Apresentação

Como cheguei aqui

Sempre gostei de indicar filmes e compartilhar informações, sensações e opinião pessoal sobre eles. A atividade cinematográfica é uma das minhas paixões. Optei aqui por indicar 3 filmes por mês, manifestando a minha opinião como um simples espectador, compartilhando algumas informações sobre os filmes selecionados. Espero que o resultado seja agradável para quem visitar.

Enquanto for interessante, estarei por aqui...


Cinema Paradiso (Itália/França, 1988)

quarta-feira, 23 de maio de 2012

A Fraternidade é Vermelha (“Trois couleurs: Rouge”)

Eu indico
A Fraternidade é Vermelha (Polônia / França / Suíça, 1994)

Irene é Valentine, modelo suíça vivendo em Paris, longe do namorado ciumento. Sua história é interligada a de um jovem que estuda para ser juiz. Certa noite, Valentine está dirigindo seu carro de volta para casa quando atropela algo em seu caminho. Ao descer do veículo, encontra uma cachorrinha ferida, com o endereço de seu dono na coleira. Assim ela passa a conhecer a pessoa que iria alterar o curso de sua vida: um juiz aposentado, que termina seus dias espionando as conversas telefônicas de seus vizinhos. Por trás deste estranho comportamento, está o enigma de um homem cujo motivo vital é tomar posse da intimidade daquelas pessoas e acompanhar passo a passo o desenrolar de seus destinos.

Rouge – COM UM POUCO DE SPOILER:
O cineasta polonês Krzysztof Kieślowski tem a Trilogia das Cores - A Liberdade é Azul (1993), A Igualdade é Branca (1944) e A Fraternidade é Vermelha (1994) - como a sua obra-prima, sendo esta composta por três filmes, cada um inspirado no significado de cada cor da bandeira francesa. O filme A Fraternidade é Vermelha fecha a trilogia e é, de longe, o melhor dos três. Visualmente já impacta, começando pela beleza peculiar da atriz Irene Jacob, junto com o uso sutil de tons de vermelho (carros, batom, outdoor, sinal no vermelho, bolas de boliche, frutas, sangue, cadeiras e cortina de um teatro etc). A trilha sonora é muito boa, inclusive em cenas que poderiam ser barulhentas, a música sobrepõe o som natural e dá um sentido mais amigável. A fotografia é excelente, em algumas cenas a câmera passeia de forma a acompanhar o diálogo e vai dando mais sentido ao mesmo. Preste atenção em como a câmera foca o copo quebrado no boliche e como a visão da câmera sai de um local para outro enquanto os dois personagens principais conversam, principalmente no final da cena do desfile, quando a visão sai da parte alta do teatro até a parte de baixo, enquanto o juiz conta o episódio que ocorreu com ele anos atrás. Em outra cena, raios solares entram e saem de um quarto meio escuro após um comentário de um dos personagens.
Em meio a diversos fatores casuais, a modelo Valentine passa a ter momentos de convivência com o juiz aposentado e vamos percebendo que, aos poucos, o sentimento inicial de repulsa vai se transformando em afeto, e a vida e destino de ambos os personagens se transforma, pois eles passam a tomar decisões que antes não tomariam. Seria mesmo o acaso ou destinos marcados para se cruzar? Essa dúvida permeia a trama principalmente quando somos apresentados a outros personagens, como o jovem juiz que passou por situações muito parecidas com as do juiz aposentado. Podemos até decidir que se trata do mesmo personagem, com as cenas exibidas em épocas diferentes, mas nos mesmos locais por onde passa a personagem Valentine. Ou até mesmo podemos achar que a Velentine é a própria amada do juiz (ele comenta que sonhou com Valentine com aproximadamente uns 50 anos de idade, na época em que a sua amada o havia traído). Ou as histórias se repetem, ou são uma única história.
Rouge faz uso das possibilidades e consequências, mesmo em cenas silenciosas e sutis (a imagem do copo quebrado complementa uma cena anterior). Questiona as relações humanas e dá ênfase à comunicação com o olhar. Os dois personagens principais dizem a mesma frase para o outro em duas cenas separadas:
- Como sabe?
- Não foi difícil adivinhar.

Fraternidade:
A fraternidade é um conceito ligado às idéias de Liberdade e Igualdade, juntos eles caracterizam grande parte do pensamento revolucionário francês. A idéia de fraternidade estabelece que o homem fez uma escolha consciente pela vida em sociedade e para tal estabelece com seus semelhantes uma relação de igualdade, visto que em essência não há nada que hierarquicamente os diferencie: são como irmãos (fraternos). Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. A fraternidade é vermelha, assim como os laços sanguíneos, semelhantes em sentimento à amizade fraternal que surge entre uma modelo e um juiz aposentado.
No filme, somos questionados a respeito de nossa incompreensão mútua, a indiferença com que nos tratamos, o não reconhecimento do outro; também existe a falta de comunicação ou presença de mal-entendidos, pré-julgamentos. O próprio juiz comenta que não sabia se estava ao lado do bem ou do mal, quando exercia sua profissão e julgava as pessoas no tribunal. Temos até a contradição do que é supérfluo com o que é fraterno, como na cena do desfile de moda, enquanto todos olham para a modelo no palco, ela procura pelo juiz, seu amigo, no meio da platéia. Enquanto não o encontra, se sente sozinha. Quando ela o encontra no final, comenta que sente medo em relação ao que ocorre ao redor dela, e o juiz simplesmente segura a mão dela envolvida em suas duas mãos, e este gesto (sem necessidade de palavras) é o suficiente para que ela se acalme.
A cena final contém a ligação entre os três filmes, quando vemos os personagens principais de todos eles saindo da balsa, e por último surge a modelo, já ao lado do jovem juiz.
Consagrado internacionalmente após a trilogia, em 1995, Kieslowski abandonou as câmeras dizendo que estava achando tudo muito chato e preferia viver ao invés de fazer cinema. O irônico é que ele morreu logo depois, de enfarto, aos 55 anos, em março de 1996.

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Fontes:

http://www.screamyell.com.br/secoes/trilogia.html
http://clayton-melo.blogspot.com.br/2007/02/fraternidade-vermelha.html
http://cinemaeaminhapraia.com.br/2009/02/04/a-fraternidade-e-vermelha-trois-couleurs-rouge/

quarta-feira, 16 de maio de 2012

A Trilha (“A Perfect Getaway”)

Eu indico
A Trilha (EUA, 2009)

Cydney (Milla Jovovich) e Cliff (Steve Zahn) são um aventuroso casal que resolve comemorar a lua-de-mel fazendo trilhas pelas mais belas e remotas praias do Havaí. Caminhando nas selvagens e isoladas trilhas eles acreditam ter encontrado o paraíso. Entretanto, quando se deparam com um assustado grupo de turistas que informa sobre o assassinato de um casal em outra ilha eles passam a discutir um possível retorno para casa. Longe da civilização, todos aparentam ser uma ameaça e ninguém sabe em quem confiar. O paraíso se transforma em um verdadeiro inferno quando uma batalha pela sobrevivência tem início.

6 estranhos, 2 assassinos e 1 ilha paradisíaca:
Temos um enredo de suspense num cenário bacana, uma região remota do Havaí onde grupos fazem trilhas e acampam, buscando alcançar paraísos naturais. Mas este cenário entra em conflito com os anseios dos personagens, após receberem a notícia de que um casal foi assassinado recentemente numa região próxima e, com isto, existe o risco dos assassinos estarem por perto.
Steve Zhan e Milla Jovovich são o casal Cliff e Cydney, que vão passar a lua de mel fazendo uma trilha nessa região. Eles anseiam em alcançar um refúgio paradisíaco e perfeito (justificando o título original “A Perfect Getaway”). Só que o local em questão só pode ser alcançado por uma trilha e, assim, temos os riscos naturais como penhascos e correnteza, alinhados ao risco maior de se deparar com os assassinos no meio do caminho. Aqui temos uma questão interessante que é o casal entrando em discussão para decidir se vai continuar ou desistir, e a situação piora quando vão se deparando com outros casais no caminho e começam a cogitar se um deles é o assassino. A cada momento de decisão vemos o peso do ego humano e da vontade de ir até o fim, e por outro lado o medo e desconfiança em relação aos outros. Vamos acompanhando essa situação do ponto de vista do casal principal (Cliff e Cydney), mas em algum momento no meio da trama também passamos a ver o ponto de vista de um outro casal, o ex-soldado Nick e sua namorada Gina (Timothy Olyphant e Kiele Sanchez). A inversão de ponto de vista é interessante até para explicar as revelações que vão ocorrendo. Temos um terceiro casal que aparece mais esporadicamente, Cleo e Kale (Marley Shelton e Chris Hemsworth), e logo de cara as suspeitas do casal principal caem sobre eles. Inevitavelmente há uma convivência entre os casais e aí nos deparamos com uma certa paranóia entre eles, cada diálogo deixa um clima tenso pois todos estão desconfiando de todos, mas ninguém traz o assunto à tona, uma característica comum no relacionamento humano.
Fazendo uso de alguns clichês, mas sem exagerar e deixar com que a trama esfrie, podemos considerar este como uma exceção dentro de muitos filmes do mesmo gênero que não agradaram. Tinha grandes chances de ser comum e chato, mas achei que conseguiu surpreender, principalmente para quem for assistir sem muito compromisso ou expectativa. Na verdade é justamente quando começa a esfriar que o filme apresenta uma bela reviravolta. No início parece que a história vai seguir um padrão com final previsível, com pistas sendo mostradas quase o tempo todo. O filme abre possibilidade de diferentes conclusões, e para aqueles que gostam de imaginar como seria se a direção estivesse por sua própria conta, pode ou não gostar do resultado. O clima de suspense é ajudado pela interpretação dos atores, sem contar que as mulheres são lindas (principalmente Milla Jovovich). Gostei muito da atuação de Steve Zhan e Milla Jovovich, principalmente pelo fato de interpretarem os mocinhos e parecerem tão vulneráveis em meio a uma trama tão sórdida e misteriosa.
Temos espaço para momentos de ação e aventura, do tipo perseguição entre predador e presa. Nesses momentos nos resta torcer pelos inocentes... ou não. Interessante que em uma cena anterior temos também uma perseguição entre predador e presa, que é uma caçada feita a um animal, para fins de alimentação dos casais. Pode não ter sido de propósito, mas de uma certa forma uma cena complementa a outra, já que posteriormente temos uma caçada humana, seres da mesma espécie no papel de predador e presa.

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Fontes: 

http://www.cinema.com.br/filmes/a-trilha.html

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Distrito 9 (“District 9”)

Eu indico
Distrito 9 (EUA / Nova Zelândia / África do Sul, 2009)

Alguns anos atrás, os aliens fizeram seu primeiro contato com a Terra. Humanos esperavam que a raça fosse hostil e proporcionasse um ataque ao planeta. Ao invés disso, as criaturas acabam refugiadas numa favela na África do Sul, o Distrito 9. Mas ao expandirem o seu território, o governo começa a agir e contrata a MNU, uma empresa que tenta controlar os alienígenas e mantê-los em campos de concentração.

D9:
Ao invés de revisitar a velha idéia do extraterrestre que invade a Terra e, mais precisamente, os Estados Unidos, aqui a nave-mãe alienígena paira sobre Johanesburgo, uma das maiores metrópoles da África do Sul, como o próprio protagonista conta no início do filme: “Para surpresa geral, a espaçonave não parou sobre Manhattan, Washington nem Chicago. Ela veio parar diretamente sobre Joanesburgo.”. Outra inusitada façanha foi passar boa parte do filme como um documentário, com a população local narrando as desventuras de ter 2 milhões de ETs como vizinhos. O resultado é um grande realismo nas cenas, mesmo com todas as criaturas aparecendo.  A pós-produção foi feita pela equipe de Peter Jackson com um orçamento de 30 milhões de dólares. O estreante diretor sul-africano Neill Blomkamp pretendia na verdade dirigir o filme de Halo – um famoso e premiado game de tiro em primeira pessoa lançado inicialmente em 2001 para o console Xbox. Quem conhece esse tipo de jogo vai perceber que no filme Distrito 9 existem algumas cenas bem ao estilo Halo, com armas sofisticadas, pessoas e criaturas explodindo.
Cenas de ação bem bacanas começam a surgir antes que o filme fique cansativo, já que na primeira metade são mostradas, em forma de pseudodocumentário, algumas entrevistas e a operação de transferência dos alienígenas do distrito nove, um campo de refugiados na cidade sul-africana, criado há 20 anos para abrigar os visitantes perdidos do espaço. Vamos acompanhando o personagem Wikus van de Merwe, que é o encarregado dessa operação; por sinal, muito bem interpretado pelo ator estreante Sharlto Copley, amigo de infância do diretor (ambos fizeram a direção e produção do curta de 2005 Alive in Joburg, que deu origem ao roteiro de Distrito 9). O estilo de pseudodocumentário com ficção passa a ser de ação com ficção, mesmo ainda mantendo momentos com depoimentos rápidos e o uso de câmeras de rua, visores de armas de longo alcance, noticiários, vídeo de câmeras de vigilância etc. A partir daí temos explosões, armas extraterrestres exóticas, fugas e cenas movimentadas que podem empolgar o público.
O filme foi indicado a quatro Oscar em 2010 (Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado, Melhores Efeitos Visuais e Melhor Edição). As indicações de melhor filme e roteiro adaptado são conseqüência principalmente do caráter de crítica ao preconceito e segregação social. O título e a premissa de District 9 foram inspiradas pelos acontecimentos que tiveram lugar no District Six, na Cidade do Cabo, durante o apartheid. Afinal, mostra os alienígenas pobres, favelados e em situação de miséria. Cartazes que proíbem a aproximação de alienígenas estão espalhados pela região, e as pessoas entrevistadas manifestam o seu repúdio pelas criaturas, batizadas pelo nome de “camarões”, justamente pelo fato deste animal estar bem abaixo na cadeia alimentar, além de ser conhecido por alimentar-se de lixo (uma comparação fiel à forma de tratamento que a população dá aos aliens). Existe toda uma crítica à imprensa, que é manipulada pela MNU e distorce os acontecimentos, quando mostra por exemplo uma imagem manipulada de Wikus com um alienígena e insinua que ele está infectado com uma exótica doença sexualmente transmissível e altamente contagiosa. A própria MNU acaba sendo desmascarada como uma fachada para experimentos ilegais com as criaturas, pois recebe imensos lucros para aprender a manipular as armas encontradas na nave-mãe ou fabricar armas que tenham como matéria-prima as defesas naturais dos alienígenas. Wikus acaba sendo um tipo de anti-herói que despreza seu inimigo e de repente se vê forçado a se colocar no lugar dele. Nada como fazer as pessoas provarem do próprio preconceito para que elas percebam como antes eram preconceituosas.

Marketing criativo:
Uma campanha de marketing do filme começou em 2008, na San Diego Comic-Con, enquanto o trailer surgiu em Julho de 2009. Em entrevista, o diretor Blomkamp afirmou que a idéia era fazer o público sentir, no começo, uma certa ojeriza pelos aliens, que eles parecessem insetos nojentos, mas, ao longo da história, criar uma empatia por eles. Houve toda uma pesada campanha publicitária em estilo realista, com cartazes espalhados por cidades americanas pedindo para denunciar aliens e mantê-los à distância; havia até um número para telefonar e uma secretária para atender e encaminhar a denúncia. O site abaixo explica o que acontece:
Apesar do tom sinistro de brincadeira, muitas das entrevistas vistas no filme são bem reais e falam de uma África do Sul que vai além da relação mais óbvia com o apartheid. Blomkamp entrevistou sul-africanos pobres sobre o que eles achavam dos "alienígenas ilegais" (similar a "imigrantes ilegais"). Como não sabiam do filme, os entrevistados soltavam o verbo contra os zimbabuanos que passaram a imigrar em massa para a África do Sul nos últimos dez anos, fugidos da ditadura de Robert Mugabe e povoando as favelas do país vizinho. Nada melhor do que passar a história na áfrica, representando a guerra entre duas raças. O filme também abre espaço para os grupos de direitos humanos, que chegam a defender os aliens contra os abusos por parte dos “mercenários” da MNU.

domingo, 15 de abril de 2012

A Doce Vida (“La Dolce Vita”)

Eu indico
A Doce Vida (Itália, 1960)

O jornalista Marcello (Marcello Mastroianni) vive entre as celebridades, ricos e fotógrafos que lotam a badalada Via Veneto. Neste mundo marcado pelas aparências e por um vazio existencial, freqüenta festas, conhece os tipos mais extravagantes e descobre um novo sentido para a vida. Em meio a uma infinidade de personagens famosos e exóticos, figuras extravagantes e mulheres lindas, Fellini realiza uma crônica social da época, retratando o tempo da velocidade, da influência norte-americana nos costumes sociais, dos carros, festas e mulheres formidáveis.

Fellini e a vida - SPOILER:
Federico Fellini, um dos mais expressivos diretores do cinema italiano, nos imerge no mundo da alta sociedade romana do pós-guerra. Através dos olhos do personagem Marcello, um jornalista de origem humilde que acaba tendo destaque na alta sociedade romana por cobrir matérias dentro desse cenário, Fellini mostra uma Roma caminhando para a modernidade e também para a decadência.
O repórter é um homem sem compromisso, que se relaciona com várias mulheres, esforçado no seu trabalho e que deseja se tornar um bom escritor. Ele vai passando por uma espécie de transformação, através da convivência com este mundo de aparências e falsidades. Mas não é só isso que o influencia, mas também o suicídio de um grande amigo – talvez o único amigo verdadeiro – do jornalista, logo depois de assassinar seus próprios filhos. Isso ocorreu cenas após um diálogo entre os dois, quando o amigo de Marcello proferiu sábias palavras sobre a amargura da vida. Apesar de toda sua riqueza, família aparentemente perfeita e rodeado de pessoas famosas, o amigo do jornalista acaba sucumbindo. Talvez este tenha sido o estopim para que Marcello se entregasse completamente à mediocridade e falsos amigos. Seu sonho de se tornar um escritor vai ficando cada vez mais distante e, aos poucos, o filme caminha para um final amargo, fazendo uma ironia com o próprio título.
O filme possui algumas seqüências que ficaram bem famosas, inclusive a primeira e última cena são de uma sensibilidade única. A primeira cena é algo que considero diferente e bem pensado. Imagine a estátua de Jesus Cristo sendo levada por um helicóptero até o Vaticano, as pessoas que estão no solo acham aquilo uma visão inusitada e, a medida que o helicóptero vai sobrevoando Roma, somos introduzidos a um visual da cidade se aproximando da modernidade, muitos prédios sendo construídos e de certa forma ofuscando o visual antigo da cidade, marcada por catedrais e cenários de pedra. O jornalista - que está no helicóptero - fica sobrevoando uma cobertura com piscina e mulheres, tentando conseguir o número de telefone de uma delas, mas o barulho dificulta a comunicação. Da mesma forma que a falta de comunicação ocorreu nesta cena e permeia essa sociedade, temos na última cena o barulho do vento e do mar impedindo que o personagem escute a garota que está na praia, ambos separados pela água e tentando se comunicar. Ele não parece se recordar da garota que havia conhecido na época em que tentava se dedicar a escrever um livro, mas ela o reconhece e tenta se comunicar. Após algum tempo, ele desiste e a garota sorri e olha para a câmera, ou seja, para nós espectadores, como se fizemos parte do filme e ela nos encarasse para saber que escolha faremos na nossa vida. Essa menina de rosto singelo pode ser a única ligação do personagem principal com uma vida de verdadeiro sentido. Uma forma inusitada de concluir a história.
Temos também a famosa sequência da Fontana di Trevi (a Fonte dos trevos, uma ambiciosa construção de fontes barrocas da Itália, com cerca de 26 metros de altura e 20 metros de largura), onde Marcello acompanha uma atriz de Hollywood, em passeio por Roma, e ela acaba resolvendo tomar um banho na fonte. Apesar do momento de satisfação com essa atriz e com outras mulheres, nenhuma delas consegue preencher o seu vazio interior, que vai cedendo à tolice, vaidade e insegurança. Pouco antes do final do filme, um grupo encontra um peixe enorme na beira da praia, e voltam sua atenção aos enormes olhos do animal, enxergando à sua volta um mundo incompressível e sem sentido, da mesma forma que o personagem principal.

Celebridades e curiosidades:
- O personagem "Paparazzo", fotógrafo interpretado por Walter Santesso, que trabalha com Marcello Rubini, é a origem do termo que descreve os fotógrafos perseguem as celebridades, denominados paparazzi, no plural. O filme eternizou esse termo;
- Uma das maiores sequências do filme, sobre o relacionamento de Marcello com uma velha escritora que vivia em uma torre e que seria interpretada pela atriz Luise Rainer, foi cortada do filme após uma série de problemas entre Rainer e Fellini. Ela reagiu furiosamente dizendo que: "havia estragado uma peça de roupa caríssima para vestir uma personagem que nunca existiria!";
- No filme aparece Christa Paffgen, que adotou o pseudônimo de Nico, e fez parte da banda Velvet Underground. Essa modelo e cantora interpreta a si própria nesta cena, onde também aparecem alguns garçons que eram aristocratas verdadeiros;
- Na cena do clube romano de estilo antigo, na qual Marcello faz sua primeira investida em "Sylvia" (Anita Ekberg), aparece Adriano Celentano, que anos mais tarde se tornou famoso na Itália como cantor e ator;
- Na noite em que Marcelo Mastroianni morreu, em 1996, centenas de romanos se dirigiram para a Fontana di Trevi, uma singela forma de homenagear o ator.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

O Sol é Para Todos (“To Kill a Mockingbird”)

Favoritos
O Sol é Para Todos (EUA, 1962)

Alabama, anos 1930. A pequena Jean (Mary Badham) é uma menina inteligente que tem no seu pai o grande herói. Atticus Finch (Gregory Peck) é um advogado viúvo que cuida de seu casal de filhos pequenos. Idealista e honesto, ele será o defensor de Tom, um negro acusado de estuprar uma mulher branca. Num júri composto apenas de brancos, todos sabem qual será o veredicto. Mas o advogado não desistirá de tentar provar que Tom é inocente. Além desse julgamento, a amizade de Jean com Boo Radley (Robert Duval), um deficiente mental que vive encarcerado em sua casa, vai fazer com que a menina passe a ver o mundo sob uma nova ótica e descobrir que o mundo dos adultos é mais cruel do que parece.

Um clássico:
Baseado em um romance vencedor do Pulitzer, escrito por Harper Lee e lançado em 1960, o filme tem como base as memórias familiares da autora, assim como um evento ocorrido próximo a sua cidade natal em 1936, quando ela tinha 10 anos de idade. O filme foca nessa cidadezinha pacata e as relações humanas existentes em sua comunidade, sendo que tudo é do ponto de vista de uma criança, a pequena Jean, que vai narrando a história. Dentro deste ambiente e dos acontecimentos, com toda a inocência e travessuras de três crianças (temos junto com a garota o seu irmão e um amigo), a atenção do espectador é constantemente voltada para dois personagens importantes na vida dos meninos: o advogado Atticus Finch, interpretado brilhantemente por Gregory Pack, que além de simbolizar uma pessoa segura no que acredita e dedicada aos seus deveres perante a sociedade, também é um grande exemplo de educação para seus filhos; e o enigmático Boo Radley, visto como uma abominação pelos vizinhos apesar de que o mesmo praticamente não sai de casa. O caráter e a bondade desses dois personagens, apesar de suas diferenças comportamentais, será apresentado ao espectador durante as passagens do filme. Muitos temas e lições são apresentados no filme, mas o que predomina é o preconceito racial. Muito interessante mostrar a incompreensão dos meninos quanto a tamanha idiotice que é esse preconceito.
O filme é um clássico, assim como o personagem Atticus, que foi considerado o maior “herói” dos últimos 100 anos em uma votação promovida pelo American Film Institute. Gregory Peck ganhou o Oscar de melhor ator, sendo que este é considerado o seu melhor trabalho. Além disso, o próprio ator afirma que o personagem se aproxima bastante da sua personalidade na vida real. Além dessa premiação, o filme faturou o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Direção de Arte (em Preto e Branco). Não podemos deixar de lado o fato de que a atriz Mary Badham, com cerca de dez anos, foi indicada para o Oscar de atriz coadjuvante, interpretando com muita naturalidade a garotinha Scout. Este filme também marcou a estreia de Robert Duvall no cinema.
Além da grande lição de humanidade e lição de moral em relação ao preconceito racial, é um excelente filme de tribunal.

Matar um sabiá - SPOILER:
O discurso final no tribunal, pelo do advogado Atticus Finch, é limpo e bem cabível. E o desfecho do julgamento tem uma cena memorável, onde os negros, separados na parte superior da sala, se levantam em sinal de respeito e um deles chama a atenção da filha do personagem para pedir que ela se levante, pois o pai dela está passando.
Veja também que apesar da trama toda ser do ponto de vista das crianças, mostrando sua pureza e infantilidade, destaca também em algumas cenas já um certo amadurecimento, uma certa sabedoria dos meninos, claramente facilitados pelo modelo a ser seguido de comportamento do pai, como na cena em que o advogado está protegendo o negro, que está numa cela, e os garotos se colocam à frente dele para evitar que as pessoas invadam o local armadas. A iniciativa é do filho, e a filha ajuda quando começa a dialogar com uma das pessoas, que ela reconhece da vizinhança.
Outros personagens também têm um papel importante no filme, mesmo que não seja notado na maioria das cenas. O amigo dos irmãos, que sempre cita o seu próprio pai como alguém importante, que sempre está viajando, na verdade percebemos que trata-se de um menino carente pela ausência da figura paterna, dessa forma ele chega até a freqüentar e dormir na casa dos amigos. O personagem Boo possui um papel importantíssimo na trama, tendo várias coisas ligadas a ele (como os objetos deixados na árvore e que vão sendo guardados pelas crianças numa caixinha, sendo que o filme começa mostrando essa caixa aberta), com uma reviravolta no final evidenciando a sua importância.
Matar um sabiá (“To Kill a Mockingbird”, titulo original do filme) é verdadeiramente um crime, já que o animal não faz mal a ninguém. Sabiamente a pequena Scout faz essa comparação aos fatos que estão acontecendo na trama, logo nas ultimas cenas do filme.

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sábado, 7 de abril de 2012

L’Apollonide: Os Amores da Casa de Tolerância

Eu indico
L'Apollonide: Souvenirs de la Maison Close (França, 2011)

Início do século XX: o bordel L’Apollonide está vivendo seus últimos dias. Neste mundo fechado, onde alguns homens se apaixonam e outros se tornam viciosamente dependentes, as garotas dividem seus segredos, seus medos e suas dores.

Tolerância:
O filme nos dá a oportunidade de conhecer o funcionamento de um prostíbulo francês do final do século XIX, retratando bem o cenário e as questões que são desenroladas dentro de um fantástico casarão onde vivem garotas de programa. Cada uma delas possui personalidade e características bem específicas, e todas aparecem nuas, parcialmente nuas ou muito bem vestidas à espera dos clientes, com aqueles longos e enfeitados vestidos de época. Por outro lado, temos também os diferentes clientes, em grande parte a burguesia que consumia os serviços da casa. O casarão é de uma beleza bem trabalhada, com seus móveis e luzes, e as mulheres em sua maioria bem atraentes dão mais beleza ao ambiente. Um investimento bem acertado por parte da direção de arte, casado com uma fotografia rica em pequenos detalhes que podem não ser percebidos de cara: preste atenção na cena onde uma das mulheres está deitada no chão e fumando, veja como a fumaça sai lentamente da mesma e dá uma beleza à cena em si; em outras cenas a câmera está bem posicionada e próxima aos detalhes de rostos e corpos das mulheres.
De forma proposital, quase que não há cenas fora da casa, mostrado que o limite das mulheres é determinado pelas paredes da mansão de tolerância, um limite que elas precisam tolerar e, para algumas, só há consolo no fato de poder sonhar com algo diferente. Chega a ser um acontecimento extraordinário deixar a casa de L’Apollonide, fato que é bem focado no longa quando as mulheres dialogam sobre uma das garotas que abandonou o local. Entre passagens e espaços em comum pela casa, o diretor aproveita e volta algumas cenas já mostrando o ponto de visão de outra mulher (repare bem no início a cena do corredor, que depois será retomada por outro ângulo).
Uma das poucas cenas fora da casa é quando as garotas ganham um dia de folga. Vão para um local natural, ao ar livre, tomar banho de rio, muitas mulheres nuas e felizes pela liberdade de não ter que se oferecer ao cliente que paga por momentos de prazer.

Personagens - PEQUENOS SPOILERS:
Interessante como as mulheres são etiquetadas, principalmente pelos clientes, como por exemplo a mulher que sempre sorri, uma prostituta com cicatrizes no rosto, e como temos o lado humano bizarro de quem chega a pagar só para vê-la. Chega a ser contratada para se apresentar publicamente numa espécie de show erótico, além de se prostituir. Neste ponto sobre esta personagem destaco como o contraste com as cenas que mostram a prostituta no passado, com seu rosto ainda sem marcas, me levou a admirar mais ainda a sua beleza. Antes a mesma era destacada como a bela prostituta judia, mas agora é a bizarra mulher que sempre sorri.
Os clientes também eram apelidados pelas mulheres: o pintor, o barão, o escritor. Cada um com a sua mania e excentricidade. Temos o homem que amava champanhe e faz sexo com as mulheres enquanto elas tomam um banho da bebida, temos o típico cliente que gosta de amarrar as mulheres e até aquele que exige uma espécie de teatro fazendo uma prostituta bem jovem fingir ser uma boneca. Um dos clientes exibe a sua linda pantera quando visita a casa, e o melhor de tudo é que este animal terá um papel importante no filme.
O que poderia ser erótico e vulgar, acaba se tornando belo e natural neste filme. Os corpos das mulheres não são evitados pela câmera, mas sim elogiados por ela.

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domingo, 25 de março de 2012

A Chave de Sarah (“Elle s'appelait Sarah”)

Eu indico
A Chave de Sarah  (França, 2010)

Durante a ocupação alemã na França em 1942, Sarah Starzynski (Mélusine Mayance) é uma pequena judia que vive em Paris com os pais (Natasha Mashkevich e Arben Bajraktaraj) e o irmão caçula Michel (Paul Mercier). Eles são expulsos do apartamento em que vivem por soldados nazistas, que os levam até um campo de concentração. Na intenção de salvar Michel, Sarah o tranca dentro de um armário escondido na parede de seu quarto e pede que ele não saia de lá até que ela retorne. A situação faz com que Sarah tente a todo custo retornar para casa, no intuito de salvá-lo. Décadas depois, a jornalista Julia Jarmond (Kristin Scott Thomas) é encarregada de preparar uma reportagem sobre o período em que Paris esteve dominada pelos nazistas. Ao investigar sobre o assunto, encontra um elo entre sua família e a história de Sarah.

Fato histórico que incomoda os franceses:
Pouco foi divulgado a respeito deste episódio de perseguição antissemita na França - a tragédia do Velódromo de Inverno, ocorrida em julho de 1942, quando cerca de 13.000 judeus franceses - homens, mulheres e crianças - foram arrancados de suas casas e até um campo de concentração. O filme mostra os acontecimentos com detalhes, inclusive vemos a passagem temporária dos judeus pelo velódromo, sem comida, com pouca água e sob assustadoras condições higiênicas. A narrativa introduz, de forma inesperada, novos personagens a medida que o destino de Sarah e da jornalista Julia vai se revelando, sendo interessante que ambas estão em duas épocas diferentes e as cenas vão se revezando, uma estratégia usual mas que ficou bem montada neste filme.
Descobrimos aos poucos, junto com Julia, o destino de Sarah e sua família, com um certo suspense em relação ao garoto preso no armário (instigando a curiosidade do espectador sobre como será o destino dele), num clima e contexto de um período que a França certamente preferia esquecer, mas sobre o qual o próprio presidente Jacques Chirac rompeu o silêncio, num discurso de julho de 1995.

A chave - SPOILER:
Interessante que as cenas com a Sarah já adulta são poucas e o diretor usou cenas soltas e curtas, além de fotos, dando mais ênfase a Sarah quando criança, bem interpretada pela Mélusine Mayance. Além disso, temos um filme que não apelou para trilhas sonoras, deixando as cenas mais sérias, a maioria somente com o som do ambiente.
Temos uma fotografia bem feita, como por exemplo numa cena – a do velódromo – onde a câmera, numa tomada de cima, vai mostrando o panorama das pessoas na arquibancada desconfortável e cheia de sujeira (um enxugando o próprio suor, outro rezando, outros dormindo) em meio a bagunça de pertences pessoais e lixo espalhados por todo canto; a câmera só dá uma parada quando mostra Sarah e os pais, e depois vai baixando lentamente para se aproximar deles.
Numa outra cena bem dirigida, no campo de concentração, vemos pessoas correndo de um lado para o outro, mães desesperadas resistindo ao fato de que os soldados estão separado-as de seus filhos, jatos de água utilizados para afastar as pessoas, e Sarah engatinhando pelo chão à procura da chave que caiu de sua mão durante a confusão. Em outra cena, a garotinha consegue escapar do campo de concentração e está correndo com outra fugitiva num lindo campo aberto, passando por uma floresta até um lago (nesta temos o bom uso de trilha sonora); o contraste do cenário do campo de concentração com o cenário da paisagem do campo e da floresta dão uma aliviada no espectador (as garotinhas chegam a parar para se refrescar no lago, ignorando o fato de que este não está limpo).
Há uma importância grande na insistência da jornalista Julia, após apurar os fatos históricos, em encontrar a Sarah adulta. A experiência de uma jornalista investigativa, alinhada com sua intuição feminina, de decidir simplesmente procurar algo que a princípio pode não fazer muito sentido e não dar em nada, mas que ela sabe que precisa buscar. E assim temos um bonito desfecho, onde depois de tantas voltas ela acaba quase que por acaso transformando e dando mais sentido à vida de outra pessoa.

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