Apresentação

Como cheguei aqui

Sempre gostei de indicar filmes e compartilhar informações, sensações e opinião pessoal sobre eles. A atividade cinematográfica é uma das minhas paixões. Optei aqui por indicar 3 filmes por mês, manifestando a minha opinião como um simples espectador, compartilhando algumas informações sobre os filmes selecionados. Espero que o resultado seja agradável para quem visitar.

Enquanto for interessante, estarei por aqui...


Cinema Paradiso (Itália/França, 1988)

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

O Atalante (França, 1934)

Eu indico
L'Atalante (França, 1934)

Jean (Jean Dasté), jovem capitão de uma barcaça a motor chamada de Atalante, casa-se com Juliette (Dita Parlo), filha de camponeses. Mal a cerimônia acaba e os dois vão viver embarcados, navegando pelos canais de Paris. Há uma crise entre os dois, Juliette foge para a vida noturna parisiense, e Jean mergulha numa profunda depressão causada pela ausência da amada. O velho lobo do mar Jules (Michel Simon), ajudante de Jean, percebe a situação e sai em busca de Juliette. Dirigido por Jean Vigo.

Atalante:
Apesar de ter vivido menos de 30 anos e dirigido poucos filmes, Jean Vigo é considerado um cineasta que pensava bem à frente do seu tempo. Dirigiu dois filmes que marcaram o cinema francês e mundial: Zero de conduta (Zéro de Conduite, 1933) e O Atalante (L'Atalante, 1934). Este último teve que passar por restaurações para ficar disponível nos dias de hoje. Desde sua criação em 1934, se submeteu a diversas mutilações e tentativas de restauração, e a versão resultante parece que ficou bem fiel à original.
Neste filme, podemos conferir uma grande realização do diretor, que sai da mesmice de romances clássicos para deixar sua marca: realismo, naturalidade. Na trama, um casal com uma forte ligação física, vão passar a lua-de-mel em um pequeno espaço (interior do barco denominado Atalante), já dando uma ideia de que uma relação pode acabar com a liberdade do outro. Logo a moça é seduzida pela cidade grande e acaba fugindo para descobrir os prazeres desta vida. Aqui temos a presença marcante do ator Michel Simon, como o père Jules que, junto com seu assistente, fará de tudo para encontrar a garota e restabelecer o relacionamento dos dois. Estes dois empregados que cuidam da embarcação, a princípio se mostram atrapalhados, como pode ser visto na recepção do casal no barco; porém, diante de uma situação séria, mostram seu bom coração e maturidade para ajudar o casal. O personagem Jules, além de bem interpretado, surpreende numa cena onde tira a camisa e mostra várias tatuagens exóticas no corpo, e seu quarto cheio de objetos diferenciados também mostra um pouco da sua personalidade, excentricidade e maturidade.
O ambiente um pouco sombrio do filme casa com a temática principal apresentada (o casamento), forma pela qual o diretor decidiu se expressar. A difícil situação econômica e social da década de 30 também é mostrada numa cena onde Juliette tem que encarar uma fila de desempregados nas ruas de Paris. Auxiliado pela fotografia de Boris Kaufman com seus tons de iluminação escura e nebulosa, ainda mais com o fato de ser um filme em preto e branco, culmina com a atmosfera da cidade grande, pessoas perdidas e desiludidas, sem rumo e sem opções.
A felicidade parece, a princípio, se resumir aos prazeres físicos e a abundância, assim Juliette tenta se desfazer da submissão do marido autoritário. Aceitar a realidade e libertar o outro depois de sentir o verdadeiro amor é cruel para Jean. Vemos um pouco disso numa cena que mistura fantasia e realidade, quando Juliette diz acreditar que o rosto da pessoa amada pode ser visto debaixo d’água, e posteriormente Jean enxerga Juliette embaixo d’água, tendo assim uma visão do diretor sobre o verdadeiro amor. Apesar da versão recuperada ter alguns problemas com o som, a trilha de Maurice Jaubert, compositor de Jean Vigo e Marcel Carné, mostra uma das primeiras tentativas bem sucedidas de usar efeitos sonoros além da música.

__________________________________
Fontes:

http://www.revistacinetica.com.br/oatalante.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Jean_Vigo#Filmografia

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

As Aventuras do Príncipe Achmed (Alemanha, 1926)

Eu indico
As Aventuras do Príncipe Achmed (Alemanha, 1926)

Um feiticeiro maligno engana o príncipe Achmed, convencendo-o a cavalgar em um cavalo alado. O príncipe percebe ser capaz de conduzir o cavalo e este o leva para diversas aventuras, até que acaba se apaixonando pela linda princesa Peri Banu. Dirigido por Lotte Reiniger.

Clássico das animações:
Parece um espetáculo teatral sem falas (é um filme mudo), mas com música, som e movimentos bem planejados. Praticamente cada cena só usa duas cores, tendo sempre o preto. Cenas com preto e laranja, preto e azul, etc, geram uma surrealidade bacana. Impressiona o jogo simples de luzes e sombras, um conceito surgido e popularizado na China, de onde são oriundas as famosas caixas de sombras. A diretora alemã Lotte Reiniger foi pioneira no uso da animação em sombras chinesas. As figuras do filme foram recortadas e manipuladas à luz de câmara pela realizadora.
A animação contém vários personagens, bem apresentados na introdução, com muita aventura, fantasia e romance. Até Aladim aparece como um dos personagens. Trata-se de uma adaptação dos conhecidos contos de “As Mil e Uma Noites”. Cada quadro é um espetáculo individual, usando a mudança de cores para indicar se estamos em um espaço interno ou externo, ou para aumentar o clímax e indicar a temperatura da cena. Figuras feitas de cartolina preta fazem movimentos complexos, desde dedos, boca, braços e corpo. A música de Wolfgang Zeller é uma sinfonia que acompanha bem os acontecimentos. A fotografia de Carl Koch (parceiro presente de Renoir) também maximiza o resultado da obra.
Logo no início do filme nos deparamos com a seguinte informação: “As aventuras do Principe Achmed foi lançada na Alemanha em 3 de setembro de 1926. Nem o negativo original, nem a copia do original da versão alemã existem mais. Esta reconstrução foi baseada em um fragmento de uma copia de nitrato com informação das legendas em inglês pelo arquivo nacional de filmes e televisão em Londres. Este foi recopiado e as informações da legenda original alemã foram inseridas de acordo com o cartão censor sobrevivente”.
Em 1908, o curta animado “Fantasmagorie”, de Émile Cohl, fascinou as plateias mostrando as possibilidades da animação. Trata-se de uma animação interessante que pode ser encontrada facilmente no youtube. O primeiro longa-metragem de animação foi o argentino “El Apóstol” (1917), dirigido por Quirino Cristiani. Infelizmente foi completamente perdido em um incêndio, em 1926. Depois veio “As Aventuras do Príncipe Achmed”, que então se torna o primeiro longa-metragem de animação acessível. Logo depois, em 1928, a Disney entra no jogo e lança a primeira animação onde aparece Mickey Mouse: “Steamboat Willie”, que por sinal o início desta animação é usado para apresentar a logomarca da Disney antes do início de alguns filmes com a produção desta.

__________________________________
Fontes:

Livro “Tudo Sobre Cinema”, editado por Philip Kemp e com o prefácio de Christopher Frayling

sábado, 14 de dezembro de 2013

Os Filhos da Meia-Noite (Midnight's Children, 2012)

Eu indico
Midnight's Children (Canadá / Reino Unido, 2012)

Em 15 de agosto de 1947, a Índia conquistou a sua independência. Neste exato momento, à meia-noite, nasceram duas crianças em uma maternidade. No entanto, uma enfermeira decidiu trocá-los: Saleem, filho indesejado de uma mãe pobre, foi criado no lugar de Shiva, o filho biológico de um casal rico. A história dos dois garotos será para sempre ligada ao destino político do país, principalmente quando a Índia entra em guerra, e eles se encontram em lados opostos na batalha. Dirigido por Deepa Mehta.

Índia:
O roteirista e narrador deste filme é o próprio Salman Rushdie, escritor do livro “Os filhos da meia-noite”, um romance de 1980 que venceu alguns prêmios importantes, como o de melhor livro publicado durante os primeiros 25 anos do mais importante prêmio literário britânico. A direção ficou por conta de Deepa Mehta, indiana radicada no Canadá, duas vezes indicada ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por "Terra" (1998) e "Água" (2005).
A história da Índia no século XX é mostrada através de uma saga rodeada de momentos fantásticos, seus eventos históricos significativos se misturam com a dramatização vivida pelos diferentes personagens e pelos momentos míticos que ressaltam a cultura indiana, e assim temos uma aula de conhecimentos sobre a história da Índia. Um visual deslumbrante e, provavelmente, realista, desde as grandes mansões, até as favelas.
O muçulmano Salim Sinai narra sua história desde 1919, antes até de seu nascimento (o que já dura quase meia hora de filme), mostrando a forma inusitada como seus avós e pais se conheceram e os eventos que levaram ao seu nascimento que, como se não bastasse, ocorreu em Bombaim à meia-noite de 15 de agosto de 1947, no instante em que a Índia se tornava uma nação independente. Acredita-se que todos os mil e um indianos nascidos entre a meia-noite de 15 de agosto e a uma hora da madrugada de 16 de agosto de 1947 desenvolveram poderes extraordinários. Eles são capazes de se encontrar mesmo estando em lugares diferentes e, a partir disso, a história toma rumos interessantes.
Giles Nuttgens fica a frente da fotografia do filme, o que parece ter feito toda a diferença, até porque foi filmado no Sri Lanka e envolveu mais de 600 lugares, e sua competência em apresentar as cenas bem posicionadas e o uso das cores foi comprovada. Junto com isso, a produção e direção de arte, inclusive trilha sonora, ajudam a enaltecer o exotismo da Índia. Não tem como não recordar, então, do maravilhoso “Passagem para a Índia” (1984), dirigido por David Lean, e que também conta a história da Índia e mostra o choque cultural entre estrangeiros e habitantes locais.
Com certas pitadas de humor que não chegam a tirar a seriedade do filme, assim como os momentos mágicos, os personagens dão uma lição de convivência, amor e laços verdadeiros; movidos pelo amor, quebram e superam barreiras e tradições de laços sanguíneos - quando pais assumem como filhos crianças que não são suas, assim como quando presenciamos o amor além da questão do sexo.

__________________________________
Fontes:

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Footloose (EUA, 1984 e 2011)

Eu indico
Footloose (EUA, 2011 e 1984)

Ren McCormick é um rapaz criado na cidade grande que se muda para uma cidade pequena do interior. Disposto a organizar um baile de formatura, Ren acaba descobrindo que dançar não é permitido na cidade. Apaixonado por música, Ren decide lutar pela restauração da dança na cidade e, em meio a isso, acaba conquistando o coração de Ariel Moore. Entretanto, Ariel é a filha do conservador reverendo Shaw Moore, responsável pelo banimento da dança na cidade, em virtude da morte de seu filho. A versão original (1984) foi dirigida por Herbert Ross e a versão de 2011 por Craig Brewer.

Ritmo louco em 1984 e em 2011:
No meio dos anos 80, um filme soube casar muito bem com a dança e a música, mesmo numa época onde os musicais já não tinham tanto valor. Só o nome “Footloose” pode encher o coração de muitos fãs, que lembram de Kevin Bacon no papel de Ren McCormick, este que lhe deu grande visibilidade e mostrou seu talento fantástico para a dança, e também para a dramatização. Vale lembrar que este ator, que chegou a participar do filme de terror “Sexta-feira 13” (1980), fez papéis posteriores de grande valor, tais como “Assassinato em Primeiro Grau” (“Murder in the First”, 1995), “Sleepers: Vingança Adormecida” (1996), “Sobre meninos e lobos” (Mystic River, 2003) e “O Lenhador” (“The Woodsman”, 2004). Sua atuação em “Assassinato em Primeiro Grau” e “O Lenhador” é extraordinária e rendeu indicações.
É complicado comparar a nova versão do filme “Footloose” com a antiga, que é um clássico e possui o mérito da originalidade, assim como comparar os atores, já que Kevin Bacon deixou uma marca muito forte. Porém, é injusto tirar o mérito desta nova versão, que para começar já nos trás uma boa nostalgia. Ambos os atores possuem um grande talento para a dança, o ator estreante Kenny Wormald (da versão de 2011) poderia tranquilamente disputar com Kevin Bacon um desafio na dança. Ambos os filmes não ficam somente no contexto musical, afinal é um drama e musical, com uma mensagem bacana sobre viver o agora e como a música e a dança têm grande sentido e importância para os jovens. Além disso, trás a questão do ativismo, como podemos fazer a diferença e lutar contra coisas já estabelecidas e tornar o mundo um lugar melhor.
Craig Brewer dirige o remake que, de fato, segue a mesma linha do original. Ficou bem parecido, sendo uma coisa boa para quem for assistir sem ter visto o original. Algumas mudanças básicas foram feitas, talvez para trazer uma atmosfera de uma época mais atual, como colocar uma cena com uma espécie de baile funk e rap, ou na cena de disputa usar um ônibus de corrida ao invés de um trator. O que importa é que a cena com a dança country funciona nos dois filmes, não há quem não se divirta assistindo. Na refilmagem, de 2011, entendemos melhor os motivos da cidade proibir a dança, logo na primeira cena, assim como o trauma do protagonista com a morte de sua mãe por causa da leucemia. Novamente, o que importa é que a cena no galpão também funciona nos dois filmes, ambos os atores dão um show de performance na dança. Na refilmagem, o legal é que o personagem erra uns passos e até cai no chão. Os atores Kevin Bacon e Kenny Wormald dão um show de coreografia, como uma forma de esfriar a cabeça e resolver suas questões traumáticas dançando sozinho em um galpão esquecido. Sem contar a cena divertida onde ensina o amigo caipira Willard a dançar (interpretado por Chris Penn no original e Miles Teller no remake).
Em ambas as produções, as músicas combinam com as cenas apresentadas e o estilo country ficou perfeito para o estilo caipira de cidade pequena. A música tema do original abre e fecha os filmes de uma forma empolgante, começando o filme exibindo somente os pés e os passos de dança, e posteriormente vemos muitas cenas de dança bem coreografada. Não tem como esquecer as músicas “Footloose” (de Kenny Loggins) e “Let's Hear It for the Boy” (de Deniece Williams), essenciais para o sucesso do filme, tanto que foram mantidas na versão de 2011. Ambas, na versão original, receberam uma indicação ao Oscar de melhor canção original. A trilha sonora contém Tom Snow, Dean Pitchford, Kenny Loggins, Nigel Harrison, Mark Mothersbaugh, Jamshied Sharifi, Jim Steinman e Nate Archibald. Este álbum está na lista dos 200 álbuns definitivos no Rock and Roll Hall of Fame. Um álbum, contendo a trilha sonora do filme, foi lançado nas lojas e acabou sendo indicado ao Grammy.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Um Sonho de Liberdade (The Shawshank Redemption, 1994)

Favoritos
The Shawshank Redemption (EUA, 1994)

Em 1946, o jovem e bem-sucedido banqueiro Andrew "Andy" Dufresne (Tim Robbins) é sentenciado a duas penas consecutivas de prisão perpétua pelo assassinato de sua esposa e de seu amante, a serem cumpridas na Penitenciária Estadual de Shawshank, no Maine, comandada pelo religioso e cruel agente penitenciário Samuel Norton (Bob Gunton). Rapidamente, Andy se torna amigo de Ellis "Red" Redding (Morgan Freeman), interno influente, também sentenciado à prisão perpétua, que controla o mercado negro do presídio. Ao longo das quase duas décadas de Dufresne na prisão, ele se revela um interno incomum. Dirigido por Frank Darabont.

Somos todos inocentes”:
A liberdade e a esperança são tão vivas no filme que podem ser consideradas duas personagens interligadas. A humanidade e sua relação com esse sentimento de liberdade é tratada sob algumas óticas neste drama emocionante, com uma história bem elaborada, roteiro bem adaptado a partir de uma obra interessante, direção e atores excelentes. A trama a princípio é simples, mas possui reviravoltas surpreendentes e se revela com uma profundidade fantástica. É o que se pode resumir da sensação em relação a este que é um dos melhores filmes já exibidos.
Tim Robbins faz uma ótima atuação, interpretando Andy Dufresne, pessoa de personalidade fantástica e inspiradora, representando a esperança, entre outras coisas. Como se não bastasse, contracena com Morgan Freeman, que recebeu uma indicação ao Oscar de melhor ator interpretando o presidiário veterano Red, personagem contraditório que representa, entre outras coisas, o costume. Apesar de Freeman ter em sua carreira inúmeras indicações, Tim Robbins acabou saindo na frente quando recebeu o Oscar de melhor ator coadjuvante por seu papel perfeito no filme “Sobre Meninos e Lobos” (“Mystic River”, 2003), sendo que Freeman ganhou o mesmo prêmio em “Menina de Ouro” (“Million Dollar Baby”, 2004). Talvez se tivesse um prêmio de melhor dupla, eles ganhariam em 1995.
A narração é feita por Red, uma escolha certeira tanto para o livro, quanto para o filme. Interessante ver as coisas pela interpretação dele, inclusive a própria mudança pela qual passa. Dessa forma também analisamos o personagem Andy sem saber se ele é culpado ou não pelo crime, já que as cenas iniciais são duvidosas. Com o passar da história, muitas lições podem ser presenciadas. Todo homem deseja ser livre, porém o costume na prisão acaba fazendo com que se tenha medo do mundo lá fora, mesmo com toda a angústia dos primeiros dias na prisão, bem representada no filme. Ser prisioneiro de algo, mesmo que seja do próprio medo, mostra que existe a liberdade física e a liberdade interior, mostradas numa narração e cenas caprichadas e com uma direção madura de Frank Darabont. Segundo o personagem: "Primeiro você detesta esses muros, depois se acostuma a eles até que você precisa deles". A saída da cadeia se transforma em uma nova prisão, de medo e incertezas. O ex-presidiário é um ninguém, sem amigos, família ou futuro digno. A forma como o filme nos traduz o que a prisão faz com a vida de um ser humano é tanto perturbadora quanto bela. Nos envolvemos com os presidiários, sem precisar saber o motivo de estarem ali (todos dizem “Somos todos inocentes”), e passamos a vê-los como seres humanos não tão diferentes de nós mesmos.
O roteiro é uma adaptação do conto "Rita Hayworth e a Redenção de Shawshank", uma das quatro histórias do livro “Quatro Estações”, de Stephen King. Muitas histórias de King foram adaptadas para o cinema, embora a maioria delas sejam de terror, e podemos ver muitas adaptações ruins, mas não é o caso de “Um Sonho de Liberdade”, até porque o diretor Frank Darabont parece ser a melhor opção para os filmes adaptados das obras de Stephen King. Neste caso, ele também ficou responsável pela adaptação do roteiro. Dirigiu outras 3 adaptações de obras do escritor: “The Woman in the Room” (1983), “À Espera de um Milagre” (“The Green Mile”, 1999) e “O Nevoeiro” (“The Mist”, 2008). Estes dois últimos tiveram um resultado excelente e também foram relativamente fieis à obra.
“Um Sonho de Liberdade” foi endicado ao Oscar nas categorias de melhor filme, melhor ator (Morgan Freeman), melhor roteiro adaptado, melhor fotografia, melhor som, melhor edição e melhor trilha sonora. Uma pesquisa do jornal Independent apontou este como o filme mais injustiçado da história do Oscar, sendo que em seguida ficou “À Espera de um Milagre”; talvez tenha sido o azar de competir com "Forrest Gump: O Contador de Histórias". Mesmo assim, ocupa o 72° lugar na "Lista dos melhores filmes estadunidenses" do American Film Institute e é considerado por muitos críticos como o melhor filme da história. Na lista do The Internet Movie Database (IMDb) ocupa a primeira posição, com o maior número de votos, superando grandes clássicos como “O Poderoso Chefão”, “Cidadão Kane” e “E o Vento Levou”.
A amizade é tratada como a chave para a liberdade plena, os dois personagens estabelecem uma amizade entre si que inspira a sobrevivência de ambos. A persistência e inteligência entram como parte da solução. E o diretor, nos momentos finais, nos dá quase que um presente inesperado, pois podemos imaginar que o filme caminharia para algo comum, mas acaba que a trama é direcionada para algo surpreendente e, ao mesmo tempo, gerando grandes emoções positivas.

Não faço a mínima ideia do que
aquelas duas italianas cantavam.
Na verdade, nem quero saber.
É melhor não tentar explicar tudo.
Quero imaginar que seja algo tão belo que não...
pode ser expresso em palavras...
e faz seu coração se apertar... com a música.
Aquelas vozes voaram mais alto...
e mais longe do que se pode imaginar num lugar cinzento.
Era como um belo pássaro que voou para a nossa gaiola...
e fez os muros se dissolverem.
E, pelo mais breve momento...
cada homem de Shawshank se sentiu livre.”
Red

- Valeu a pena ter ficado duas semanas na solitária?
- Dessa vez foi a mais fácil.
- Nunca é fácil ficar na solitária. Uma semana lá é como um ano.
- Acertou na mosca. Mas essa semana Mozart ficou comigo.
- Deixaram você levar o toca-discos para lá?
- Estava aqui (aponta para o cabeça). E aqui (aponta para o coração).
É por isso que a música é bela. Eles...
não podem tirá-la de você.”
Andy

__________________________________
Fontes:

http://pt.wikipedia.org/wiki/The_Shawshank_Redemption

domingo, 10 de novembro de 2013

O Palhaço que Não Ri (The Buster Keaton Story, 1957)

Eu indico
The Buster Keaton Story (EUA, 1957)

Cinebiografia do comediante e diretor Buster Keaton, mais conhecido como grande rival de Charles Chaplin na época do cinema mudo. O filme retrata bem as dificuldades enfrentadas pelos atores na época de passagem do cinema mudo para o falado e também mostra a quem foi este grande ator. Roteiro e direção de Sidney Sheldon.

História triste e feliz de Buster Keaton:
É importante saber quem foi Buster Keaton (1895 – 1966), um dos maiores gênios da comédia no cinema mudo, que chegou a encarar dificuldades com a chegada do cinema falado, assim como muitos outros artistas. Ele saiu da pobreza para a riqueza em um curto espaço de tempo. Entretanto, este que foi considerado o grande rival de Charles Chaplin no cinema, passou por momentos difíceis e quase morreu esquecido. Neste sentido, vale a pena assistir ao filme, mesmo com toda a repercussão negativa após os críticos alegarem que foram ignorados e distorcidos muitos fatos sobre o astro, não tendo fidelidade à história real. Soa estranho, visto que o próprio Buster Keaton participou da produção como conselheiro técnico.
Sidney Sheldon foi um famoso escritor de vários best sellers, tais como “A Outra Face”, “O Outro Lado da Meia-Noite”, “A Ira dos Anjos” e “Se Houver Amanhã”. Também foi roteirista de filmes e novelas, chegando a dirigir poucos filmes, inclusive adaptações de suas obras. Seus livros alcançaram a lista de mais vendidos do The New York Times, porém sua carreira no cinema foi bem criticada. “O Palhaço Que Não Ri” é um drama sobre a vida de Buster Keaton, co-escrito, co-produzido e dirigido por Sheldon, que foi tão criticado que o estúdio resolveu não renovar o contrato com o diretor.
Buster Keaton é interpretado por Donald O’Connor, um dos três principais atores de “Cantando na Chuva” (1952), o clássico dos musicais que também retrata a Hollywood na passagem do cinema mudo para o falado. Versátil e carismático, o ator dá um show e consegue mostrar o talento e a personalidade de Keaton, um comediante melancólico que praticamente não dá um sorriso de forma natural em sua vida. As cenas onde ele está interpretando, ensaiando uma cena para algum filme, são memoráveis. Podemos comparar um pouco com o próprio Chaplin interpretando Carlitos, ou a Robert Downey Jr. interpretando Chaplin no excelente “Chaplin” (1992), e assim temos uma ideia de quem foi Buster Keaton.
No filme, presenciamos a origem das gargalhadas do público quando um acidente ocorre numa peça teatral de “Os Três Keatons”; o garoto Buster, com apenas 7 anos, cai acidentalmente de uma mesa e daí temos a inspiração para realizar cenas com acidentes, quedas e porradas, num estilo pastelão que combina com filmes mudos. A família do ator é pobre e enfrenta a vida com dureza. Depois disso a história avança para quando o cinema passa a quase substituir o teatro de variedades e, assim como muitos outros artistas do Vaudeville, Keaton vai para Hollywood tentar a sorte no cinema. O seu talento já é usado para driblar os guardas e conseguir um teste para ator e, em pouco tempo depois, ele já está dirigindo seus próprios filmes. Também vemos sua decadência após a chegada do som nas telas, suas desventuras amorosas e os problemas com a bebida.
No filme, a carreira de Keaton acaba com a chegada do cinema falado. Numa das cenas temos a oportunidade de ver o anúncio do filme “O Cantor de Jazz” (1927), que de fato inaugurou a era do cinema falado. Também vemos o ápice da carreira de Keaton (entre 1920 e 1928), quando criou os filmes que o tornaram um dos maiores comediantes do cinema: “Marinheiro por Descuido” (The Navigator), “O Vaqueiro” (Go West), “Boxe por Amor” (Battling Butter), “Amores de Estudante” (College), e “A General” (1927), sua obra-prima, lançado no mesmo ano de “O Cantor de Jazz”. Na vida real, Buster Keaton sobreviveu por duas décadas de comédias sonoras baratas e eventuais aparições, e depois voltou à evidência ao participar do filme “Luzes da Ribalta” (Limelight, 1952), de Charles Chaplin. Esse filme parece ter salvo o artista da decadência que, depois de contracenar com Chaplin pela única vez, dá uma reviravolta em sua vida, voltando a casar, parando de beber e atuando em diversos papéis no teatro, TV e cinema.
Quatro anos antes de morrer, Buster Keaton recebeu emocionante homenagem em Paris. Jean Tulard, acadêmico e historiador francês e apaixonado por cinema, escreveu em seu Dicionário de Cinema:
“Em 1962, ao apresentar sua obra em Paris, no espaço da Cinemateca, Keaton entrou por uma porta, enquanto era esperado por outra; pegou o microfone que lhe deram e o utilizou como um barbeador elétrico: com alguns gestos, resumiu toda a sua arte. A ovação que lhe foi feita por um público bastante jovem de cinéfilos foi a maior e mais espontânea já registrada na Cinemateca. E também a mais merecida.”

Buster Keaton (1895 - 1966)

__________________________________
Fontes:

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

[ESPECIAL] Livro e tatuagem sobre cinema


O meu blog já tem 2 anos e mantenho a meta mensal de postar 3 filmes, com algum conteúdo crítico sobre cada um e como forma de indicação. Até o momento separei em duas categorias: filmes que gostei (recebem o selo da mãozinha “Eu Indico”) e filmes que gostei demais (recebe o selo da taça “Favoritos”).

Neste momento, gostaria de indicar um livro que tem me ajudado muito nessa imersão no mundo cinematográfico: “Tudo Sobre Cinema”, editado por Philip Kemp e com o prefácio de Christopher Frayling, com 576 páginas. Após uma boa introdução sobre a história do cinema, ele é organizado de forma cronológica e escrito por uma experiente equipe de críticos especializados, mostrando a evolução da sétima arte. Para cada década, cita os filmes que marcaram a época, que influenciaram e foram influenciados pelo contexto, e detalha alguns deles. É uma ótima fonte para quem, como eu, gosta de ver filmes de todas as épocas e todos os gêneros. Impressionante como houve uma rápida evolução da sétima arte em um curto período da história e, ao mesmo tempo, filmes bem antigos ainda são inesquecíveis. Em 1895, os irmãos Lumière projetaram o primeiro filme: “A saída dos operários da fábrica Lumière”, na França.

Aproveitando, finalmente fiz a minha primeira tatuagem...


terça-feira, 22 de outubro de 2013

Os Suspeitos (Prisoners, 2013)

Eu indico
Prisoners (EUA, 2013)

Duas famílias devem lidar com o desaparecimento de suas filhas pequenas. Quando um dos pais suspeita que o detetive encarregado das buscas já desistiu de procurar pelo culpado, desesperadamente ele começa a desconfiar de todas as pessoas ao redor. Fazendo sua própria investigação, encontra o principal suspeito e decide sequestrá-lo. Dirigido por Denis Villeneuve. Roteiro de Aaron Guzikowski.

Priosioneiros:
O diretor canadense Denis Villeneuve, do filme “Incêndios” (Canadá, 2010), indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, apresenta este suspense que trata de uma situação comum nos Estados Unidos, e que qualquer família pode acabar vivenciando, que é o desaparecimento de crianças. A sequência de abertura com a oração do Pai Nosso entrelaçada com um pai instruindo um filho a caçar um cervo já mostra a seriedade e algumas questões da trama. Muita tensão, valores morais e uma ótima forma de mostrar as transformações dos personagens – cada um reagindo à sua maneira – diante da situação foco de tensão do filme.
Com suas duas horas e meia, o diretor consegue prender a atenção do espectador e ainda consegue reunir provavelmente o melhor elenco do ano: Hugh Jackman, Jake Gyllenhaal, Viola Davis, Maria Bello, Terrence Howard, Melissa Leo, Paul Dano e Dylan Minnette. Os destaques vão para Hugh Jackman - como um pai preocupado ao extremo e que acaba tomando uma difícil decisão pensando na família, Jake Gyllenhaal - como um policial dedicado a ponto de se consumir bastante com o caso e, também, Paul Dano - como o principal suspeito, com um comportamento desassociado do mundo ao redor e que praticamente não fala. Dano é o único que ainda não teve indicação a premiações por suas atuações anteriores, apesar de que seus papéis (pequenos em sua maioria) costumam ter relevância, como em Sangue Negro (2007), Pequena Miss Sunshine (2006) e Roubando Vidas (2004); provavelmente depois deste filme, o ator será mais valorizado. Um destaque especial para Jake Gyllenhaal, pois se encontra em um papel mais difícil de ter visibilidade em termos de atuação, pois suas emoções não ficam tão explícitas como acontece com os demais personagens (seu envolvimento com a situação é mais indireto, pois ele está prestando um serviço); mesmo assim, cada detalhe de sua atuação, seja um piscar repetitivo de olhos, ou um escorregão, parecem tão reais como se fossem improviso, não estivessem no papel. Este deve ser o melhor trabalho de Gyllenhaal, uma boa aposta para o próximo Oscar.
Os Suspeitos alterna as histórias do pai e do detetive, ambos com sua obsessão, e vai mostrando a reação dos demais personagens. Pistas são apresentadas e reviravoltas testam o raciocínio e a tensão do espectador. Porém, os dilemas morais dos personagens, suas transformações e decisões, é o forte do filme. O drama dos pais diante do tempo cruel enquanto suas filhas estão desaparecidas. O mal, em sua essência e implicações morais, e o limite de cada um são alguns pontos focados no filme. O título original, Prisioneiros, é mais adequado, já que cada personagem se torna um prisioneiro de algum forma, mesmo que seja da sua própria consciência, de sua angústia. Como em "Incêndios", o canadense Villeneuve acumula reviravoltas e um final impactante, mas no primeiro filme o impacto é maior. Vale a pena ver os dois.

__________________________________
Fontes:

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Eu e Você (Io e Te, 2012)

Eu indico
Io e Te (Itália, 2012)

Escondido no porão para passar suas férias de inverno, Lorenzo, um jovem de quatorze anos, introvertido e um pouco neurótico, está se preparando para viver seu grande sonho: nada de conflitos, nada de colegas chatos de classe, nada de brincadeiras e falsidades. O mundo lá fora com suas regras incompreensíveis e ele deitado no sofá, bebendo muita coca-cola, comendo atum em caixinha e com livros de terror ao seu redor. Será Olivia, que chega de repente no porão com sua agressiva vitalidade, a tirar Lorenzo de seu universo sombrio, para que ele tire a máscara de adolescente complicado e aceite o jogo caótico da vida fora de quatro paredes. Dirigido por Bernardo Bertolucci.

Io e te:
O universo juvenil e seus conflitos. O jovem Lorenzo (Jacopo Antinori) se mostra antissocial, aproveitando uma chance e se escondendo por uma semana, na companhia de suas músicas (David Bowie e The Cure já dão um crédito a mais ao filme com suas músicas) e sua criação de formigas. Quando toda a turma da escola se prepara para uma excursão, Lorenzo vê a oportunidade de passar essa semana sozinho no porão do prédio onde mora, deixando sua mãe pensar que ele foi na excursão. No entanto, a meia-irmã Olivia (Tea Falco), de 25 anos, descobre o esconderijo e decide ficar com ele durante o período. Viciada em heroína e passando por uma forte crise de abstinência, Olivia é responsável por tirar o menino da sua zona de conforto e, assim, temos um grande filme que trata sobre convivência, expectativas e laços sanguíneos. Obrigados a conviver no cubículo, os dois começam a ensinar coisas um ao outro.
O diretor Bernardo Bertolucci tem fama de tratar a sexualidade em seus filmes, porém neste ele explora a questão com uma certa sutileza. Tímido e na puberdade, Lorenzo se comunica com a irmã mais através de olhares do que falando. A mãe de Lorenzo evita certa aproximação com o garoto, apesar de morarem juntos, e acaba que os meio irmãos - afastados por outras questões de família - vivem uma experiência única em apenas uma semana juntos. Bertolucci aproveita o espaço fechado para deixar um clima mais intimista em seu filme, e constrói a narrativa com base, essencialmente, na imagem. O porão acaba sendo o refúgio fechado ao mundo. Os transtornos que Olivia introduz na vida do rapaz levam a pequenas transformações na relação entre eles. Com Lorenzo, podemos sonhar em abstrair o mundo, em nos ocultar dos problemas que existem; com Olivia, vemos a importância de se arriscar e, com isto, algumas consequências que aparecem. Aqui a transcrição de uma fala de Olívia que casa com o título e outras questões do filme:

As fotos que você viu são parte de uma série chamada "Sou uma parede".
É uma metáfora.
Basicamente, sou eu me transformando naquela parede,
entrando no papel de parede, para dentro do gesso.
Como um lagarto...
Não como um lagarto.
Praticamente, eu queria me materializar.
Eu e você, se não tivéssemos um ponto de vista, seríamos iguais, não é?
Sim, sem um ponto de vista, deixaríamos de ser
sempre um contra o outro
e aceitaríamos a realidade como ela é, sem julgá-la.

__________________________________
Fontes:

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Lembranças de um Verão (Hearts in Atlantis, 2001)

Eu indico
Hearts in Atlantis (EUA, 2001)

Após a morte de um amigo, Bob Garfield visita sua cidade quando era uma criança e começa a relembrar seu passado. Nessa época, quando tinha apenas 11 anos, apareceu em sua vida um senhor misterioso chamado Ted Brautigan. Entretanto, é com a amizade e atenção de Ted que Bobby aprende a ter uma outra visão de seu falecido pai, bem como as possibilidades que a vida lhe oferecia na época. Escrito por William Goldman e dirigido por Scott Hicks.

Corações na Atlântida:
Stephen King não somente escreve livros e contos de terror, mas também possui suas histórias dramáticas. Este filme tem como base dois contos do livro “Hearts in Atlantis”, os contos “Low Men in Yellow Coats” e “Heavenly Shades of Night are Falling”. A história tem suas pitadas de ficção e suspense, quando trata da questão da paranormalidade, mas é essencialmente um bom drama. Existem outros bons exemplos de filmes inspirados em suas obras, que não são de terror: “Conta Comigo” (“Stand by Me”, 1986), “À Espera de um Milagre” (“The Green Mile”, 1999) e meu preferido “Um Sonho de Liberdade” (“The Shawshank Redemption”, 1994). A amizade entre protagonistas é um tema em comum entre esses filmes, assim comum uma pequena dose de suspense ou ficção.
A amizade entre o garoto Bobby Garfield (Anton Yelchin) e um estranho senhor, Ted Brautigan (Anthony Hopkins), que chega à pacata cidade do primeiro, é a chave da trama. O garoto sente a falta de um pai que mal conheceu e isso fica mais forte quando sua mãe se preocupa com futilidades e somente com si mesma, enquanto que o personagem de Hopkins se mostra uma pessoa que teve uma infância sem muitos amigos, provavelmente por conta de seu dom que faz com que o governo fique à sua procura para se aproveitar dos “poderes” e combater comunistas (quase que uma lenda urbana da época, anos 60). A participação de Anthony Hopkins, como de costume, é um diferencial, tão bom que este parece mesmo não enxergar bem, e percebemos isso antes do personagem assumir que possui a visão prejudicada.
O garoto fica fascinado inicialmente com o aspecto enigmático de Ted, protegendo seu grande segredo, mas é o cuidado e as orientações do senhor que vão causar ao garoto uma verdadeira admiração, levando-o a perceber detalhes ao seu redor, principalmente nas questões pessoais. Ted dá a dica a Bobby para aproveitar aquele verão com seus inseparáveis amigos, a experimentar um verdadeiro amor de infância e a conhecer características boas de seu falecido pai. Também aprende a perdoar e a repassar a bondade, como visto nas últimas cenas, onde ele entrega à filha de Carol Gerber a foto da mãe da garota, ainda pequena, o que deve trazer sensações positivas da filha em relação à mãe que ela não deve ter conhecido bem. A atriz Mika Boorem interpreta mãe e filha.
Tudo se passa rapidamente pelas lembranças do bem-sucedido fotógrafo Bob (David Morse), quando visita sua antiga cidade. O diretor Scott Hicks mencionou que o “11″, marcado na janela de Bobby, significa que todas as lembranças se passaram em questão de segundos na mente do personagem adulto. Isso fica evidente por causa da condensação na janela que evapora. Esses detalhes especiais no filme são reflexo do roteiro escrito pelo veterano William Goldman, autor de roteiros consagrados como “Butch Cassidy” (1969), “Todos os Homens do Presidente” (1976) e “Chaplin” (1992). O monólogo de Anthony Hopkins sobre o jogador de futebol que retorna da aposentadoria é do romance Um Passe de Mágica (Magic), do próprio William Goldman, que também escreveu o roteiro da adaptação de seu romance, no qual Hopkins também foi protagonista.
Com uma dose de sensibilidade, o diretor Scott Hicks (do excelente “Shine: Brilhante”, de 1996), mostra a trajetória deste menino de 11 anos e a forma como ele projeta no carismático Ted a presença de um pai que mal conheceu. O filme também usa músicas consagradas dos anos 60, como “Only You”, “Smoke Gets in Your Eyes” e “The Twist”.

Às vezes, quando somos pequenos, temos momentos de tal alegria que achamos que estamos vivendo num lugar tão mágico como deve ter sido Atlântida… depois crescemos e os nossos corações se partem em dois.”

Eu não trocaria nem um minuto. Por nada nesse mundo.”

__________________________________
Fontes:

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Invocação do Mal (2013)

Eu indico
The Conjuring (EUA, 2013)

Harrisville, Estados Unidos. Com sua família cada mais mais apavorada devido a fenômenos sobrenaturais que a atormentam, Roger Perron (Ron Livinston) resolve chamar dois demonologistas mundialmente conhecidos, Ed (Patrick Wilson) e Lorraine (Vera Farmiga). O que eles não imaginavam era ter que enfrentar uma entidade demoníaca poderosa, que demonstra ser a maior ameaça às suas carreiras. Dirigido por James Wan.

Terror baseado em fatos reais:
O terror de verdade não precisa de monstros, sanguinolência, sustos sucessivos... precisa causar medo, causar frio na espinha, tensão, arrepio, suspense. James Wan mais uma vez acerta na dose e no estilo, e agrada aos fãs do gênero (e também a quem não é fã), com uma história bem interessante e, como se já não bastasse, baseada em eventos reais, o que deixa o filme mais assustador e com mais credibilidade. Para saber um pouco mais sobre este diretor, é só olhar a postagem sobre o filme Sobrenatural (“Insidious”, EUA, 2011):
http://eueatelona.blogspot.com.br/2013/07/sobrenatural-insidious.html
Invocação do Mal tem, entre os personagens, a família Perron e o casal de estudiosos paranormais Ed e Lorraine Warren, autoproclamados “demonólogos”. Ambos existiram e, pelo visto, o casal vivenciou experiências diversas com este tipo de fenômeno, mas o caso dos Perron entrou para os seus arquivos como o mais assustador que eles já enfrentaram. Eles também se envolveram com o famoso caso ocorrido em Amityville, em 1975 (após este de Harrisville), inclusive nesta época houve uma polêmica na carreira do casal, que sofreram acusações de adultério de casos paranormais.
Desde “Insidious”, cerca de dois anos atrás, James Wan já amadureceu. As cenas de terror, em sua maioria, não precisam mostrar fantasmas e nem forçar sustos, para causar arrepio. É um personagem, uma garotinha, vendo alguma coisa assustadora (que o protagonista não vê, mas sabe que está ali), suficiente para causar medo; ela está chorando e apontando para um canto do quarto, perguntando à irmã se ela também está vendo. A câmera e a situação faz com que imaginemos o que pode estar ali, e praticamente podemos nos colocar no lugar da garota. Assustador. Uma das melhores cenas. O jogo criativo da câmera, algumas vezes do ponto de vista de algum personagem, de cabeça para baixo, de um lado para o outro, na eminencia de ver alguma coisa que está fazendo barulho, ou até o reflexo no espelho balançando de um lado para o outro, na expectativa de aparecer alguma entidade. A forma como a câmera se move na casa é de um cuidado raro. Sem contar a criatividade na cena da brincadeira das palmas. Além disso, cenas movimentadas também ficaram boas; de repente, personagens são puxadas pelo pé ou pelo cabelo... É um trabalho de direção interessante e pode colocar James Wan em um patamar de melhores diretores deste gênero, na atualidade. Nos resta agora esperar e apostar no sucesso de “Insidius 2”.
O ótimo elenco, mesmo com alguns atores não muito conhecidos, também ajudou muito. O casal Warren (Patrick Wilson e Vera Farmiga) está ótimo, assim como as crianças e a atriz Lili Taylor, que faz a mãe da família e sofre os diabos com os acontecimentos. Uma outra coisa que ajudou foi o filme começar bem, que já é uma característica positiva do diretor: a trama de cara mostra um outro caso do casal Warren (o da boneca sinistra), que acaba trazendo consequências para eles no decorrer de suas vidas.

"As forças demoníacas são formidáveis.
Essas forças são eternas, elas existem hoje.
O conto de fadas é verdadeiro.
O diabo existe, Deus existe.
Nosso destino cabe àquele que escolhemos seguir."
(Ed Warren)

__________________________________
Fontes:

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

A Coleção Invisível

Eu indico
A Coleção Invisível (Brasil, 2012)

A família de Beto (Wladimir Brichta) é dona de uma tradicional loja de antiguidades que está passando por uma crise financeira. Para tentar solucionar este problema ele se lança numa viagem até a cidade de Itajuípe, interior da Bahia, atrás de uma coleção raríssima de gravuras que foi adquirida há 30 anos por um antigo cliente, o colecionador Samir (Walmor Chagas). Entretanto, logo ao chegar Beto enfrenta uma forte resistência da esposa dele e de sua filha Saada (Ludmila Rosa). Dirigido por Bernard Attal.

Filme baiano, sensível e bem contextualizado:
Baseado no contro do austríaco Stefan Zweig (1881 – 1942), este é o primeiro longa-metragem dirigido por Bernard Attal, francês radicado na Bahia. Foi o último trabalho do ator Walmor Chagas no cinema, que faleceu neste ano de 2013. A ideia de existir uma rara coleção de gravuras de Cícero Dias (pintor do modernismo brasileiro), na mão de um fazendeiro no sul da Bahia, assim como todo o mistério que ronda a região e a reação da esposa e da filha em não cooperarem com o protagonista Beto, já apresenta uma característica de conto. Beto se mostra preocupado com o próprio problema, mas encontra uma realidade dura na pequena cidade de Itajuípe e, a partir dos acontecimentos, vai se transformando gradativamente. Desde o momento em que chega a cidade, fica sabendo da “bruxa”; essa praga famosa, a “vassoura de bruxa”, na década de 1920, destruiu milhares de plantações de cacau na Bahia, acabando com a economia de muitas cidades e levando pessoas da fartura à pobreza, em pouco tempo. Este retrato da destruição que a praga deixou na região, junto com o mistério da trama e a transformação pessoal de Beto, tornam o filme algo bem contextualizado, ao mesmo tempo simples e sensível. Vemos até a luta que ocorre na atualidade, através da filha do casal, interpretada por Ludmila Rosa, quando esta se mostra uma batalhadora vendendo cacau que colhe da própria fazenda, e defendendo a natureza das famosas queimadas que também caracterizam bem nossa realidade. O filme ficou com o prêmio de júri popular no Festival de Gramado.
A trama começa no ambiente urbano, onde Beto sofre a perda de amigos num acidente de carro, na cidade grande de Salvador. Pressionado pela sensação de culpa e pelas dificuldades financeiras, ele vê na coleção de gravuras uma oportunidade boa de melhorar sua situação. É a primeira vez que o baiano Vladimir Brichta atua como protagonista dramático, e ele passa um realismo bacana em sua interpretação, quando lembra de seus traumas e quando encara novas vivências.
A atriz Clarisse Abujamra passa a dor e a revolta da situação que vive, como esposa do fazendeiro colecionador, em poucas cenas e poucas falas, mas com uma atuação madura, tendo assim uma premiação merecida (melhor atriz coadjuvante no Festival de Gramado). Mais ainda o ator Walmor Chagas (melhor ator coadjuvante), que já estava com a visão prejudicada durante as filmagens, mostrando um fazendeiro já decadente que mantém uma paixão pela sua coleção de gravuras de Cícero Dias. Porém temos outros personagens que acrescentam bastante, como o motorista de táxi (Frank Meneses) e o radialista da cidade (Paulo César Pereio), além de crianças locais, que servem de guias para Beto. Representam bem a realidade social da cidade e, o pouco convívio que Beto tem com eles, acaba sendo um dos principais motivos de sua transformação.
Revelações no final da trama nos pegam de surpresa, da mesma forma que pegam o personagem, e assim podemos nos sentir tão transformados quanto ele. O nome “invisível” do título remete à coleção (e colecionador) esquecidos, assim como àquelas raras pessoas da cidade, esquecidas (quase invisíveis para o mundo). Gente invisível, gente esquecida. A trajetória de redescobrimento de Beto é o ponto forte do filme, por ser bem construída e por deixar a mensagem de que, muitas vezes, nos resta oferecer uma atitude humilde e uma amizade. Oferecer um abraço para um garoto, no final no filme, tem profundo significado, tão simples e tão raro que até causa estranheza ao garoto.

__________________________________
Fontes:

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Cabaré Bibliotheque Pascal

Eu indico
Bibliotheque Pascal (Alemanha/Hungria/
Reino Unido/Romênia, 2010)

Mona é vendida como escrava pelo próprio pai a um estranho bordel, onde as prostitutas são forçadas a agir como personagens literários. Roteiro e direção de Szabolcs Hadju.

Era uma vez... um spoiler!
Um trailer empolgante como o deste filme, com uma trilha sonora bacana, deveria ser visto por todos. Com certeza muitos correriam para assistir. Quem ainda não viu, recomendo deixar para ler esta postagem depois (por isso o spoiler no título).
A cigana Mona (Orsolya Török-Illyés) vive nas ruas da Hungria ganhando a vida como artista. Para recuperar a guarda da filha, que deixou aos cuidados de sua tia, ela precisa explicar sua história ao assistente social, mas o que ela narra é uma aventura com momentos surreais. Em meio a histórias fantásticas, conhecemos a personagem e sua filha, assim como os suas improváveis aventuras e outros personagens pitorescos. A criatividade do húngaro Szabolcs Hadju se mostra fator crítico de sucesso. Imagine uma pessoa com o poder de projetar o próprio sonho para os outros verem. E, em seu clímax, o filme culmina para um bordel cult, o Bibliotheque Pascal, quando a personagem é vendida como escrava e fica aprisionada neste, onde os clientes podem viver suas fantasias sexuais com personagens pertencentes aos clássicos da literatura. Através de magníficas tomadas, efeitos especiais e uma trilha sonora muito boa, o diretor húngaro esbanja estilo e ousadia. Sob uma superfície de belas e sedutoras imagens, há uma história demasiadamente humana de uma mulher que usa a fantasia para amenizar as dores de sua existência, talvez até para esquecer de decisões que ela mesma tomou, ou coisas que não conseguiu evitar.
É importante perceber que Mona é uma exímia contadora de histórias, em algumas passagens do filme isso fica claro (ela ganha a vida exibindo um teatro de fantoches bem criativo e, no final do filme, conta uma história para a filha dormir, bem semelhante ao que aconteceu no Bibliotheque Pascal). Desde a forma como ela conhece o rapaz que foi o genitor de sua filha, até a parte onde ela é resgatada do Bibliotheque Pascal, de forma extremamente surreal, já temos pistas de que aqueles acontecimentos foram inventados, pois estamos em um drama, e não numa ficção. Porém, o que seria real naquilo tudo, já que Mona camufla os acontecimentos com uma história criativa? Ela constrói um mundo de sonhos e ilusões para tentar amenizar a dor que sofreu por toda a vida. É fácil comparar com o enredo dos filmes “Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas” (2003) e “As Aventuras de Pi” (2012), dado seu contexto cheio de situações fantásticas. Assim como Pi, ao ser forçada a contar a história verdadeira, a personagem chora.

Era uma vez, um poderoso rei, que tinha um palácio enorme, 
que era guardado por anjos mortos e ficava nas profundezas do solo,
não muito longe do inferno.
Ele tinha centenas de quartos. E havia uma centena de prisioneiros nos cem quartos. 
Eram todos personagens de contos de fadas, príncipes e princesas.
E os príncipes e princesas estavam muito tristes porque foram retirados de seus contos de fadas.
Mas as crianças estavam ainda mais tristes porque quando abriam os livros, 
achavam um monte de palavras chatas.
Não havia ninguém que pudessem admirar ou se entusiasmar, 
ninguém que pudessem imaginar ser antes de adormecerem à noite.
Mas havia uma pobre princesa entre eles. 
E ela decidiu fugir do palácio e retornar para seu conto de fadas...

__________________________________

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Monstros

Eu indico
Monsters (Reino Unido, 2010)

A NASA descobriu formas de vida alienígena dentro de nosso sistema solar. Ela envia uma sonda para coletar amostras, mas ao voltar à Terra sofre um acidente e cai no América Central. Seis anos depois uma nova forma de vida surge no México. O país é isolado como uma área infectada. Neste cenário, um jornalista fica encarregado de levar a filha do chefe de volta aos EUA, tentando chegar na fronteira. Dirigido por Gareth Edwards.

O amor e o medo:
A fronteira entre o México e Estados Unidos é um cenário de conflitos, propício para ser a base deste filme que, na verdade, é mais drama do que ficção. A zona entre um país e outro está em quarentena, desde que formas de vida extraterrestre caíram no México, por acidente, trazidos numa sonda espacial, seis anos atrás. A interação com o filme é interessante, pois com o passar das cenas, as coisas ficam mais claras, como por exemplo, o fato de que os alienígenas não vieram para invadir, conquistar, destruir; vieram por conta de um acidente sob responsabilidade de seres humanos. Sendo assim, nada mais natural do que se defenderem para sobreviver. A crítica sobre a mídia distorcendo as informações é clara e, com um pouco de atenção, percebemos quem são os verdadeiros monstros da história. Com certas características de documentário, funciona bem como um universo particular criado pelo diretor Gareth Edwards, especialista em efeitos visuais que tem, neste, a sua primeira experiência com direção. Temos efeitos interessantes considerando que gastou menos de 500 mil dólares. O diretor agora vai encarar o novo filme de Godzilla, previsto para 2014.
Num cenário de terceiro mundo, usando a técnica da sugestão, onde raramente vemos as criaturas por inteiro, somente os efeitos de sua passagem (bichos grandes parecidos com polvos), ou através de imagens e informações intermediadas pela TV, este filme trata também de dois sentimentos humanos, o medo e o amor. Não somente do ponto de vista dos personagens, mas também dos seres de outro planeta. Estrelado pelos atores Scoot McNairy e Whitney Able, interpretando um jornalista tentando atravessar a fronteira do México com os Estados Unidos, encarregado de levar a bela filha do chefe nesta arriscada empreitada. O trama de fundo romântico extrapola em uma cena onde vemos duas criaturas se relacionando, o que aproxima elas do comportamento humano. Além da sutileza se percebermos a condição das criaturas, maltratadas, e que estão tão aterrorizadas quanto nós. Murais velhos com ilustrações das criaturas mostram que, depois de seis anos, o México se acostumou às mudanças, embora o preconceito e a cegueira ainda estejam instalados. Até os humanos acabam sofrendo com a monstruosidade dos bombardeios na fronteira, responsáveis pela maioria das mortes no filme, embora a mídia seja tendenciosa em acusar os seres alienígenas.

__________________________________
Fontes:

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Milagre em Milão (“Miracolo a Milano”)

Eu indico
Miracolo a Milano (Itália, 1951)

Uma mulher adota um bebê abandonado em sua horta. Depois de sua morte, o garoto é enviado para o orfanato. Ao completar 18 anos, Totó (Francesco Golisano) vai para Milão, onde passa a morar num terreno ocupado por miseráveis, mudando a vida de todos com sua bondade. Após descobrirem petróleo, os moradores são ameaçados pelo proprietário, que manda a polícia desocupar o local. Quando tudo parece perdido, Totó recebe uma ajuda dos céus, começando a fazer muitos milagres. Dirigido por Vittorio de Sica.

Milagre:
Para começar, o filme é um clássico do diretor Vittorio de Sica, o mesmo de Ladrões de Bicicletas (1971), que foi um dos primeiros diretores a usar elementos de neorrealismo nos filmes italianos. Em “Milagre em Milão”, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, é interessante como o diretor usa elementos de ficção na sua obra, e ainda mostra uma Itália suja, assolada pela miséria. A história de Totó é como uma fábula, ele surge no meio de uma plantação, no quintal da casa de uma senhora. Ela o adota e vemos, assim, a importância da criação, do exemplo que a mãe dá, mesmo não sendo a progenitora (não sabemos de onde veio o garoto e ele nem se importa com isso). Numa bela cena, o garoto derrama o leite na casa, e a senhora, ao invés de reprimi-lo ou castigá-lo, usa o cenário formado para brincar com o garoto e ensinar uma lição: “Que grande lugar é o mundo!”, diz a senhora. Após ela falecer, Totó vai para o orfanato e só sai quando adulto. Ele não sai revoltado, desesperado. Pelo contrário, ele abraça a vida que é possível ter. Se acomodando em um terreno tomado por mendigos, sua maneira de olhar o mundo, seu comportamento, vai contagiar a todos, com direito a um acontecimento especial – um milagre – que será concretizado através do garoto. Na verdade, o garoto em si já é o milagre, sua forma de encarar a vida, ajudando ao próximo, não se colocando acima de ninguém e considerando todos importantes. É a figura da gentileza, da simplicidade, a pregação da igualdade. Diante de alguém com menor estatura, o garoto se abaixa.
Os pobres, oprimidos, estão numa situação difícil: terão que abandonar sua morada por conta de um burguês que anseia pelo local. Só mesmo um milagre para salvá-los. Quando tudo parece perdido, Totó recebe uma ajuda dos céus, começando a produzir os milagres. Cenas engraçadas surgem, com seus efeitos especiais que, para a década de 50, foi também como um milagre para o cinema. Temos cenas como a do negro e de uma branca que se aproveitam do milagre para tentar ficar juntos, outra com soldados que são obrigados a cantar ópera para não falar o comando de ataque aos pobres moradores, entre outras. Numa cena, vemos que um garoto é usado como uma espécie de campainha (preso à uma corda, ele avisa quando alguém chegou à porta e puxou a corda). Bem engraçado!
Criatividade, cenas divertidas e muita reflexão. Sem contar o ator Francesco Golisano, que ficou muito bem no papel de Totó, nos contagiando com a alegria de viver, em contraste com a vida que leva, como se o maior dos problemas na verdade nem fosse um problema. O filme trata simplicidade e prega a verdadeira revolução. Os pobres, em uma cantoria agradável, mostram o que querem:

“Tudo o que precisamos é de um barraco
Para viver e dormir
Tudo o que precisamos é de um pedaço de chão
Para viver e morrer
Tudo o que pedimos é um par de sapatos
Umas meias e um pouco de pão
É tudo o que precisamos para crer no amanhã
É tudo o que precisamos para crer no amanhã.”

Só mesmo um milagre dos céus para ajudá-los, e uma mensagem de que nós podemos, com nossas atitudes, ser o milagre da vida. Perante Deus, somos todos iguais, como diz a frase no filme:

Existe um reino onde "bom dia" quer dizer realmente "bom dia"!

__________________________________
Fontes:

terça-feira, 6 de agosto de 2013

A Espuma dos Dias (“L’ecume des jours”)

Eu indico
A Espuma dos Dias (França / Bélgica, 2013)

Colin, um jovem rico, quer se apaixonar. Com a ajuda de seu cozinheiro Nicolas e de seu melhor amigo, Chick, ele conhece Chloe, com quem se casa. Mas logo após seu casamento, Chloe fica doente. Ela tem um lírio de água crescendo em seu peito. Arruinado por despesas médicas, Colin recorre a métodos cada vez mais desesperados para salvar a vida da amada. Dirigido por Michel Gondry.

Fábula fantástica:
O diretor Michel Gondry, de “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” (2004), decidiu nos apresentar a um mundo surreal e fantástico, parecido com o nosso, sendo que através das semelhanças ele faz suas críticas à Revolução Industrial, Igreja, filosofia, capitalismo, entre outros, chegando até os sentimentos humanos, principalmente em relação à fragilidade do amor. Desde o início do filme, onde conhecemos o exótico ambiente de Colin, sabemos que o estilo, adaptado da obra de Boris Vian, autor do livro “A Espuma dos Dias”, é de um universo surreal, com comportamentos inventados e engenhocas fantásticas. Após duas adaptações, uma francesa de 1968 (“'A Flor da Vida, dirigido por Charles Belmont) e outra japonesa de 2001 (“Kuroe”, de Gô Rijû), chega agora às telas essa nova versão.
O cineasta francês parece gostar de explorar os limites da tecnologia e do surreal. Com direito a um piquenique com sol e chuva (ao mesmo tempo), objetos loucos como uma campainha que se move como um despertador pirado (que deve ser destruída toda vez), mesas móveis, comida que dança, um cozinheiro que orienta um aprendiz de dentro do fogão e da geladeira, um ratinho-homem que ajuda em várias atividades, e até um “pianocktail”, um piano que faz as bebidas de acordo com a nota musical e a intensidade com que ela é tocada. Brincando com imagens, sons, músicas, palavras e tudo o que existe, temos uma obra visual cheia de alegorias e todo um mundo em movimento.
Mas tudo isso é uma desculpa, não somente para criticar algumas questões da vida, mas principalmente para mostrar uma história de amor, que vai desde o seu surgimento meigo, interessante e alegre, até o seu estado de sofrimento por conta de uma fatalidade. Colin (Romain Duris) e Chloé (Audrey Tautou) se apaixonam e decidem viver juntos. Tudo vai bem até que a moça fica com uma grave doença após ingerir uma flor, que passa a crescer em seu pulmão. A situação em si é tão trágica e rara, como vários aspectos do filme. A partir desse fato, o filme ganha uma grande nebulosidade, as cores que eram vivas se perdem, a escuridão aparece, as engenhocas divertidas vão sumindo aos poucos, ou definhando junto com os personagens. O personagem Nicolas, fiel amigo, cozinheiro e faz-tudo de Colin, interpretado pelo carismático Omar Sy, de “Intocáveis” (2011), nos momentos de dor e sofrimento, reage com um envelhecimento desnatural.
A fotografia é fantástica, seja na primeira parte do filme (cores vivas e muita alegria), seja na segunda (cores ausentes e tristeza), onde tudo muda de tom e as pessoas são afetadas junto com o ambiente. O amor faz renascer, mas também pode fazer desabar toda uma vida, neste caso paulatinamente, mas com a sensação de efemeridade, como uma espuma que vai sumindo com os dias, e como se nos afundasse, enfim, num pântano sujo e escuro. Não deixa de ser uma fábula fantástica sobre a vida, o amadurecimento, os momentos bons e ruins e o preço do sentimento e do apego.

__________________________________
Fontes: