mansão com sua irmã, Blanche Hudson (Joan Crawford) desde um acidente que selou a sorte de ambas, terminando a carreira brilhante de Blanche e acelerando a decadência geral de Jane. Disposta a brilhar nos palcos novamente, Jane volta à Baby Jane, passando por cima de tudo e de todos para atingir seu objetivo.

Mas o que houve?:
Um filme que começa com uma pergunta. O que teria acontecido para a estrela mirim Baby Jane crescer e se tornar amargurada e aparentemente maléfica? Na interpretação espetacular de Bette Davis, estamos diante de um filme que me prendeu a atenção, com boas cenas de suspense e certa agonia, que me recordaram um pouco o filme Louca Obsessão (“Misery”, EUA, 1990), mais um bom suspense com excelente interpretação de Kathy Bates (uma de minhas atrizes favoritas).
O diretor Robert Aldrich reproduziu com competência toda a atmosfera do “calvário” de Blanche sob a guarda de sua irmã insana, Jane. Desde criança, Jane mostrara-se mimada e incapaz de lidar com decepções, rejeições e de ser coadjuvante naquela família. Quando mais velha, embriagada, Jane atropela Blanche e a coloca em uma cadeira de rodas acabando definitivamente com seus sonhos de estrelato no cinema. Talvez pelo sentimento de culpa, ou por falta de opções, ela cuida e envelhece junto com a irmã. Só que Jane acaba caindo em decadência no estrelato e, talvez por isso, dedica seus dias a atormentar a indefesa irmã aprisionada no segundo andar (irmã esta que ainda é bem lembrada pelos fãs). Apesar de ser difícil deixar de julgar negativamente a insana Jane, não sabemos se seu comportamento é conseqüência de sua decadência como atriz, de sua velhice e os problemas mentais que vem com isso, de sua amargura por ter que cuidar da irmã ou até por pura maldade. Bette Davis abraça a personalidade de Jane mais velha, arrastando propositadamente os pés no assoalho e irritando com a sua estridente risada, mas não necessariamente provoca ódio no espectador, pois em alguns momentos podemos sentir até pena da mesma.
As atuações de Bette Davis e Joan Crawford são elementos fundamentais para sustentar a narrativa, sem deixar de mencionar a atuação de Victor Buono como o pianista fracassado Edwin (indicado ao Oscar como ator coadjuvante). Interessante que as duas atrizes, famosas também por serem grandes inimigas nos bastidores, neste filme duelam nas telas (tanto em atuação em si, quanto no fato de encarnar personagens que brigam entre si).
Joan Crawford, por outro lado, no pele de Blanche, está presa e obrigada a reagir com pavor às ofensas da irmã e quase implorando piedade. Disto, sente-se a dor de Blanche não pelo sofrimento e olheiras fundas, mas pelas ações desproporcionais de Jane. Um filme que surpreende, até porque não necessariamente as coisas são o que parecem. Afinal, o que terá acontecido a Baby Jane?

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Argo

Eu indico
Argo (EUA, 2012)

Baseado em fatos reais, acompanha uma operação secreta para resgatar seis americanos, ocorrida nos bastidores da crise no Irã. A história de Argo se passa em novembro de 1979, quando a revolução iraniana atinge seu ápice e militantes surpreendem a embaixada dos EUA em Teerã, fazendo 52 reféns americanos. Mas, no meio do caos, seis americanos conseguem escapar e encontrar refúgio na casa do embaixador canadense. Sabendo que é apenas uma questão de tempo até os seis serem encontrados e provavelmente mortos, Tony Mendez (Ben Affleck), um especialista em fugas da CIA, sugere um plano arriscado para retirá-los do país em segurança. Um plano tão incrível que só poderia acontecer nos filmes.

Argo, fuck yourself:
Em tempos de “Amanhecer - Parte 2”, da saga Crepúsculo, e todo o “exagero jovem” sobre este, podemos acabar cometendo a falha de não assistir a alguns filmes interessantes, como este dirigido e protagonizado por Ben Affleck. Apesar de uma carreira não tão bem sucedida como ator, este tem evidenciado uma boa carreira na direção. Estreou dirigindo Medo da Verdade (“Gone Baby Gone”, EUA, 2007), um excelente filme que tem seu irmão como protagonista (Casey Affleck), e depois dirigiu e protagonizou Atração Perigosa (2010). Também escreveu o roteiro dos dois filmes.
Neste terceiro filme como diretor, onde mais uma vez assina o roteiro, Aflleck explora um dos momentos mais surpreendentes já vividos na CIA e também do cinema. Em 1979, durante a chamada Crise de Reféns no Irã, as massas furiosas invadiram a embaixada dos EUA, fazendo 54 prisioneiros. Seis funcionários, porém, conseguiram escapar, refugiando-se na casa do embaixador canadense em Teerã. A CIA, então, bola um plano inusitado de extradição desses funcionários, encabeçado pelo agente secreto Tony Mendez (interpretado por Affleck). O plano consistiu na criação de um filme falso, que seria uma boa desculpa para fazer com que os funcionários se passassem por uma equipe de produção cinematográfica que estaria viajando pelo Irã para filmar lugares exóticos em busca de locações, para um filme de ficção que não passava de uma imitação de Star Wars. Mesmo assim, um plano bem arriscado, considerando que o Irã era um país em crise política. As comunicações dependiam do telefone fixo e não existia toda a tecnologia de hoje para ajudar a CIA, o que explica a falta de opções e a aprovação dessa operação. O filme de ficção recebeu o título de “Argo”, e realmente circulava nos corredores de Hollywood na época.
Affleck tomou essa responsabilidade para si, de contar essa história verídica, assim como o personagem principal, bem interpretado por ele mesmo, assume uma arriscada responsabilidade por aqueles 6 americanos (uma frase do personagem em momento de decisão: “Quando as coisas acontecem, é porque alguém assumiu a responsabilidade”). De forma madura, ele aproveita para dosar o filme com cenas divertidas, apoiado muito bem pelos atores Alan Arkin (no papel do produtor Lester Siegel) e John Goodman (no papel do lendário maquiador John Chambers, da série Planeta dos Macacos). Também não podemos deixar de notar o excelente Bryan Cranston, mesmo que mais uma vez em papel secundário, fazendo o chefe de Mendez.
Existe uma crítica sobre a indústria cinematográfica, e algumas vezes é exibido o famoso monumento letreiro “Hollywood”, que na época se encontrava caindo aos pedaços. Para manter esse clima do mundo do cinema, alguns atores famosos são citados no filme, tais como Warren Beatty, Rock Hudson e John Wayne. Mesmo com essas doses de comédia, é na construção de tensão que Affleck se prova mais uma vez capaz como diretor. A cada momento em que parece que o filme vai ficar cômico demais, somos trazidos novamente para o foco da situação no Irã. Tudo é feito com calma e realismo, para que nos momentos finais o espectador fique bem nervoso com a tensão causada pela situação.
Muito bom o cuidado com a reconstrução dos eventos. O uso de cenas documentais em contraste com as que foram criadas para o filme, inclusive fotografias reais ao lado de fotos de cenas do filme, deixam uma boa impressão da maturidade da direção e produção. Recomendo aguardar um pouco, após o término do filme, para ver as imagens, inclusive fotos e gravação dos protagonistas reais.

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Fontes:

http://planocritico.ne10.uol.com.br/Cinema-review/critica-argo/
http://omelete.uol.com.br/argo-ben-affleck/cinema/argo-critica/

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Diário de um Jornalista Bêbado (“The Rum Diary”)

Eu indico
Diário de um Jornalista Bêbado (EUA, 2011)

Paul Kemp (Depp) é um jornalista itinerante, que cansa de Nova York e viaja para Porto Rico, para escrever para um jornal. Kemp tem o hábito de beber rum e fica obcecado pela bela Chenault (Heard), que está noiva de um empresário local.

Jornalismo e rum:
Hunter S. Thompson foi um jornalista e escritor norte-americano, tendo como segunda obra “Diário de um Jornalista Bêbado”. H. S. Thompson suicidou-se com um tiro de espingarda na cabeça em 20 de fevereiro de 2005. Ele deixou um bilhete em que se mostrava deprimido e sofrendo de terríveis dores após uma cirurgia na região da bacia. Seu corpo foi cremado e as cinzas foram lançadas ao céu por um pequeno foguete, em uma cerimônia bancada pelo próprio Johnny Depp, seu amigo e que também interpretou o personagem Raoul Duke na versão para o cinema de seu livro mais famoso: Medo e Delírio em Las Vegas (“Fear and Loathing in Las Vegas”, 1998).
O filme é dirigido por Bruce Robinson e conta com Johnny Depp interpretando o jornalista itinerante Paul Kemp que, cansado das convenções morais de uma América conservadora, viaja à bela ilha de Porto Rico, para trabalhar em um decadente jornal local, o "The San Juan Star", administrado pelo tirânico Lotterman (Richard Jenkins). De cara o jornal não passa uma boa impressão e não cumpre o seu papel de forma ética, pois quando Kemp chega para se apresentar a Lotterman, está havendo uma manifestação de trabalhadores na porta da empresa e Lotterman nem faz questão de saber do que se trata.
Adotando o ritmo calmo do lugar, regado a muito rum, Paul começa a se apaixonar por Chenault (Amber Heard), noiva de Sanderson (Aaron Eckhart), um dos maiores empresários da cidade, que planeja converter Porto Rico num paraíso do capitalismo. Ele tenta usar o jornalista para escrever a favor dos seus negócios. Com o poder da palavra, Paul deve encarar o seu dilema: beneficiar os empresários corruptos ou denunciá-los. O filme mostra o significado do que deve ser o verdadeiro jornalista, uma pessoa com a responsabilidade de ir atrás da verdade e até mais além, de contra a corrupção e injustiça, compartilhando a verdade e fazendo a notícia chegar aos leitores.
Vemos em algumas cenas as belas paisagens do Caribe, e em outras a parte feia de Porto Rico, o que é interessante pois traz essa realidade contraditória para o filme, e já entra na questão principal que é o dilema do jornalista em aproveitar a oportunidade e se entregar à corrupção (e ele experimenta um pouco desta corrupção) ou fazer a coisa certa, que a ética de sua profissão pede. Após um tempo o jornalista acaba tendo que alugar e dividir um apartamento bem decadente, onde convive com dois personagens interessantes e que, junto com Deep, trazem uma boa dose de comédia para o filme. A sinergia dos 3 atores ficou muito boa, até porque é difícil contracenar com Depp e ter um certo destaque, principalmente porque ele está no seu tipo de papel (imagine um jornalista errante, num local desconhecido para ele, e que anda quase o tempo todo bebendo rum e se metendo em confusões). Os dois personagens citados são interpretados pelos atores Giovanni Ribisi (que faz o papel do alucinado Moberg e é um ator que eu já gostava) e Michael Rispoli (interpreta Bob Sala). Existem algumas cenas bem divertidas envolvendo estes personagens, puxando o filme para o lado da comédia, de forma bem agradável.

Aqui algumas frases de peso que extraí do filme:

“Você sente o cheiro? É o cheiro de bastardos. É também o cheiro da verdade. Sinto o cheiro de tinta.”

“Eu quero fazer uma promessa para você, leitor. E eu não sei se eu posso cumpri-la amanhã, ou até mesmo no dia depois disso. Mas eu coloquei os bastardos deste mundo em alerta. Que eu não tenho os melhores interesses no coração. Vou tentar falar para o meu leitor. Essa é a minha promessa. E será uma voz feita de tinta e raiva.”

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Fontes:
http://omelete.uol.com.br/rum-diary-diario-de-um-jornalista-bebado/cinema/diario-de-um-jornalista-bebado-critica/
http://www.guiadasemana.com.br/cinema/filmes/sinopse/diario-de-um-jornalista-bebado
http://pt.wikipedia.org/wiki/Hunter_S._Thompson

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Coraline e o Mundo Secreto (“Coraline”)

Eu indico
Coraline (EUA, 2008)

O filme conta a história de Coraline Jones, uma menina que se muda com sua família para uma enorme casa. Entediada, a garota descobre uma porta secreta que dá para outra dimensão, bastante similar a sua, só que tudo aparenta ser melhor. Porém, Caroline logo descobre que há algo de errado com seus pais alternativos.

Dois mundos:
Bonecas de pano com botões costurados no lugar dos olhos, circo de camundongos, gato preto, vizinhos estranhos e portas que levam para outro mundo são algumas características dessa animação em stop-motion, dirigida por Henry Selick. No stop-motion, criam-se bonecos e coisas tangíveis que são fotografadas, de tal forma que o filme é projetado com no mínimo 24 fotogramas por segundo.
O roteiro foi baseado na obra "Coraline", de Neil Gaiman, lançada em 2002. Este autor, também conhecido pela série Sandman, tem em boa parte de suas histórias uma influência de contos de fada, com boas doses de suspense, deixando a coisa meio arrepiante. No caso de Coraline, existe uma variação entre o mundo real e este outro que ela descobre, dando à animação uma série de simbolismos, resultando num interessante drama familiar, carregado de suspense e aventura. O universo infantil fica bem retratado com essa possibilidade de uma outra família, mostrando como muitas crianças estão insatisfeitas com a sua própria, desejando outros tipos de pais, que possam sempre adivinhar e atender às suas vontades. Desta vez a animação está bem direcionada aos adultos, principalmente pelo clima que a história tem. Os botões nos olhos de cada personagem não só trazem um simbolismo, mas também criam um clima aterrorizante.
Como característica nas obras de Neil Gaiman, há uma preocupação importante com os detalhes, como por exemplo no comportamento dos pais de Coraline: a mãe vive mal humorada, mas percebe-se que ela sustenta a casa enquanto o pai vive o sonho de realização profissional (ela usa um laptop na sala, ele um computador ultrapassado no quarto, e uma das poucas vezes que a família está junta é na hora do jantar). Com os pais sempre ocupados, a insatisfação reflete na vida da filha, que também está com saudade de seus amigos (repare no porta-retrato), e assim ela fica encantada com a boa recepção do outro lado da porta secreta, e resolve explorar este novo mundo. Outro detalhe é que a casa nova é chamada de “castelo rosa”, sendo que no outro mundo acaba se tornando uma espécie de castelo dos horrores.
Outros personagens colaboram com a trama, como o estranho Wybie, que ganha a antipatia imediata de Coraline (facilmente pensamos mal de alguém que cruza nosso caminho). Os animais são interessantes e divertidos, como o gato preto e os cachorros das duas velhinhas - que já foram atrizes, assim como os camundongos do “grande” Bobinsky, um treinador de circo falido e sonhador. A princípio, podemos ser levados a pensar que são pessoas excêntricas demais, porém com o aprofundar da trama, criamos uma simpatia para com eles, que transbordam solidão e toda uma tristeza, nos remetendo à realidade de muita gente. Ninguém escolhe os vizinhos que vai ter, porém todos podemos conviver bem, todos somos humanos, falhos, e precisamos ou um dia precisaremos de afeto e da paciência dos outros.
Neil Gaiman afirmou que sua motivação ao escrever o livro era “expressar que, certas vezes, as pessoas que nos amam podem não nos dar toda a atenção que precisamos, e certas vezes aqueles que nos dão toda a atenção necessária podem não nos amar de maneira saudável”. Coraline, após viver aquele sonho que se transforma em pesadelo, percebe que as pessoas que aparentemente não eram tão encantadoras, eram as que a estavam protegendo, e que de fato, a amavam. 

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Fontes:

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

[ESPECIAL] 1 ano de blog


Neste mês de outubro de 2012 o meu blog faz 1 ano. Fico contente em ter cumprido a meta pessoal de postar 3 filmes por mês, não somente indicando, mas também pesquisando bastante para fazer uma postagem com conteúdo, incluindo - da forma mais clara que consegui - a minha visão sobre cada filme. Como pode-se perceber, avalio com duas categorias: filmes que gostei (recebem o selo da mãozinha “Eu Indico”) e filmes que gostei demais (recebe o selo da taça “Favoritos”). É um trabalho gratificante.

Tive a oportunidade de assistir ao filme "La vida útil - Um conto de cinema" (Uruguai, 2010), em uma de minhas salas de cinema preferidas (o Cine Vivo, no Shopping Paseo Itaigara). Dirigido por Federico Veiroj, o filme mostra um empregado da Cinemateca de Montevideo que se vê obrigado a reajustar sua vida depois de 25 anos trabalhando no lugar. Me chamou atenção uma cena onde o diretor da Cinemateca, em uma entrevista de rádio, faz um discurso sobre a formação do espectador. Acredito que ver  a esta cena foi o meu presente de 1 ano de blog e, reproduzo aqui, toda a fala do personagem Martínez:

“Vejamos... as pessoas acreditam que, quem sabe de cinema, é alguém que é capaz de recitar de memória a carreira, a trajetória de um ator, um diretor, um produtor. Se confunde nesses casos a erudição, o dicionário com os conteúdos. É provável que sim, que seja importante saber a trajetória dos grandes autores cinematográficos, mas não como um exercício de memória... ou de dados supérfluos. Essa é a primeira coisa que, me parece, há que distinguir. O cinema não é uma coleção de figurinhas, não é uma coleção de dados. O dado tende a ocultar a realidade. O dado é, em definitivo, consolidar, cristalizar uma informação e nada mais. É mais difícil de compreender como se produz o enriquecimento do espectador. Produz-se com certeza através do acesso e do assistir a obras cinematográficas, obras criativas. Mas como se explicam as ressonâncias sobre um espectador? Não sei como chamá-lo... se um espectador formado (não creio que seja esse exatamente o termo)... um espectador alerta... e sensível. Sei lá... Vejamos então "Alexander Nevsky", filme de Sergei Eisenstein com música de Sergei Prokofiev: o que há aí é um exercício que aparentemente é frio e formal, onde as tomadas não têm movimento de câmera e parece haver movimento, e onde há seis ou sete linhas melódicas, que correspondem à música de Shostakovich, de Prokofiev, e a relação entre a composição de cada imagem, a tal ponto que, se sobrepormos a partitura e os movimentos da partitura e as imagens alinhadas, uma atrás da outra, o movimento das imagens são coincidentes. Isto para que? Isto para explicar como e porque se constitui o sentido esmagador que tem toda essa sequência sobre o espectador. Está explicado aí. Mas quando entram os pífanos, por exemplo, aí o que há é uma relação de quem são os que estão nesse momento ocupando a imagem e a atenção do espectador. Sublinham e elevam essa atenção. Tudo isso não é perceptível a uma primeira vista, como não é perceptível a uma primeira vista toda a estrutura do "Cidadão Kane", de Orson Welles. Tampouco é erudição tudo isso, senão simplesmente chamar a atenção sobre certas coisas que são a estrutura e a forma da própria obra cinematográfica, como há em um romance, em uma obra plástica, em uma composição musical. Basicamente é isso. Ou seja, um filme não é o contar um argumento, não é o argumento senão o que ele motiva. Determinadas expressões cinematográficas que são as que, em definitivo, comovem ou não ao espectador.”

sábado, 20 de outubro de 2012

O Campeão de Hitler (“Max Schmeling”)

Eu indico
O Campeão de Hitler (Alemanha / Croácia, 2010)

A história real sobre o boxeador alemão Max Schmeling, tendo um dos focos principais a sua luta contra o norte-americano Joe Louis durante a Segunda Guerra Mundial - confronto considerado um dos maiores de todos os tempos na história do boxe.

Campeão de boxe e herói de guerra:
Inspirado pela história real do boxeador alemão Max Schmeling, o cineasta Uwe Boll dirige um filme que conta a vida de um herói verdadeiro em tempos de guerra. Um bom filme sob dois aspectos: boxe e guerra. Max Schmeling (Henry Maske) foi um alemão que se tornou um boxeador famoso, por ter um ótimo histórico de vitórias, muita fama e por ter casado com a bela atriz tcheca Anny Ondra (Suzanne Wuest). Em 1936, época de tensão entre a sociedade ocidental e os ideais nazistas, o foco mundial era a guerra, mas para Max Schmeling era o boxe. Sua fama coincidiu com a época da ascensão de Hitler ao poder, e com isto uma luta de boxe que deveria ser algo puramente profissional, acaba gerando demasiada atenção tanto para a Alemanha, quanto para os EUA; uma luta clássica entre Max e o norte-americano Joe Louis, que acaba naturalmente colocando em jogo o orgulho dos dois países. Para a Alemanha (para Hitler), seria uma humilhação o seu campeão ser derrotado por um boxeador americano e, ainda por cima, negro. A situação fica tensa para o espectador, considerando que acompanhamos o ponto de vista do campeão alemão, e ainda por cima o americano Joe Louis encontra-se num ótimo momento de sua carreira, com seguidas vitórias por nocaute.
Max Schmeling foi contrário à causa de Hitler, e ainda por cima não abandonou seu empresário e amigo judeu, Joe Jacobs. Vemos o conflito pessoal e o peso da responsabilidade por ser considerado um “símbolo” e ser forçado a cooperar com o líder do país para melhorar a imagem da Alemanha perante o resto do mundo. Seguimos a jornada deste campeão, não somente pelas vitórias (até porque ele sofre suas derrotas), mas também por mostrar sua honra e respeito pelos oponentes, sua fidelidade à esposa (mesmo criticado por ela ser tcheca e, não, uma alemã) e ao amigo judeu, sua coragem e fibra (cito aqui uma frase dita por ele para a esposa, quando descobrem que ele foi convocado para a guerra: “Calma, Anny. Eu nunca fugi de nada. E não vou começar agora”). Além de participar da guerra, como um castigo da Alemanha por conta de uma de suas derrotas e de sua compaixão pelos judeus, vemos mais uma demonstração de seu caráter quando tem piedade de seu oponente, e acaba sendo admirado por ele. Em sua jornada, acaba aproveitando sua fama de boxeador campeão e salva muitas vidas em seu país, principalmente de judeus, onde decidiu ficar e lutar contra o regime.
Achei interessante uma técnica usada repetidas vezes no filme, que consistiu em exibir filmagens reais da guerra na Alemanha, que aos poucos se transformam em início de cenas no filme. No final, achei as informações bem ricas e detalhadas, sobre o destino dos vários personagens, na vida real. Max Schmeling encerrou sua carreira com um total de 70 lutas, 56 vitórias, 40 vitórias por nocaute, 10 derrotas e 4 empates.

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Fontes:
http://www.ultracine.com.br/filme/o-campeao-de-hitler
http://pt.wikipedia.org/wiki/Max_Schmeling

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Fantasia

Eu indico
Fantasia (EUA, 1940)

Inspirado por músicas clássicas de geniais compositores como Bach, Schubert, Tchaikovski, Stravinski,  Ponchielli e Beethoven, entre outros, e regida pela Orquestra de Filadélfia, sob a batuta de Leopold Stokowski, a Walt Disney criou oito episódios em desenho animado para compor o filme Fantasia.

Orquestra em forma de animação:
Imagine o encontro da música clássica com a animação. Produzido pela Walt Disney Pictures em 1940, Fantasia é seu terceiro filme de animação e consiste de oito segmentos animados acompanhados, cada um, de músicas clássicas conduzidas pelo maestro Leopold Stokowski, sete deles apresentados pela Orquestra de Filadélfia. Forma bacana de tentar tornar a música clássica comum a todos.
Como se já não bastasse simplesmente ouvir músicas maravilhosas, também podemos assistir a curtas animados que acompanham cada música, tendo uma estreita relação com o significado de cada uma delas, além da sincronia do som com as imagens. O compositor musical e crítico americano Deems Taylor introduz cada episódio, nos trazendo informações sobre o que cada músico queria passar. Em um deles, por exemplo, temos a reconstituição da pré-história, com dinossauros dominando o planeta e sucumbindo a um único inimigo capaz de vencê-los: a própria natureza. Em outro, temos a divertida situação de um aprendiz de feiticeiro (Mickey Mouse) que desencadeia uma situação onde não consegue mais retomar o controle.
Considerando a época em que foi feito (anos 40), os episódios possuem um alto padrão de qualidade em imagem e som. O resultado é quase que uma homenagem à trilha sonora, como se esta fosse um personagem. Um marco do cinema de animação.
Fantasia também é um dos mais sombrios filmes já produzidos pela Disney, já que explora o nudismo, a violência e a morte nos "curtas" do longa. A música FantasMic, do álbum Wishmaster, da banda finlandesa Nightwish tem uma parte inspirada neste filme.
A trilha sonora de Fantasia foi gravada utilizando múltiplos canais de áudio e reproduzidos no sistema Fantasound, uma maneira pioneira de reprodução de som que fez do longa o primeiro filme comercial lançado com som estéreo. Isso obrigava que os cinemas tivessem um custo maior para exibir o longa, devido ao alto valor destes equipamentos. Esse fator, junto com o fechamento do mercado europeu devido à Segunda Guerra Mundial, fez com que o filme fosse um fracasso de bilheteria e quase levou a Walt Disney a falência.

Resumo de cada episódio - SPOILER:
- Tocata e Fuga em Ré Menor, BWV 565: de Johann Sebastian Bach; pela primeira vez, Disney e seus artistas se arriscaram no mundo da abstração e a equipe de efeitos especiais teve a chance de colocar todo o seu talento na tela;
- Suíte Quebra-Nozes: de Tchaikovsky; é o segmento onde os artistas tomaram um caminho diferente da tradicional história envolvendo brinquedos, fazendo sua própria interpretação da música e mostrando um número que simboliza as estações do ano, através de fadas aladas e outros elementos da natureza, como flores e peixes bailarinos, cogumelos chineses e cravos russos;
- O Aprendiz de Feiticeiro: de Paul Dukas; apresenta Mickey Mouse no papel do feiticeiro afobado que quer aprender seu ofício antes da hora. Para isso, ele rouba o chapéu mágico de seu mestre Yen-Sid (que é “Disney” escrito ao contrário) e dá vida a várias vassouras para encher o caldeirão de água e, como resultado de sua teimosia, cria algo que nem ele mesmo sabe controlar;
- Sagração da Primavera: de Igor Stravinsky (em relação às composições usadas no filme, este era o único músico vivo na época); é como uma explicação científica da evolução da vida na Terra, desde os primeiros seres microscópicos aos gigantescos dinossauros.
- Sinfonia Pastoral: de Beethoven; tem como cenário o Monte Olimpo e o elenco de personagens é composto de figuras fantasiosas como cavalos alados que cortam o céu, sátiros que saltam pelos campos, cupidos, centauros e suas namoradas. Este segmento do filme causou muita polêmica ao mostrar centauros e cupidos nus e também uma centaura negra;
- Dança das Horas: de Amilcare Ponchielli; apresenta uma sátira ao balé clássico e representa as horas do dia por um grupo de animais, como avestruzes, hipopótamos, elefantes e jacarés;
- Uma Noite no Monte Calvo: de Modest Mussorgsky; é ilustrado pelo demônio Chernabog que vive no alto de uma montanha, e que na noite de Halloween vem atormentar as almas de um vilarejo;
- Ave Maria: de Franz Schubert; o segmento apresenta uma procissão religiosa que segue até uma capela gótica.

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Fontes:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Fantasia_%28Disney%29
http://www.disneymania.com.br/fantasia-uma-historia/
http://www.65anosdecinema.pro.br/1587-FANTASIA_%281940%29

sábado, 6 de outubro de 2012

Dredd

Eu indico
Dredd (Reino Unido / Índia / EUA , 2012)

120 anos no futuro, Joe Dredd (Urban) é o mais temido da elite de juízes nas ruas de Mega City One, onde acumula os cargos de polícia, juiz, júri e executor (quando necessário). Dredd é o mais temido pelos bandidos e mais respeitado entre os juízes, que mantêm a ordem na megalópole Mega City One.

Policial, juiz, júri e executor  – “I am the law”:
O longa-metragem, dirigido por Pete Travis, é considerado bem fiel ao gibi Juiz Dredd, criado no Reino Unido por John Wagner e Carlos Ezquerra. O personagem apareceu pela primeira vez em 1977, na revista "2000 AD". O filme tem um clima pesado, cenários de um futurismo mais acabado, ruas não muito agradáveis e população pobre e entregue aos estragos da criminalidade e drogas. A fotografia ajuda neste sentido, deixando os cenários com cores interessantes, lembrando provavelmente os cenários da HQ. A censura de 18 anos para o filme faz jus à ultraviolência que já é uma forte característica do gibi. O personagem e seu estilo de lidar com as situações – com suas frases formadas - deixa uma forte marca e se confronta bem com as gangues de Mega City One (que nos quadrinhos espelhavam a variedade de bandos da juventude britânica nos anos 70 e 80), sem cair no erro de parecer imitação de outras obras.
O ator Karl Urban ficou muito bem no papel do juiz, mesmo considerando que nós espectadores enxergamos somente uma parte do rosto dele e nada mais (da ponta do nariz até o pescoço). Percebemos a personalidade forte do personagem, que em algumas cenas assusta por ter um autocontrole de dar inveja, quase parecendo não ser um humano. O que Dredd decide tem que ser assim e pronto, não há arrependimento, dúvida e nem erro, nem existe aflição antes de tomar uma decisão. Ele é curto e grosso, só fala o estritamente necessário para a situação e age sob seus princípios ferrenhos, embasados na rígida lei. Personagem bem interessante e que ficou bem destacado nessa adaptação. Provavelmente um filme para alegrar – e muito – os fãs. Tão bem trabalhado que, em uma das cenas onde Dredd sente dor, quase que não dá para acreditar, depois de termos nos acostumados com seu comportamento sem demonstrar reações esperadas mediante as situações. E fica evidente o empenho em manter suas atribuições perante a lei e a justiça, quando não aceita que outros juízes se vendam.
Algumas cenas de ação ficaram legais no sentido de estarmos vendo as coisas do ponto de vista dos bandidos (como na cena sob o efeito da droga Slo-Mo, central à trama do filme, que faz seus usuários enxergarem a realidade com uma fração da velocidade normal - por isso o nome "câmera lenta"). Muito interessante os diferentes tipos de arma que Dredd carrega o tempo todo, inclusive sua pistola que muda o tipo de munição (fogo, tiro silencioso, tiro perfurante...) mediante o comando de sua voz (a tecnologia do reconhecimento de voz) e a sua moto que possui uma gravação que é usada para orientar a população ao redor a fim de minimizar possíveis vítimas. Temos espaço também para personagens com poderes paranormais, tendo até uma cena de batalha mental. A maior parte da ação é fechada e praticamente em tempo real, num prédio sofisticado para batalha, que é uma espécie de favela vertical. Situação bem desvantajosa para os protagonistas, e mesmo assim Dredd mantém seu equilíbrio mental, inclusive seguindo a regra de testar a sua parceira novata; é interessante que vamos percebendo o contraste do comportamento do juiz em relação ao comportamento da novata (ela, inicialmente, hesita e fica um pouco nervosa com a situação toda, e ele se mantém controlado).
O que não dá pra negar é que Dredd, produção britânica de orçamento modesto e execução competente, foi fiel ao material original e passou a sua mensagem. No universo de Judge Dredd, a extrema violência presente na acabada cidade futurista Mega City One levou à criação dos Juízes. Num futuro caótico onde qualquer falha pode permitir que a criminalidade domine a cidade, o implacável juiz cumpre um papel fundamental, se sustentando nas suas habilidades de combate e no seu forte controle emocional.

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Fontes:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Juiz_Dredd
http://omelete.uol.com.br/comic-con/cinema/dredd-critica/

terça-feira, 25 de setembro de 2012

O Vingador do Futuro (“Total Recall”)

Eu indico
Total Recall (EUA, 1990 ou 2012?)

Para um operário de fábrica como Douglas Quaid, embora tenha uma bela e amada esposa, a viagem pela mente soa como as férias perfeitas de sua rotina frustrante - memórias reais de uma vida como super-espião podem ser o que ele realmente precisa. Mas quando uma operação dá errado, Quaid se torna um homem caçado. Perseguido pela polícia - controlada pelo Chanceler Cohaagen, líder do mundo livre - Quaid se alia a uma rebelde para encontrar o líder da resistência do submundo e derrotar Cohaagen. A linha entre a realidade e a fantasia se torna cada vez mais fina, e o equilíbrio de seu mundo está em risco, à medida que Quaid descobre sua identidade, seu amor e seu verdadeiro destino.

Comparação:
O diretor Len Wiseman viveu o grande desafio em dirigir um remake de um dos maiores filmes de ficção científica, O Vingador do Futuro (1990), que por sinal foi baseado no livro "We Can Remember It for You Wholesale", do escritor Phillip K. Dick. Talvez o ideal seja não tentar comparar ambos, e simplesmente aproveitar as grandes cenas de ação deste remake, algumas bem criativas e originais, assim como os efeitos visuais potentes, que são elementos importantes neste gênero.
O enredo é bacana, já aproveitando o do original. A ficção científica tenta projetar como será o futuro e daí os filmes do gênero aproveitam toda a criatividade que o ser humano pode ter. Neste caso, o filme se torna bem interessante pela abordagem dos sonhos, e da possibilidade de viver experiências através de memórias implantadas. O futuro do planeta passa a ser projetado com um certo pessimismo, já começando pela vida do personagem principal (seja Colin Farrell agora, ou Arnold Schwarzenegger no filme anterior) que pode parecer boa – a começar pela companhia de Sharon Stone ou Kate Beckinsale como esposa – mas mesmo assim, o protagonista sente que falta algo mais, falta algum sentido à sua vida. Apesar de toda tecnologia ao extremo, temos uma boa parte da população com uma qualidade de vida baixa. O filme provoca uma reflexão sobre a opressão, trazendo a necessidade de um movimento de resistência na busca pela liberdade. Neste filme de 2012, a Colônia sofre com a pobreza e a superpopulação, e ainda com a opressão da Federação, que obriga os trabalhadores da Colônia a usarem um meio de transporte chamado “A Queda” – uma espécie de elevador que cruza o centro da terra – todos os dias para sua jornada de trabalho. Daí este movimento de resistência que é formado pela Colônia com o objetivo de conseguir direitos iguais. O uso da Queda simboliza claramente essa questão da opressão e desigualdade, focando a disputa por territórios em um planeta devastado por uma guerra química. Mas na questão de enredo eu dou um valor maior ao filme original, principalmente pelos elementos alienígenas, com aqueles marcianos estranhos (mutantes e telepatas), que deu toda uma atmosfera psicodélica e foram usados no filme para demonstrar a questão de domínio sobre os mais fracos (a população marciana), já que o império monopoliza o ar necessário para a sobrevivência das criaturas.
Pelas cenas de ação, ambos possuem alguns créditos, mas neste ponto eu fico com o atual. Como exemplo, uma das primeiras cenas é uma perseguição alucinante, e temos uma tomada de câmera que vi pela primeira vez em games como Prince of Persia (2010), onde a câmera fica bem afastada dos personagens e vemos a ação como se tivéssemos em outro local, bem afastado, tendo assim também uma boa visão das áreas ao redor (que, neste caso, é uma favela do futuro). Além disso, cenas de ação com elevadores que também se deslocam na horizontal e cenas em ambiente com baixa gravidade ficaram bem originais e divertidas de assistir. No filme original, alguns destaques neste quesito são: a arma que permite criar um holograma de si mesmo e uma cena de ação numa máquina de raios x, onde vemos somente os esqueletos dos personagens em movimento.
Quanto aos atores, é difícil não escolher Schwarzenegger, ícone do cinema de ação, e que traz uma interpretação com um pouco de humor, já sendo grandalhão e trazendo o seu sotaque carregado e seu carisma. O Colin Farrell faz um papel mais focado, se mostrando aflito com a situação que passa, dando assim um maior realismo. Por um lado, prefiro que tenham sido mesmo bem diferentes, senão perderia a graça. Quanto aos demais, gostei mais da Kate Beckinsale representando uma personagem neurótica - e bem mais insana e experiente na briga - do que a Sharon Stone.
Acredito que exista um mérito no fato do remake ter sido diferente, mas mantendo também muitas referências ao original. Se fosse uma mera repetição, não surpreenderia aqueles que já conhecem o anterior.

Sutileza nas referências – SPOILER PARA OS DOIS FILMES:
Muitas referências são feitas ao filme original, aqui seguem alguns exemplos:
- A cena do “aeroporto” de Marte do antigo (o disfarce é diferente, mas o desenrolar da cena é igual);
- A famosa frase “2 semanas!” (o tempo dos implantes de memória da Rekall);
- A vontade do protagonista de ir à Marte;
- A "prostituta dos três peitos" do original foi mantida, talvez como uma homenagem aos fãs do filme de 1990;
- A forma do personagem concluir de que ele estava na realidade, e não num sonho projetado pela Rekall: no filme antigo, ele percebe o suor no rosto de outro personagem, enquanto neste novo ele vê a lágrima nos olhos de uma pessoa;
- Ambos os personagem se aproveitam de seu conhecimento, relativo à experiência profissional, para sair de situações de perigo em cenas de ação. No antigo, Schwarzenegger usa uma ferramenta, parecida com uma brocadeira, para perfurar um cano de combustível de uma máquina que iria esmagá-lo (detalhe que ele trabalhava perfurando pedras). Já Farrell ganha uma briga com um robô porque sabe como desmontar o circuito que o mantém funcionando. Interessante que essas experiências são da personalidade que foi implantada no personagem, antes dele se redescobrir sendo um agente.
Segue um vídeo que mostra algumas cenas de cada um dos filmes, ao mesmo tempo, como forma comparativa:

domingo, 16 de setembro de 2012

Willow - Na Terra da Magia (“Willow”)

Eu indico
Willow (EUA, 1988)

Willow Ufgood é um anão e aprendiz de mágico que conta com a ajuda de Madmartigan, um exímio espadachim, numa guerra contra feiticeiros e monstros. Juntos eles terão de vencer todos esses seres para salvar um bebê (que mais tarde será princesa) das mãos de uma terrível rainha, Bavmorda. Bavmorda usa de magia negra para controlar o reino e teme a criança, pois uma profecia diz que será o motivo de sua derrota.

Na Terra da Magia:
Dirigido por Ron Howard e roteirizado por George Lucas e Bob Dollman. Ver este filme nos dias de hoje dá uma sensação de nostalgia. Para quem não conhece, é uma boa oportunidade de ver um bom filme de aventura, apresentando uma terra mágica habitada por diferentes seres, tais como anões, feiticeiros, bruxas, fadas, criaturas pequeninas, trolls etc. Nada muito incomum, mas agrada pelas cenas de batalha e perseguição, com pitadas de comédia garantidas pela dupla de seres pequeninos e atrapalhados, mas que tentam ajudar a qualquer custo, sendo interpretados por Kevin Pollak e Rick Overton.
Tendo direito a monstro de duas cabeças, feitiços, batalha entre bruxas, lutas de espada, magias que fazem objetos ter vida, fuga na neve, etc., o filme é uma grande jornada e pode ter inspirado os produtores de O Senhor dos Anéis, assim como os produtores de O Hobbit, principalmente pelo início do filme, logo após retratar de forma interessante a aldeia dos anões, quando os pequeninos têm que fazer uma jornada para proteger a princesa (ainda bebê).
Um grande trabalho foi feito em relação aos efeitos visuais e som, rendendo duas indicações ao Oscar (Efeitos Especiais e Edição de Som). Também me chamou muita atenção a trilha de James Horner, com uma música bem agradável e que pode ficar na cabeça. Para quem se interessa, segue o link para ouvir:

Os protagonistas formam uma dupla incomum. Warwick Davis interpreta o anão Willow e Val Kilmer interpreta o guerreiro Madmartigan, este último garantindo as melhores cenas de ação. Entre altos e baixos eles acabam se unindo contra as forças malignas deste universo, conseguindo aliados pelo caminho, tendo assim muitos elementos dos jogos de RPG estilo medieval e fantasia.
Interessante ter um anão como protagonista. O ator Warwick Davis havia antes atuado no filme Star Wars Episódio VI: O Retorno de Jedi (1983), sendo ele um grande fã dos filmes de Star Wars. Ele interpretou um Wicket, por isso não chegamos ainda a ver o seu rosto nas telas... até que foi selecionado para Willow. Após este, novamente o ator apareceu em personagens onde não é tão fácil identificá-lo: retornou ao universo de Star Wars, jogando 3 papéis diferentes em Star Wars Episódio I, sendo um deles o Yoda em cenas onde Yoda estava andando. Fez o professor Filius Flitwick nos filmes de Harry Potter e estrelou a versão cinematográfica de O Guia do Mochileiro das Galáxias, como o "corpo" de Marvin the Paranoid Android (mesmo a voz do personagem ter sido fornecido por Alan Rickman, que também participou dos filmes Harry Potter, como Professor Snape). Sua altura favorece a escolha para estes tipos de papéis, mas claro que não podemos deixar de citá-lo como um bom ator.

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Fontes:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Warwick_Davis

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Super Nada

Eu indico
Super Nada (Brasil, 2012)

São Paulo. Guto (Marat Descartes) é um artista de rua e aspirante a ator que sonha em um dia ser reconhecido pelo seu trabalho. Dedicado, ele pratica, se prepara e participa de todas as audições que pode, na espera de que um dia a sorte chegue. Ele admira Zeca (Jair Rodrigues), um comediante que trabalha na TV e é idolatrado por muita gente, apesar de estar com a carreira decadente. Os dois se encontram por acaso. O que será que o destino reserva para eles?

O super e o nada, o ator e o personagem:
Como é dito pelo personagem Zeca: “Não tá fácil pra ninguém”, a realidade de muitos atores pode não ser o que a maioria pensa. Neste filme, o personagem principal Guto, luta para sobreviver em São Paulo, mesmo com seu talento para atuação, com foco na comédia, e de todos os seus esforços. Guto faz o que de fato gosta, ele é apaixonado pela arte, pela comédia. Seu quarto é cheio de posters de comediantes brasileiros, como o Golias e o Zeca (do programa Super Nada, inventado para a compor a narrativa). Sua vida não é fácil, ele chega a fazer bico atuando nas ruas, às vezes em sinais de trânsito e em teatros que não parecem bem valorizados.
Super Nada é um programa que mostra situações cômicas, estrelado pelo Zeca, surpreendentemente bem interpretado pelo Jair Rodrigues. Quando Guto é chamado para um teste do programa "Super Nada", ele enxerga uma pequena chance de mudar seu rumo e entra em estado de satisfação por poder participar de um programa do qual é grande fã. E a partir daí o encontro dos dois atores vai permear a trajetória do filme e trazer conseqüências inesperadas. Juntos numa atuação bem sinérgica, eles agradam ao espectador, ao mesmo tempo em que nos confunde, considerando que são atores interpretando atores, em alguns momentos precisam interpretar a improvisação, e como estamos do lado de cá da telona, não sabemos o quanto de fato houve improviso nas cenas e o quanto foi encenação do improviso... Fantástico.
O roteiro satiriza um pouco a decadência da comédia brasileira, quando vemos no programa Super Nada um monte de bordões e piadas sem sentido (e sem graça ou criatividade). Vemos o mundo dos pequenos artistas, às vezes numa condição marginal. A situação é retratada com realismo e criatividade. O melhor de tudo, como alguns críticos já disseram, é que passa todas essas idéias sem caminhar no sentido da expectativa do público. Surpreende. Reflete sobre a arte e o envelhecimento dos artistas, ao mesmo tempo em que mexe com o ego humano de cada um.
Super Nada foi exibido no segundo dia do 40º Festival de Cinema de Gramado, na categoria de longa-metragem nacional. A excelente atuação de Marat Descartes garantiu ao mesmo o prêmio de melhor ator. O diretor, Rubens Rewald, ao ser entrevistado no final do evento, informou que o ator conseguiu ser, ao mesmo tempo, o tudo e o nada no filme, ajudando fortemente no resultado da obra. No filme, percebemos inclusive como a influência de questões emocionais pode influir na atuação de um artista, em algumas cenas onde o Guto está em conflito e não consegue fazer uma boa interpretação de cena. E daí fica mais difícil impulsionar a carreira e dar algum sentido à sua vida, além de precisar se sustentar, tendo que ser obrigado a ter ajuda financeira da mãe, que também fica cuidando da filha do personagem. Ego, humilhação, humanidade, temos tudo isso no personagem muito bem interpretado pelo Marat. O próprio personagem se surpreende ao conhecer melhor o Zeca, o Super Nada (ator no estilo malandro suburbano que conquista pela espontaneidade), quando ouve do mesmo a autoavaliação realista de que trata-se de um ator velho, de um programa decadente e sem graça.

http://ultimosegundo.ig.com.br/cultura/cinema/2012-08-12/jair-rodrigues-rouba-a-cena-de-super-nada.html